Presença da Espanha
Humberto Braga

Senhor Presidente Fernández-Pirla: nossa Casa honra-se com a visita de V. Exa. Hoje, não recebemos apenas o Presidente do Tribunal de Contas de um grande país. Com ele vieram também o jurista, o economista, o cientista social, o professor e o escritor. O saber comprova-se em suas múltiplas atividades intelectuais e em suas obras, consagradas pela crítica e pelo público.

Nesta altura de sua vitoriosa e brilhante trajetória, V. Exa. ocupa a Presidência do Tribunal de Contas da Espanha, do Reino da Espanha, com uma perfeita, precisa noção dos fundamentos e das finalidades desta Instituição. A exemplo de V. Exa., em consonância com as suas idéias, também nós vemos a Corte de Contas como uma peça indispensável e relevante da organização democrática. Ela é um órgão limitador do poder e, portanto, incompatível com o arbítrio. Um poder absoluto é um poder infiscalizável. Todavia, não me alongarei sobre esse tema, que será o objeto da conferência de V. Exa.

Já aludi à satisfação e ao desvanecimento com que recebemos o jurista, o economista, o humanista e o professor, mas com V.Exa., uma formidável presença também se percebe agora e aqui: a da Espanha. V. Exa. é um filho ilustre e bem representativo da Espanha. Difícil, muito difícil, falar sobre ela, porque tudo quanto dela se disser ficará aquém da sua grandeza.

Costumo dizer que se alguns países provocam minha sensibilidade e outros minha admiração, a Espanha desperta minha exaltação. Onde estará o âmago da alma espanhola? No heroísmo, no orgulho, na altaneria, na vibração, no sentimento exacerbado da honra? Certamente, em tudo isto mas, sobretudo, em algo que a tudo isto abrange e transcende.

Esse algo foi que repontou em séculos remotos, naqueles indomáveis cavaleiros e capitães de Castela, de cuja bravura foi o Cid o símbolo e a legenda. Foi esse algo que animou a gesta da Reconquista e manteve vivo o espírito de cruzada. Foi esse algo que impeliu as caravelas de Colombo e de Magalhães para a epopéia prodigiosa pelo mar imenso e misterioso, rasgando o véu que encobria o mundo na sombra do ignoto.

Esse algo foi que inspirou reduzidos contingentes aventureiros, punhados de aventureiros, a conquistarem em duas décadas enormes impérios, quando as legiões de Roma precisaram de dois séculos para subjugar os antigos espanhóis, de Numância.

Este algo foi que abrasou os santos e os místicos da Espanha, tabernáculos da cristandade, mo exaltado amor de seu Deus e na apaixonada defesa da fé.

Após o Siglo de Oro, pareceu que todo esse fulgor se extinguira, ou se transformara em fogos do ocaso. Quevedo traduziu esse melancólico estado de espírito num dos seus últimos sonetos, talvez o último soneto, aquele em que começa pelo verso "miré los muros de la pátria mia", e termina, referindo-se a tudo quanto via em derredor: "Que no fuese recuerdo de la muerte".

Após a realizacão dos mais espantosos prodígios da História, dir-se-ia que as energies da Espanha se haviam esgotado.

Já manifesta nos últimos Áustrias, a decadência do poder de rei mais se acentuara com a nova dinastia.

O inquietante gênio de Goya revelou a degenerescência dos Bourbons da época, naquele quadro terrível: “A família de Carlos IV”. Mas, se a monarquia estava desacreditada e corrompida, a alma do povo espanhol guardava bem acesa a chama que se apagara nos palácios reais.

Não ter compreendido isso foi o erro de Napoleão. O grande corso confundiu no seu desprezo os soberanos indignos e o povo heróico. E pagou caro por esse erro. A resistência ao invasor francês foi dos mais gloriosos feitos que a História registra. Um povo praticamente desarmado enfrentou, com êxito, o exército até então reputado invencível. Inspiraram-no o amor da pátria e o sentimento da honra.

A honra, bem sabemos, não se confunde com a honradez. Ela é um misto de orgulho, brio e altivez. Dizem que está em decadência no mundo moderno. Mas, hoje, como ontem, os espanhóis são capazes de lutar, sofrer e morrer pela honra.

Transcendendo o amor da pátria e o sentimento da honra, há aquele algo a que aludi há pouco. Mais nítido ainda do que num Cortez ou num Loyola, ele aparece na saga do cavaleiro manchego, o mais alto símbolo do Ocidente, que, no dorso de Rocinante, lança em riste, buscava e busca ainda a "salida para el imposible".

Este algo é aquilo a que nós chamamos de ideal, isto é, inspiração e força que ultrapassa de muito os fins pragmáticos e limitados da vida. E como o ideal é inseparável da alma e do gênio da Espanha, ela não pode declinar. Após o martirológio de uma sangrenta guerra civil, acabou sendo um Bourbon, um descendente daquela desprezada família do passado, quem unificou a nação para a democracia e presidiu pacificamente à sua implantação.

O vitorioso modelo espanhol serviu de exemplo para nós brasileiros; através de um grande, de um intenso sofrimento, como o que nos acometeu nestes dias terríveis, estamos tentando alcançar os mesmos fins. O culto do ideal é a lição permanente, definitiva, eterna da Espanha.

Ouçamos agora a lição do eminente espanhol que nos visita. Presidente Fernández-Pirla, seja benvindo


Tribunal de Contas do Estado do Rio de Janeiro, sessão de 15 de abril de 1985.
Tribunal de Contas do Estado do Rio de Janeiro, 15/04/1985

 
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