Por Admiração e Respeito (Sobral Pinto)
Humberto Braga

Senhor Presidente, felizes, oportunas e belas as palavras do nobre Conselheiro Erasmo Martins Pedro sobre Sobral Pinto. Ontem, tive a alegria de abraçar o homenageado; não o via já há algum tempo. Minha primeira impressão, ao revê-lo, foi de incredulidade, de inverossimilhança. Ao fixar aquele homem de idade patriarcal, nonagenário, observei-lhe a vivacidade, a firmeza dos passos, a agilidade do espírito, a crepitação intelectual, a vontade de viver.

Ele foi logo me perguntando: “Como vai indo o Tribunal de Contas?” Lembrava-se de tudo, de nada se esquecia. Dei-me à indagação íntima: que será isso, será a intensidade singular de sua fé? Será ela que o anima a não desertar do bom combate, a não temer a luta? Será ela que o impele a dizer sempre a verdade, sem tergiversação, sem receio, sem recuo, sem medo de enfrentar perigos?

Sua fé o predispôs a não temer os poderosos, a esquivarse às honrarias e a alcançar sua própria grandeza. Nada sendo, além de advogado militante, soube engrandecer-se, mais do que quase todos os que estiveram no Poder, no efêmero, às vezes triste poder. Como soube Sobral Pinto cultivar essa grandeza? Terá sido a sua crença no Direito? Será que ele acredita no ser humano, na perfectibilidade contínua e permanente da humanidade?

Não sei responder. Talvez, confesso, por não possuir fé. Não sou apenas um agnóstico, no plano religioso. Tenho dúvidas a respeito da permanência dos valores do Direito, da Justiça e da Liberdade, tão maltratados, espezinhados, escarnecidos. Seja como for, a Sobral conforta essa postura. Ele não quer o bem apenas para si próprio, mas para seus semelhantes, para nós todos. O bem mais próximo ele reparte entre os que têm sido defendidos pela sua palavra destemida, pelo seu verbo indomável, por quantos se têm valido do seu respaldo jurídico.

Quando nos pomos em companhia de um homem do seu porte, de um gigante dessa altura – mais do que um gigante da inteligência, um gigante do caráter, da dignidade – de um homem dessa projeção moral e de tanta verticalidade; quando nos aproximamos de alguém como ele, também sentimos uma aura de grandeza. É como se nos, predispuséssemos a ser também assim. Sentimo-nos animados a ser tão quixotescos quanto o maravilhoso Dom Quixote retratado na figura do doutor Sobral. Jamais ele se tornou ridículo; tornou-se, isto sim, cada vez mais merecedor do respeito de todo o povo brasileiro. Considero Sobral Pinto uma das culminâncias da dignidade humana do nosso país. Este Tribunal faz muito bem em homenageá-lo. Ele parece um desses pólos impossíveis, inatingíveis; um horizonte. Amanhã, outros perguntarão: esse homem existiu? Alguém houve capaz de fazer o que dizem que ele fez? A resposta está em nossa consciência: houve. Houve um homem que foi capaz de proceder sempre de acordo com sua consciência, de oferecer um exemplo destinado a brilhar no país, muito além desses 90 anos, na admiração daqueles que reverenciam a grandeza moral e a riqueza do espírito.

Tribunal de Contas do Estado do Rio de Janeiro, sessão de 08 de novembro de 1983.

Tribunal de Contas do Estado do Rio de Janeiro, 08/11/1983

 
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