Um Ente Amado (Gilson Amado)
Humberto Braga

Senhor Presidente, anteontem, terça-feira, não pude vir ao Tribunal, mas pude ir ao Cemitério São João Batista. Ali, a repórter de uma emissora me perguntou o que eu tinha a dizer diante do corpo de Gilson Amado. Declarei que quando nós, os seus amigos e admiradores, conduzíssemos à tumba aquele corpo pequenino, aquele corpo de talhe exíguo, nós estaríamos sepultando um gigante.

Estou convencido de que não atraí uma metáfora. Não foi apenas um jogo de palavras, não foi apenas uma imagem de efeito, foi a expressão de uma sentida, de uma verdadeira admiração. É claro que falo emocionado de Gilson Amado, pois tive a fortuna, tive a ventura de sentir o calor e o benefício de sua amizade. Mas foi ele um gigante pelo talento, pelo brilho, pela versatilidade, pela multidireção do espírito, pois era capaz de falar a respeito de tudo.

Não acredito que chegasse a ser propriamente um homem culto, porque não sei como teria tempo para ler ou estudar. O que tinha era um talento crepitante, fagulhante, uma imaginação eruptiva e um entusiasmo extraordinário. Então, não era ele só o homem infatigável, o homem brilhante, o homem curioso da vida, amoroso da vida. Não era apenas o bom amigo, era o gigante da comunicação, que dela se serviu para fazer uma obra extraordinária de espírito público, num campo tão relevante como o da educação.

Ainda ontem, esse magnifico, esse esplêndido jornalista que é Artur da Távola observou que a TV Educativa é Gilson Amado, confunde-se com a pessoa dele.

Era um oligarca da inteligência, pois fazia parte de uma dinastia do talento com os seus ilustres irmãos Gilberto Amado e Genolino Amado, grandes escritores, ambos também meus amigos pessoais. Casado com uma mulher admirável, a Professora Henriette Amado, era pai de uma atriz igualmente admirável, como é Camila. Nada tinha de arrogante ou jactancioso. Ao contrário, quando tantos se comprazem em fustigar, ele se alegrava em exaltar.

Oscar Wilde disse uma vez: "É muito fácil encontrar pessoas que se solidarizem com nossos infortúnios, mas muito raro encontrar aquelas que se alegram com os nossos sucessos". GiIson Amado era um destes. Sentia um entusiasmo juvenil, uma alegria genuína diante do talento e do mérito.Tinha verdadeira volúpia em elogiar e exaltar, quando podia elogiar e exaltar com justiça.

Sr. Presidente, eu me encontrava em sua casa naquela noite em que, pela TV, falou de mim e do meu livro sobre a China. Bem me recordo ainda. É claro que falava como amigo, mas com que satisfação, com que prazer! Ainda recordo aquela expressão, aquela gesticulação, daquele homem feio e com sotaque ainda pior do que o meu. Tivemos ocasião muitas vezes de debater pela televisão. Era difícil quem tinha pior sotaque.

Gilson Amado deixou-nos. Mas tenho certeza, ao propor uma moção de pesar pelo seu falecimento, que dele ficará a memória em tantos que se beneficiaram com suas iniciativas, a memória de quem trabalhou, lutou e fez da vida um exemplo esplêndido, magnífico de amor à Pátria e de esperança no destino do Homem.


Tribunal de Contas do Estado do Rio de Janeiro, sessão de 29 de novembro de 1979.

Tribunal de Contas do Estado do Rio de Janeiro, 29/11/1979

 
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