Um homem público exemplar (Gustavo Capanema)
Humberto Braga

Senhor Presidente, dou meu apoio integral à sugestão do Conselheiro José Talarico, a respeito de Gustavo Capanema. Ele demonstrou que conhece em profundidade a vida e a obra do notável brasileiro agora falecido.

Eu também pude apreciar ao vivo a ação do homem público ora reverenciado, tendo com ele convivido em várias oportunidades. Pude sentir a grandeza do seu porte intelectual ao vê-lo projetar-se na vida pública como um vulto cimeiro da inteligência brasileira.

Agora mesmo revimos alguns dos seus traços através do perfil traçado pelo ilustre colega. Mas como se poderia definir Gustavo Capanema? Algo de sacerdote ele possuía, além de um acanhamento indisfarçável. Era um tímido. Embora orador extraordinário, não sabia ocultar sua timidez. Aquela sua discreção, aquela pureza de sentimento, aquela falta de jeito para as manobras políticas eficazes, bem sucedidas, que significavam?

A figura física de Capanema, seu modo de falar, a delicadeza, a ausência absoluta de vulgaridade, a elegância, todas as suas normas de conduta deixavam transparecer uma alta espiritualidade. Ele era a própria encarnação do espírito. Em Capanema o que existia era, sobretudo, um maravilhoso, um luminoso espírito.

Seu talento repontara na própria Faculdade de Direito, onde foi o mais notável aluno de uma turma que formou quatro Ministros de Estado: ele próprio, Francisco Negrão de Lima, Gabriel Passos e Abgar Renault. Gustavo Capanema foi o primeiro aluno daquela turma e Francisco Negrão de Lima o segundo. A frente, na posição de mestre, de orientador jurídico e político, a figura discutida,. mas admirada, de Francisco Campos.

Em Capanema, o jurista não se revelou em textos de livros; não lhe apraziam as edições folhudas. San Tiago Dantas também era refratário a escritos de longa metragem. Ambos se esquivaram à atividade de tantos pachecos, dados à produção de volumes gordos, nos quais o trabalho é de compilação, sem contribuição pessoal de valia.

O jurista, em Capanema, revelou-se principalmente nos pareceres e pronunciamentos da Comissão de Justiça da Câmara dos Deputados e no Senado, onde punha à prova a limpidez do raciocínio, a profundeza do pensamento ,e a segurança com que logo atingia o ponto nuclear, o ponto crucial das questões relevantes. Ele sabia distinguir de pronto a valia e a desvalia dos temas em debate.

Capanema projetou-se como um intelectual, sobretudo, crescendo sua intelectualidade numa floração fecunda, na exuberância criadora com que se engrandeceu no Ministério de Educação. Ali, no seu tempo, vivemos a hora do renascimento cultural do Brasil.

Naquela fase, Gustavo Capanema alçou-se à condição de um príncipe do Renascimento, à condição de um Lourenço de Médicis. Não apenas no mecenato, não apenas como príncipe da Renascença, que encorajava, patrocinava aquela explosão de talentos criadores, mas, também, revelando-se um deles, como intelectual, homem de espírito, amoroso das coisas da inteligência, apaixonado pelas produções da cultura. O Brasil sentiu sob a égide de Gustavo Capanema a sua grande transformação cultural.

Não me alongarei sobre esses aspectos; isso já foi acentuado por outros que, na imprensa, salientaram, assinalaram a vida pública de Capanema, como Antonio Vilaça e Carlos Castelo Branco. Refiro-me agora à sua outra faceta extraordinária: o soberbo orador, o esplêndido orador, sem excessos de retórica, sem exagero de ornamentação, sem metáforas retumbantes, mas admirável na beleza e na precisão.

Não esqueço dois momentos que considero gloriosos, dois momentos luminosos da trajetória parlamentar de Gustavo Capanema. Um foi o discurso com que recebeu o Presidente Craveiro Lopes, na Câmara dos Deputados, com a interpretação que deu, nos Lusíadas, ao velho do Restelo, aquele que fazia imprecações e protestos contra a arrancada das naves pelos mares misteriosos. Era o velho Portugal, Portugal antigo, Portugal conservador, contra a vocação de pioneirismo, de navegação, de descoberta, de aventura do gênio português. Esse foi um dos seus momentos mais brilhantes. Outro foi o discurso proferido no dia da morte do Presidente Getúlio Vargas, seguramente um dos maiores momentos do Congresso Nacional.

Dificilmente a Câmara terá ouvido algo tão belo. Recordo-me da peroração, quando ele disse que Vargas se tornou um homem insuperável, porque viveu pelo ideal e morreu pela honra. Morreu para que sua honra não morresse. A emoção tomou conta do plenário ao ouvir-se aquela sua declaração. Talvez o mais encarniçado adversário de Vargas, o mais cruel, fosse atingido por palavras assim, de soberba beleza. Naquele momento, emocionado, pálido, lívido, Capanema proferiu um discurso de grandeza esquiliana, de grandeza shakespeareana.

Lembro-me de uma visita minha a Gustavo Capanema em sua casa, no seu modesto apartamento da Rua Almirante Tamandaré. Ele morreu pobre, não acumulou fortuna durante meio século de vida pública e de poder, no curso da qual foi Ministro de Estado com trinta e quatro anos e nesse cargo permaneceu onze anos. Fui visitá-lo em companhia de Negrão de Lima, seu grande amigo e colega de turma, no dia em que completava 57 anos de idade. Negrão de Lima, que era mais moço do que ele um ano, disse-lhe em dado momento: “Então, Capanema, estamos bem próximos, estamos chegando perto dos 60!” Ele respondeu: - “Qual nada, Negrão! Estamos longe, bem longe!”

A lembrança desse diálogo é confortadora. Já assinalei que Gustavo Capanema foi um príncipe para a cultura nacional. Se não me engano, essa expressão foi usada, pela primeira vez, por Alceu Amoroso Lima.

A Academia Brasileira de Letras não o elegeu, a ele nem a Juscelino Kubitschek. Na primeira eleição a que concorreu, Pontes de Miranda também foi derrotado. Tais fatos não desmereceram nenhum dos grandes vultos da cultura nacional que nela não tiveram ingresso. São páginas tristes da instituição, que não se engrandeceu e não se glorificou com a exclusão de homens como o grande Gustavo Capanema.

Agora, ao falecer um príncipe do seu porte, só me ocorrem no fecho deste discurso aquelas palavras que Shakespeare pôs nos lábios de Horácio no momento em que morreu Hamlet: “Boa noite, amado príncipe, que legiões de anjos cantem para embalar teu sono”.


Tribunal de Contas do Estado do Rio de Janeiro, sessão de 12 de março de 1985.

Tribunal de Contas do Estado do Rio de Janeiro, 12/03/1985

 
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