HOMENAGEM PÓSTUMA A ALVARO AMERICANO
Humberto Braga

"Senhor Presidente.

Agradeço a honrosa e triste incumbência que acaba de me dar Vossa Excelência, embora eu não possa deixar de inserir nela uma nota eminentemente pessoal, dada a figura do homenageado, e considerando-se os laços que a ele me prendiam.

Todos, aqui, bem conheceram o Procurador Alvaro Americano. E todos bem conhecem a sua trajetória na vida pública. De modo que me dispensarei de fazer-lhe a biografia, enumerando os cargos que ocupou, ou as honrarias que alcançou. Evocarei, apenas, a sua personalidade.

Não haveria necessidade de ter sido íntimo de Alvaro Americano, para nele observar algumas qualidades admiráveis, a começar pela inteligência. A inteligência atilada, sutil, perspicaz - uma inteligência de grande versatilidade, de grande plasticidade, que o fazia rapidamente compreender as situações e enfrentar problemas novos.

Para medir a versatilidade de Alvaro, é bastante lembrar que foi austero editorialista, doublé de vivaz colunista social, durante anos, em O Globo.

O espírito público foi outra marcante virtude de nosso companheiro morto. Ele era atraído pelos desafios da política, da administração. E, nesta última, deixou o signo da sua passagem - um signo de competência, de labor e, principalmente, de grande honradez. Uma honradez que o situou na galeria dos nossos homens públicos incorruptíveis.

Eu não pararia, agora, se fosse fazer o rol dos serviços prestados por Alvaro Americano à nossa cidade.

O bom gosto e a distinção de maneiras avultavam entre os predicados do Procurador, destacando-o, no juízo de quantos o conheciam, como um perfeito cavalheiro, com quem era sempre agradável conviver e conversar - porque, a esses méritos, se acrescentavam a verve, a agilidade de espírito, a ironia leve, o chiste malicioso.

Todavia, para mim, a suprema virtude de Alvaro Americano foi a sua lealdade aos amigos. Ele se extremava na dedicação aos que lhe eram caros e, não só os assistia nos momentos difíceis, como chegava até a envolver-se nas suas pendências e a participar de seus conflitos. Ele prezava a amizade militante - aquela que não se limita às palavras cálidas ou aos protestos enfáticos - e foi de uma gratidão exemplar a quantos o ajudaram na vida pública, tais como Francisco Negrão de Lima, Augusto Frederico Schmidt e Sá Freire Alvim.

De todas essas qualidades, de todas essas virtudes, ele nos deu um permanente testemunho durante os longos anos em que aqui esteve conosco, beneficiando-nos com a sua companhia inestimável e concorrendo com a sua inteligência, com a sua correção, com o seu esforço para o lustre e a dignidade deste Tribunal. Tão ligado foi ele a esta Corte, onde serviu durante mais de treze anos, que a sua morte tem o significado de uma perda cruel para nossa Casa.

Se alguém me perguntasse a que está mais associada, em mim, a figura de Alvaro Americano, eu poderia responder: aos últimos trinta anos de minha vida. Porque esse foi o período de nossa amizade. Mas darei uma resposta diversa: ele está associado à minha mocidade, principalmente àquela fase da mocidade com o sol já a pino, na década dos trinta anos. Ele e outros companheiros, como Vossa Excelência, Senhor Presidente como o Conselheiro Reynaldo Sant'Anna, são inseparáveis, na minha lembrança comovida, daqueles dias inquietos, daqueles dias trepidantes, daqueles dias heróicos - eu poderia chamá-los assim - que marcaram a primeira fase do governo de nosso incomparável e inesquecível chefe, Francisco Negrão de Lima.

Vossa Excelência há de recordar-se, Senhor Presidente, o Conselheiro Reynaldo Sant'Anna se recordará, também, como os perigos eram reais e eram grandes. Os obstáculos amontoavam-se diante de nós, dramaticamente, quase formando uma barreira infranqueável, um óbice intransponível. A paixão política e a intolerância facciosa despejavam diariamente sobre o nosso governo os seus dardos venenosos. Caminhávamos sobre um terreno eriçado de dificuldades e de armadilhas. Tudo em derredor de nós parecia ameaça, incerteza, hostilidade.

Alvaro Americano foi um companheiro de extraordinária lealdade, de extraordinária bravura, naquela quadra de ansiedade e de vibração. Ele contribuiu para a vitória; uma vitória tão grande, que nós todos nos orgulhamos de ter participado dela.

Lembrando aquele tempo, eu entendo melhor a consistência, a solidez das amizades que nascem entre camaradas de guerra. Um vínculo indestrutível se forja entre os homens que se fizeram amigos no fragor da luta - e que bela luta foi aquela! Porque a vitória foi maior no governo
do que nas urnas.

E, hoje, que resta de tudo aquilo? O Governador Negrão de Lima já nos deixou. Agora, juntou-se a ele, antes de chegar à velhice, o seu magnífico Secretário de Administração.

Os franceses têm uma frase de doloroso ceticismo: les morts vont vite ('os mortos partem depressa'). Com ela, fazem alusão à rapidez com que os vivos costumam abandonar os mortos nas brumosas, nas indistintas margens da deslembrança, do esquecimento.

Mas eu espero que o Tribunal de Contas não esqueça o Procurador Alvaro Americano. Quanto a mim, estou certo de que não virei a olvidar aquele querido companheiro. Ele deixou comigo o legado de uma saudade que não se apagará da minha memória, da minha sensibilidade, porque a sua figura demora, com permanente e poderosa presença, na evocação dos anos mais memoráveis da minha vida."

TRIBUNAL DE CONTAS, 10/07/1984

 
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