O fulgurante Agripino
Humberto Braga

Hoje, a singular, a extraordinária figura intelectual e humana de Agripino Grieco enche de rumores e fulgurações o festivo ambiente das letras nacionais. Nas celebrações memorativas dos seus oitenta anos de vida intensa e gloriosamente vivida, a serviço da inteligência e da cultura, conjugam-se os ecos dos aplausos gerais às próprias cintilâncias derseu espírito ainda ágil e jovem, em toda a pujança do talento, da originalidade e da verve, que lhe assinalaram em lugar sem contraste na literatura brasileira.

Ainda conservo, extasiado, a memória dos dias trepidantes em que, há seis anos, com ele convivi numa estada em Lisboa. Inesquecíveis dias em que não apenas me deliciei com o encanto, a graça e as surpresas de sua palestra, mas também assisti às deslumbrantes conferências literárias com que brindou a intelectualidade portuguesa.

Por feliz circunstância, era, então, Embaixador do Brasil em Portugal o hoje Governador Francisco Negrão de Lima. E eis que me honra e desvanece, agora, a coincidência de ser eu, como auxiliar de Sua Excelência e membro de seu Governo, o orador desta solenidade.

Da bela Paraíba do Sul, onde abriu os olhos para o espetáculo do mundo, até a este recanto do Estado da Guanabara, onde ergueu a sua casa e se rodeou de livros, mestre Agripino Grieco realizou a parábola de uma existência gloriosa, de modo a justificar plenamente a homenagem que neste momento lhe prestamos.

Dele bem se pode dizer que urdiu, que criou o seu nobre destino com os sonhos da juventude, sem jamais trair os seus ideais de arte, no plano das belas letras, e sem se desviar de seu gosto da verdade, no plano da ordem moral.

Ele não ambicionou os poderes da terra pelos carninhos da aventura política, nem desejou faustos e riquezas no pequeno mundo das contigências humànas. Desde cedo, quis ser unicamente escritor, como artista da palavra. Escritor ele foi sempre e ainda o será por muitos anos, fiel à vocação essencial que moldou a sua personalidade, por tantos aspectos admirável e inconfundível.

Na adolescência, foi poeta. Na mocidade, trocou o verso. pela prosa e encontrou no ensaio crítico o áureo veio do seu pendor natural. Anatole France, que sabia entender o mundo e zombar de suas debilidades, era de parecer que um bom poeta não é apenas quem faz belos versos, mas também quem nas ceu com o dom de compreendê-los.

Esse dom da compreensão proporcionou a Agripino Grieco a oportunidade de valorizar a poesia autêntica, ao mesmo tempo que lhe aguçou a pena irânica para escarnecer da falsa poesia. Nele, o escritor e o crítico, o ensaísta e o conferencista, o pensador e o artista da palavra inexcedível sempre em todas as liças de sua constante atividade intelectual .modelaram a compleição de um dos maiores e mais belos protótipos do autêntico Homem de Letras.

A justa homenagem que no ensejo de seus oitenta anos lhe é hoje prestada, não só por seus amigos e admiradores desta terra, mas por todas as expressões da inteligência brasileira, há de fazê-lo sentir a pureza e a espontaneidade de um preito em que se associafn o louvor e o apreço, a admiração e a simpatia, a estima e a gratidão de seus contemporâneos.

Ao receber de Afonso XIII uma condecoração, Unamuno surpreendeu o Rei ao dizer-lhe que bem a merecia. Espantado ante o que ouvira, o Monarca lembrou-lhe: "É curioso, senhor Unamuno, todas as pessoas agraciadas com uma comenda idêntica dizem sempre que não a merecem". "E têm razão," replicou o escritor.

Mestre Agripino Grieco poderia dizer agora que bem merece a homenagem do seu busto na praça pública. E seríamos nós a lhe dizer que ele tem razão. Nem é por outro motivo que aqui nos encontramos, no regozijo desta festa. Por mais de meio século, sua pena luminosa e combativa tirou do nicho os velhos deuses literários que o tempo havia coberto de lisonjas e de poeira. Ninguém mais nem melhor do que ele ensinou a lição da irreverência que se contrapõe à mística dos valores consagrados. Diante de veneráveis bonzos, fez explodir o seu riso demolidor. Assim, preparou o advento de um novo pensamento crítico no Brasil.

Não basta demolir; é preciso também saber como fazêlo. Neste ponto, ninguém mais destro que o mestre das Carcaças Gloriosas. Antônio Torres, seu contemporâneo, tinha, o dom da bordoada impressa, mas não possuía a vastidão da cultura literária de Agripino. Carlos de Laet, que, vinha de mais longe, armava polêmicas para distrair-se, como se a briga em letra de forma constituísse a sua diversão favorita. Agripino jamais amou a polêmica. Todas as vezes que golpeou, fê-lo para restabelecer a noção exata do valor literário. E nunca passou daí. Por que armar litígios teimosos, que somente servem para o gozo e a distração das galerias? Em vez de polêmicas, mestre Agripino sempre preferiu a lição de seu bom gosto, com a qual amalgamou a sua obra de escritor.

Creio ser ele o primeiro panfletário a ter um busto no Rio de Janeiro. E por que? Porque a sua obra não é apenas negativa, no sentido da destruição necessária, mas é também construtiva, no sentido de ajustar-se a um ideal de arte literária. Basta abrir São Francisco de Assis e a Poesia Cristã para reconhecer-se que seu autor é um mago da prosa em língua portuguesa e guarda nos recessos da alma as douçuras de uma vocação evangélica. A veia satírica em nada prejudicou o escritor plástico, capaz de oficiar o seu culto da beleza consoante a lição estética de Ruskin.

Agora, Senhores, no ato de inauguração deste monumento, vamos ter a satisfação de ouvir o homenageado. Ides verificar que o busto em bronze não mudou o homem. Quando ele usar da palavra, observareis que, aos oitenta anos, Grieco ainda possui o dom da expressão graciosa e irreverente, a jovialidade da ironia, a elegância da frase feliz, a espontaneidade das alusões eruditas. Nada nele é premeditado. Tudo o que lhe sai da pena ou dos lábios obedece ao impulso da genuidade criadora.

À maneira do filósofo grego que provava o movimento andando, Agripino Grieco demonstra a superioridade da inteligência com a sua inteligência superior. Falando ou escrevendo, é sempre o artista da expressão original e feliz.

A posteridade não se deterá diante deste busto para indagar quem foi Agripino Grieco, Antes reconhecerá que fomos justos e oportunos ao prestar-lhe esta merecida homenagem no mesmo remanso urbano que ele próprio, modestamente, ele... geu para oficina de seus labores e refúgio de suas meditações, predileto cenário de sua vida simples e gloriosa, onde permanecerá perenemente redivivo e amado na consagração deste bronze.


No jardim do Largo do Méier (cidade do Rio de Janeiro), ao inaugurar-se em 15 de outubro de 1968 o busto de Agripino Grieco.

15/10/1968

 
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