Alceu Amoroso Lima, homem símbolo
Humberto Braga

Senhor Presidente, há dois dias faleceu um dos maiores brasileiros de todos os tempos. Não há exagero ou afetação no que digo. Ontem à noite, desejei concatenar idéias sobre o que deveria falar hoje, mas desisti da tentativa. Preferi entregar minha sorte à semi-irresponsabilidade de um improviso, tal a intransponível dificuldade posta diante de mim. Aludo à irrealizável escalada de uma cordilheira gigantesca, simbolizada na vida de Alceu Amoroso Lima.

Todos sabemos que durante 70 anos ele foi um dos gigantes da inteligência brasileira. Já era um lugar comum, já era um truísmo apontá-lo como a expressão mais alta, o píncaro da cultura nacional. Todos sabemos como ele foi intelectualmente prolífico. Mas não é fácil a análise de sua obra.

Ainda há pouco, em conversa com o colega José Luiz de Magalhães Lins, ele me perguntou: “Era um gênio?” Respondi-lhe: “Era um quase gênio”, mas não saberia definir bem as manifestações dessa paragenialidade.

Se me fosse pedido que situasse explicitamente o campo de ação desse atributo, eu teria dificuldades de apontar todos os seus signos no talento oceânico de Alceu Amoroso Lima. Ele não produziu uma obra literária, no plano da ficção, como a de Jorge Amado ou a de Josué Montello; não foi um memorialista da magnitude de Gilberto Amado ou de Pedro Nava; não deixou uma obra sociológica como a de Gilberto Freyre; não se destacou nas letras jurídicas como Francisco Campos ou Pontes de Miranda; não teve na vida pública nacional o brilho fulgurante de San Tiago Dantas.

Sem embargo, temos consciência de que se fez maior, em comparação. Ele foi o mais universal, o mais abrangente, foi aquele que mais se estendeu nos espaços do espírito e do conhecimento. Havia nele algo de olímpico, à maneira de Goethe. A vida de Alceu Amoroso Lima foi uma permanente e gloriosa ascensão, tanto no plano intelectual como no plano moral; tanto no plano cívico quanto no plano humano.

Não sei resumir a grandeza de sua produção cultural. Seria um absurdo, seria um despropósito tentar escalar o Himalaia sem resistência no fôlego. Basta-me assinalar a sua presença inarredável, desde 1919, como figura central da cultura brasileira. Ouvido, lido, discutido ou seguido como glorioso mestre de gerações, estão à volta de sua sepultura presenças em confronto como as de Luiz Carlos Prestes e do Cardeal Arcebispo desta cidade.

Amoroso Lima tornou-se no país o principal líder do pensamento católico, desde a morte de Jackson de Figueiredo, e se distinguiu de outros publicistas de sua confissão intolerantes, litigantes, querelantes, capazes de fazer odiosa a própria virtude. Em Alceu, o pensador crescia tanto quanto sua grandeza humana.

Sua influência é reconhecida por todos. Ele foi crítico, ensaísta, professor, jornalista, escritor e pensador. Mas há uma dimensão no seu porte que não pode ser esquecida. Aludo à sua posição durante a quadra de arbítrio e de autoritarismo em que viveu o Brasil sob os Atos institucionais. Posso dizer isto com absoluta tranqüilidade. Os que me ouviram discursar sobre Getúlio Vargas terão percebido que o admirava como estadista. Mas sem que isso traduzisse, mesmo de leve, aplauso ao Estado Novo. Na minha adolescência, já sentia ojeriza por aquele regime.

Tenho certeza, se adulto eu fosse àquele tempo, de que já seria um oposicionista intransigente. Cada vez mais, à medida que me aproximo da velhice, na madureza de hoje, me torno irredutível, inflexível em minhas convicções democráticas. Sei que é impossível fazer da democracia um Estado perfeito, um paraíso, mas é possível nela o mínimo, o mínimo indispensável a um Estado de direito: respeito às liberdades públicas, respeito aos direitos humanos, segurança do direito de defesa, do direito de resposta, do direito de divergir. Neste próprio plenário, durante a vigência dos Atos Institucionais, tive ocasião de esquivar-me ante manifestações de aplausos ou solidariedade aos poderosos do tempo. Posso referir-me a isto sem desmerecer os demais Conselheiros que me ouvem. Então, nenhum deles era membro deste Tribunal. Às vezes, eram ouvidas aqui moções de aplausos aos sucessivos Chefes de Estado, mas sempre me mantive silencioso. Meu silêncio não significava hostilidade aos ocupantes da Presidência da República, mas respeito à minha própria consciência. Repugnava-se conceder elogios aos que tinham poder discricionário para colocar-me em disponibilidade, aposentar-me, demitir-me ou até mesmo suspender meus direitos políticos. Alceu Amoroso Lima projetou-se com uma grandeza imarcescível, simbolizando uma glória nacional quando encarnou a inteligência brasileira que não se rendeu, que não capitulou em face do arbítrio triunfante. Então, não poucos foram aqueles que se transformaram em vivandeiras; delas escarneceu o próprio Presidente Castelo Branco. Elas acompanhavam as tropas para, ao servi-las, satisfazer seus apetites e colher os benefícios dos saques. Amoroso Lima, ao contrário, pôs-se na resistência em sua palavra e sua ação, Coube-lhe a prerrogativa de ser o primeiro signatário do famoso Manifesto dos Intelectuais de tão alta repercusão em todo o país.

O Presidente Castelo Branco dedicava-lhe uma justificada admiração, chegando a transmitir-lhe pelo telefone apelo no sentido de suspender sua oposição às atitudes governamentais. Mas, apesar da brandura e da cordialidade com que tratava o homem, manteve-se ele inflexível no combate ao regime representado pelo Presidente. Ressalve-se que Alceu não foi vítima de nenhuma perseguição por iniciativa dos dirigentes do país daquele tempo.

Houve a percepção, houve a consciência, por parte dos detentores do poder que aquele grande brasileiro era portador de uma inviolabilidade cívica. E, então, pela voz dele, falaram todos os silenciados pela força. Mas o notável é que essa oposição que não se fletia, que não se curvava, que não trepidava, também não se perdia na vulgaridade.

Jamais desceu ao nível das agressões pessoais, dos ataques grosseiros ou indecorosos. Todas as suas manifestações permaneceram no plano de grandeza em que pairou sua vida. Era severo sem ser insultuoso.

Venerado nos cenários mais representativos da cultura, decano da Academia Brasileira de Letras e a maior dentre todas as suas figuras, adquiriu uma glória que o transformou também num símbolo do espírito cívico nacional.

Eu o conheci, embora não pertencesse ao círculo dos seus amigos pessoais. O homem era tal como eu imaginava. Lembro-me de quando estivemos juntos em casa do saudoso Governador Negrão de Lima. Ali conversamos cerca de meia hora. Era de sentir-se a suavidade percebida na limpidez daqueles seus olhos de safira, em sua voz clara, no tom geral de bem-estar espargido em torno de si mesmo, na aura benfazeja que envolvia aqueles que dele se aproximavam.

Alceu era um homem nutrido pela alegria serena, provido de uma singular espiritualidade. Mais recentemente, estivemos juntos na Faculdade Cândido Mendes ao inaugurar-se ali a Praça Alceu Amoroso Lima. Então viúvo de pouco tempo, a tristeza lhe empanava o ânimo radioso. Lembro-me do que lhe disse: “Mas Doutor Alceu, o senhor é a própria vontade de viver, é o próprio otimismo, o próprio alento da vida”. Guardei sua resposta: “Não, agora é diferente, já não sinto vontade de viver desde que perdi minha mulher”.

Não obstante, continuava atento a tudo. Possuindo um atilamento intelectual extraordinário, não havia nele qualquer daqueles traços que a velhice tristemente ostenta, nenhum sinal que denunciasse ameaça de decrepitude. Mauriac, como ele devoto no culto da religião católica, era de opinião que “viver é envilecer”. Mas não houve nenhum envilecimento naquele vulto de 88 anos de idade.

Não sei se Alceu Amoroso Lima está no céu em que tanto acreditava. Não sei se ele está lá, ouvindo coro de anjos no paraíso almejado. Sei, sim, é que ele permanecerá na veneração de todos os que, nas terras do Brasil, amam a liberdade e admiram a inteligência.


Tribunal de Contas do Estado do Rio de Janeiro, sessão de 16 de agosto de 1983.

Tribunal de Contas do Estado do Rio de Janeiro, 16/08/1983

 
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