Um Discípulo de Augusto Comte (Ivan Lins)
Humberto Braga

Senhor Presidente, fui instado por alguns colegas, agora, para falar sobre Ivan Lins. Relutei, sinto que atenderei ao pedido com dificuldade. Dificuldade não apenas de ser conciso, tal o porte, tal a magnitude da personalidade que se extinguiu, como também em face da minha emoção.

Não falarei de Ivan Lins como expoente da nossa cultura, referido pelo Presidente José Fontes Roméro em sua carta lapidar. Não falarei sobre o Escritor, sobre o Acadêmico, sobre o Ensaísta. Outros com mais títulos e com mais autoridade poderão fazê-lo. Certamente o terá feito na Academia Brasileira de Letras o Presidente Austregésilo de Athayde. Aqui, trago um testemunho eminentemente pessoal.

Para mim, no princípio, ele era um nome, um nome ilustre, integrante de uma ilustre família. Depois, um vulto de cabelos brancos, ascético, magro, ossudo, anguloso, pálido, com certa estridência na voz. Mais tarde, vieram a boa vontade, a gentileza do colega mais velho, o companheiro, o mestre, e, por fim, o amigo. Fui um beneficiário da amizade de Ivan Lins. Eu era o benjamim, o mais moço do Tribunal, ele o decano. Eu o mais desprovido de títulos, ele o mais cumulado de glórias. Dele recebi expressivas demonstrações de afeto, de carinho, de estímulo. Ele me atribuía qualidades que não possuo, pretendendo de mim aquilo que eu não podia dar, querendo fazer de mim um escritor.

Muitas vezes dele divergi e, em certa ocasião, divergi de modo veemente, num dos debates mais calorosos havidos no Tribunal de Contas da Guanabara. Eu me coloquei de modo frontal em oposição a Ivan Lins, em discussão que extravasou do Plenário, exorbitou do Plenário e chegou à opinião pública. Nosso debate transformou-se numa verdadeira polêmica em que eu, respeitosamente, reverentemente, mas de modo nem por isso menos incisivo e firme, contrariei os seus argumentos. Mas disso não adveio nenhuma mágoa, bem ao revés. De Ivan Lins recebi não a crítica, não a reserva, não a restrição, mas o aplauso, a palavra de louvor. Mais tarde quando, por fim, prevaleceu a tese que eu defendia, uma nobre carta sua mostrou-me a altitude do colega, cumprimentando-me e pedindo-me que tornasse público aquele cumprimento. Este era o homem; assomado e generoso, de impulsos violentos e de gestos magnânimos. O traço de bondade nele se conciliava com o de um pregador, porque, paciente com os homens, era intransigente nas idéias.

No Brasil, chegou a ser conhecido como o chefe do Positivismo, não apenas na dimensão intelectual, mas, sobretudo, pelo caráter militante, combatente, de gladiador pugnando pela sua causa. Era discípulo de Comte e também de Descartes, cultivando a clareza, a concisão, a correção, a limpidez, que se manifestam tão bem no seu estilo.

A Ivan Lins repugnava tudo que fosse contradição, mistério, absurdo, tudo quanto se reflete na moderna ficção, no moderno cinema, no teatro de protesto. Tudo isso escapava àquele homem que amava a ordem, embora a sua ordem não fosse a Ordem Providencial. Corajoso, adversário da metafísica e, portanto, um homem que não alimentava a Esperança, porque não aguardava que a mão da misericórdia, a asa da misericórdia o protegesse na hora derradeira. Mostrou, com o seu exemplo, como se pode ser tão combativo, tão firme, tão determinado nas suas concepções, sem agredir as idéias alheias. Nós vimos, aqui, quantas vezes exaltou ele os grandes vultos da cristandade e como era sensível a todas as manifestações do verdadeiro Amor.

Não vou alongar-me – nem poderia – mas, como disse, lamento profundamente não ter convivido mais tempo com o Mestre, que foi tão bom para mim e para com os meus familiares. Foi um brasão do Tribunal de Contas do Estado da Guanabara e durou tanto quanto ele. Parece que se extinguiu com o Tribunal que ele tanto amava, como muitas vezes me disse. Há poucos dias, conversando com o Procurador Álvaro Americano a respeito de uma pessoa querida que nos deixara, observei como se tem um sentimento de culpa na frustração de não haver aproveitado mais o convívio dela. Esse pesar é bem grande no tocante a Ivan Lins, que era, sobretudo, um humanista, um erudito. Em tudo o que ele dizia havia um sainete do pitoresco, ao apontar exemplos infindáveis nos clássicos para todas as situações.

Costumávamos conversar pelo telefone. Escrevi um arremedo de poema que ele aplaudiu de maneira exagerada na sua ternura. Gostava muito de um verso que dizia: “A amizade sofreu acidente de tráfego, só consegue viver graças ao telefone”. Foi pelo telefone que eu falei com Ivan Lins pela última vez.

Seu mestre Augusto Comte definiu a sociedade como sendo aquilo que une os mortos aos vivos. A sociedade é uma convivência dos mortos e dos vivos. Isso se assemelha a uma frase de autoria esquecida: "O verdadeiro túmulo dos mortos é o coração dos vivos". Sendo assim; eu posso afirmar que a memória do Mestre Ivan Lins, o Mestre querido, vai demorar na minha lembrança, no meu sentimento, no meu coração.


Tribunal de Contas do Estado do Rio de Janeiro, sessão de 17 de junho de 1975.

Tribunal de Contas do Estado do Rio de Janeiro, 17/06/1975

 
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