Uma figura legendária (José Américo)
Humberto Braga

Senhor Presidente, faleceu, ontem, em João Pessoa, José Américo de Almeida, Estadista, Homem de Letras e Ministro aposentado do Tribunal de Contas da União.

Minha primeira lembrança de José Américo recua no tempo mais de quarenta anos. Foi em noite vivida na velha praça municipal de Salvador, ano de 1937. Menino, posto no palanque, eu via abaixo a multidão que se comprimia inquieta, entusiástica, impaciente. De súbito, uma estrondosa aclamação. Abrindo o caminho por entre o povo, o jovem e sorridente Governador, depois Ministro de Estado, Senador, Embaixador e General Juracy Magalhães. Ele conduzia pelo braço um homem pequeno, franzino, sério, de traços duros e ascéticos, óculos. enormes no rosto macerado.

Aquele homem era José Américo. Já era então uma figura legendária. Foi essa legenda que o levou, como representante de um pequeno Estado do Nordeste, a ser candidato à Presidência da República, concorrendo com o Governador de São Paulo. A legenda se formara desde os bancos acadêmicos, na velha Faculdade de Direito do Recife, em torno da pessoa do moço retilíneo e combativo, cujo talento e cuja personalidade suscitavam admirações irrestritas e ardorosas ou violentas e apaixonadas desafeições.

Depois, surgiu A Bagaceira, o grande livro que inaugurou o ciclo do romance regional. Todos os que vieram na sua esteira – Graciliano Ramos, José Lins do Rego, Jorge Amado – confessaram de público a dívida contraída para com ele. Embora arrastado para a política, José Américo foi sempre um primoroso escritor, dos maiores da nossa língua. Mais tarde, a legenda transformou-se em mito. Já em 1930, José Américo de Almeida irrompeu no cenário nacional com a celebridade de Chefe Civil da Revolução no Norte do Brasil. Após isso, novas posições: o Ministério da Viação e as grandes obras contra as secas; o desastre aéreo ao largo da Bahia, quando ele, míope, e sem saber nadar, foi salvo por um pescador que ali se encontrava nas águas de Itapagipe, enquanto pereciam Antenor Navarro, Interventor Federal na Paraíba, e outros companheiros de viagem.

Vieram depois o Senado, o Tribunal de Contas da União e a campanha presidencial de 1937. Ecoavam pelo país as frases famosas, algumas de acento bíblico como esta de A Bagaceira: "Há uma miséria maior do que morrer de fome no deserto, é não ter o que comer na terra de Canaã".

Lembro-me ainda da peroração de José Américo no discurso da Bahia. Explicando por que fora um “enjeitado da morte”, apontou naquele humilde pescador que o salvara um instrumento do Senhor do Bonfim, na colina, ali perto. Mas acrescentaria: se isso aconteceu foi porque ainda tinha que prestar um grande serviço ao Brasil.

Não houve eleição em 1937. Contudo, José Américo não se enganou, porque, de fato, ele tinha um grande serviço a prestar ao Brasil. E isto ocorreu, em 1945, com a histórica entrevista ao Correio da Manhã, que arrasou o Estado Novo.

No dia da sua publicação, a liberdade ressurgiu no país inteiro. Novas posições, novas glórias advieram: o Senado, o Governo da Paraíba, novamente o Ministério da Viação e a Academia Brasileira de Letras. Tornei a falar com José Américo em 1967, na cidade de João Pessoa. Aquele foi o ano de sua eleição para a Academia. As homenagens por ele recebidas, entusiásticas e numerosas, o sobrecarregavam. “Ah”, dizia em tom chistoso, “a imortalidade está me matando!”

Mais tarde, no ano de 1975, voltei a revê-lo ainda em João Pessoa, por ocasião do Congresso dos Tribunais de Contas, do qual foi o Presidente de Honra. Nessa ocasião, tive oportunidade de conversar por longo tempo com o grande brasileiro, na sua casa de Tambaú. Ali fui contemplado pelo autor com um exemplar de A Bagaceira. Era, então, o sábio da praia. Reconciliara-se com os inimigos (e ele os fez muitos no curso de sua existência!), domesticara os ímpetos, sepultara as paixões e cultivara a paciência. A onça paraibana se transmudara num velhinho plácido, ameno, quase suave.

Naquele Congresso dos Tribunais de Contas José Américo foi proclamado pelas delegações do país inteiro o homem símbolo do Nordeste, o Nordeste lírico e doloroso que ele tanto amou e a que tanto serviu. Realmente, a imagem que ficará de José Américo é a do nordestino nos seus dias de luta e exaltação: áspero e poético, bárbaro e generoso, arestoso e emotivo, bravio e eloqüente, intransigente e profético.

Naquele sertanejo que, com Epitácio Pessoa, Augusto dos Anjos e José Lins do Rego, integra o quarteto das maiores figuras da Paraíba de todos os tempos, havia clamorosos contrastes. E o líder nacional, de extraordinário descortino, convivia e porfiava com o querelante das disputas municipais. Morreu na idade dos patriarcas. Hoje, o Brasil o homenageia na glória e na grandeza do homem de Estado e do homem de letras.

São essas, Senhor Presidente, as palavras que me acodem pelo passamento do Ministro José Américo de Almeida.

Tribunal de Contas do Estado do Rio de Janeiro, sessão de 11 de março de 1980.

Tribunal de Contas do Estado do Rio de Janeiro, 11/03/1980

 
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