Francisco Negrão de Lima, o amigo maior
Humberto Braga

Senhor Presidente, ontem à noite, numa reiterada prova de sua nobreza, disse-me Vossa Excelência que me,cumpriria falar em primeiro lugar nesta parte da sessão destinada à prestação de uma homenagem à memória de Francisco Negrão de Lima. Nos últimos tempos, quando comemorávamos o aniversário do grande brasileiro, eu me esquivava por não me considerar em condições emocionais para fazer discurso. Agora, recebo o penoso encargo de falar e a honra que me é conferida se converte numa provação.

Não tratarei de sua notável vida pública, não há tempo para apreciá-la em toda a extensão da escalada empreendida como Deputado Federal, Embaixador em vários países, Prefeito do primitivo Distrito Federal, Ministro da Justiça e das Relações Exteriores e, finalmente, Governador do extinto Estado da Guanabara. Sua glória como estadista vem sendo exaltada ao longo do país, sobretudo nesta cidade, centro de onde se projetou com o apreço e a confiança da opinião mais credenciada e isenta.

Meu discurso, necessariamente, será um discurso personalíssimo. Falarei do meu amigo, do meu benfeitor, do meu conselheiro, do meu confidente, presentes no meu reconhecimento e na minha saudade. O que me conforta é saber que posso esperar a compreensão, a paciência, a indulgência e até mesmo,o perdão dos ouvintes, porque esta Casa é também a Casa de Negrão, desde quando, aqui, exerceu o cargo de Procurador.

Se o seu corpo não tivesse saído do Pálacio Guanabara, como quis o espírito de justiça do Governador Chagas Freitas, poderia ter saído daqui, por todas as razões. Aqui está o seu busto; aqui recebeu ele a mais bonita, a mais simpática das homenagens, pelos seus 70 anos; aqui ouviu a última aclamação ao seu nome, na posse de Vossa Excelência, Senhor Presidente. Aqui estão, principalmente, alguns dos mais queridos, dos mais diletos amigos de Negrão de Lima, homens que com ele privaram no dia-a-dia, durante anos; homens que tão bem o serviram, ligados à sua vida e associados à sua obra, como é o caso de VossaExcelência, de Carlos Costa e de Álvaro Americano. Aqui estão velhos e estimados amigos, como Erasmo Martins Pedro, que com tanta firmeza lutou por sua candidatura ao Governo da Guanabara, numa hora tão difícil, e também o seu velho amigo e conterrâneo Procurador Autran Dourado.

Acredito que tenhamos sido, Márcio Mello Franco Alves, Caio Coelho e eu, os amigos mais íntimos de Negrão de Lima, aqueles a quem ele mais revelou de si mesmo. A nós juntou-se, nos últimos tempos, uma figura extraordinária de fidelidade e dedicação: Francisco Souza. Há uma circunstância que explica bem o porquê da intimidade com que me distinguiu o ex-Governador da Guanabara. Os seus outros grandes amigos sabem que, como homens públicos, lhe deveram muito, mas não lhe deveram tudo. Enquanto que eu, como homem público, lhe devo quase tudo.

Ele foi quem me retirou da obscuridade para conferir-me a relativa evidência de que desfruto. Quando o conheci, eu era um médico recém-formado, sem maior importância profissional ou social. Mas o merecimento, por ele descoberto em mim e que a bondade de alguns amigos também me atribui talvez não bastasse para impedir – se eu não o tivesse conhecido – que minha vida fosse hoje muito modesta e sacrificada, tal como a vida da maioria dos médicos.

A última prova de confiança com que Negrão de Lima me distinguiu foi convidar-me, há poucos anos, para figurar como testemunha na assinatura do seu testamento. Empenhar-me-ei no sentido de sua publicação para que seja amplamente conhecido, dado não exprimir apenas um legado de bens materiais. Mais do que isto representa o documento; representa uma afirmação de honra e dignidade, formalizada para a leitura não apenas dos seus herdeiros, mas também dos seus amigos e admiradores.

Negrão, com essa probidade imaculada, com o escrúpulo que o levava, quando Embaixador, a custear por conta própria sua correspondência pessoal, nunca fez disso armadura de jactância, de soberba ou de intolerância, em contraste com outros que se valeram do estandarte da moralidade para, atribuindo-se o seu monopólio, amesquinhar e agredir o próximo, quando não para difamá-lo e denegri-lo.

Segui de perto as pegadas de sua grande vida, mas não tive a coragem de assistir à sua morte. Tive por mim a presença ininterrupta de minha mulher, que se pôs ao lado do seu leito de agonizante. Singular amizade, dada a diversidade dos nossos temperamentos! Ele, todo moderação, serenidade, equilíbrio, conciliação, suave cepticismo. Eu, arrebatado, extremado, impulsivo, pugnaz, posso dizer que fui um fiel amigo e um mau discípulo de Negrão de Lima, dado nunca ter conseguido absorver as lições de sabedoria do mestre incomparável. Senhor Presidente, muito me punge a morte do frágil velhinho que eu revia nos últimos anos com ternura e com tristeza. Mas quero lembrar, agora, o homem admirável e tão nosso conhecido no esplendor da vitalidade e da alegria de viver. Nós nos lembramos – quantos de nós! – de como ele era. Nós nos lembramos! Vossa Excelência, Senhor Presidente, que tão bem o conheceu, grande e querido amigo, grande colaborador que dele foi, sabe da limpidez intangível, improfanável de sua vida.

E como a essa vida foi estranho tudo que pudesse haver de torpe, sórdido ou vil! Vossa Excelência sabe da sua generosidade, da sua grandeza d'alma, da sua absoluta, total ausência de mesquinhez na conduta pública ou particular. Mas, como desfiar aqui o rosário de qualidades e virtudes de Negrão de Lima? Seria possível uma coisa dessas? Que é um grande homem? Conheci homens maiores do que Negrão de Lima, na provisão do espírito, na vontade, na determinação, no ímpeto, na energia, na capacidade de liderança, mas não conheci ningém que possuísse o conjunto de qualidades que ele reuniu.

A honradez sem arrogância e sem a intolerância de tantos que se dizem honrados; o escrúpulo levado até ao exagero no trato da coisa pública; a tenacidade, a tranqüila coragem, o espírito público, que, chegava até ao sacrifício; a inteligência clara e sutil; o profundo conhecimento intuitivo dos homens; a razoabilidade, a compostura, o equilíbrio, a habilidade, que nunca descia ao plano da maquinação traiçoeira; o sentimento de justiça, a lhaneza e fidalguia no trato, a paciência e a polidez, que não o abandonaram nem mesmo no limiar da agonia.

Havia nele harmonia e contraste. Era um prudente e arguto pessedista mineiro e um cavalheiro de romântica sensibilidade. Era dotado de grande habilidade e completamente incapaz de felonia. Era um céptico amável, insuscetível de praticar qualquer ato mesquinho. Era um consumado diplomata, refratário à mentira ou à cortesania . Era um homem simples, apaixonado pela grandeza. Era um pragmático seduzido pelo heroísmo. Era um homem prático, encantado pela beleza. Era um político de sólido bom senso, maravilhado com as aventuras do espírito. Era um modelo de modêração e de bran.. dura imbuído de um sentimento hispânico da honra. Nada parecia ter de heróico, certamente nada tinha de carismático. Entretanto, poucos seriam capazes da tranqüila coragem que Negrão revelou em momentos dramáticos da vida pública brasileira.

Vossa Excelência recordará que, no dia de sua posse no governo da Guanabara, um Capitão do Exército se apresentou em sua residência e lhe disse: “Sou o encarregado de velar pela sua segurança”. Quando Negrão lhe estendeu a mão, ele se perfilou e acrescentou: “É meu dever velar pela sua segurança, mas não o de apertar a sua mão”. O Embaixador retrucou-lhe: “Está bem, Capitão. Nesse caso, faça o favor de cumprir o seu dever fora da minha casa”, isso, no começo do governo.

Mas há outro episódio emocionante, inesquecível, que, certamente, Vossa Excelência presenciou. Álvaro Americano e Carlos Costa devem tê-lo presenciado também. Quando o General Orlando Geisel, no Ministério do Exército, lhe conferiu a medalha do Pacificador, notamos um senhor, em trajes civis, que se perfilava ao lado dos outros Generais integrantes do Alto Comando. Ao terminar a cerimônia, abraçou, comovido, o agraciado. Aquele homem era o General Otacílio Terra Ururaí, ex-Comandante do 1º Exército, que fora contrário à posse de Negrão de Lima. Naquela manhã, viera do subúrbio distante, onde morava, para homenagear o ex-Governador da Guanabara.

Negrão de Lima serviu ao Brasil em muitos cargos, aqui e no estrangeiro, porém o que houve de mais belo e de mais alto na sua carreira está indissoluvelmente ligado à cidade do Rio de Janeiro. Recordo que em certo dia me encontrei com Negrão mirando as luzes que margeam a enseada de Botafogo, ele murmurou-me, pensativo: “Quando aqui cheguei do meu Estado natal, ainda muito moço, como poderia imaginar que viria a ser Governador de tão linda cidade?”

Mas no maravilhamento do jovem provinciano, deslumbrado ante a cidade linda, talvez já houvesse, certamente já havia, o sentimento inconsciente da predestinação. Negrão de Lima serviu bem ao Brasil, mas foi, sobretudo, predestinado a servir ao Rio de Janeiro com as suas mãos benfazejas. Aquele sentimento de predestinação guiou-o quando, após sua estrondosa vitória nas urnas, partiu ele, sereno e simples, numa jornada que haveria de ser de glória e sofrimento, vencendo percalços e vicissitudes de toda ordem, para alcançar uma consagradora vitória no governo.

Aquele sentimento de predestinação deu-lhe poder para enfrentar sobranceiro os dias de adversidade, porque tinha a multiplicar-lhe as próprias forças a força de muitos, a força daquelas multidões que o fizeram depositário de suas esperanças e que o levaram ao governo pela maioria absoluta do eleitorado. Aquele sentimento de predestinação armou-o de estoicismo, de perseverança e de firmeza para suportar a injustiça e a incompreensão.

Puskhin disse num verso famoso que “os golpes do martelo quebram o vidro, porém temperam o aço”. No brando e sereno Governador havia uma determinação de aço; bem servir à nossa cidade e, sobretudo, honrar a sua condição de político militante. Sim, a glória suprema de Negrão de Lima foi a de numa hora crepuscular da nossa história, numa hora de colapso das instituições republicanas, e de orquestrada desmoralização do poder civil, reerguer, no Rio de Janeiro, a figura aviltada do político brasileiro para elevá-la a uma dignidade insuperável.

Seja-me permitido proclamar novamente, na emoção das minhas palavras finais, a felicidade que representou sua amizade e a honra de ter com ele trabalhado. A felicidade de ter sido seu amigo não tenho como exprimi-la, porque ela pertence ao íntimo domínio do inexprimível.

Mas a honra de ter sido seu auxiliar, eu ostentarei com orgulho até ao fim de meus dias. Realmente, é impossível servir sem orgulho a esta grande e querida cidade, nosso encantamento e nossa glória. Servi-la, sobretudo, na companhia de um chefe em cuja vida de pureza imaculada só estão gravados os signos honrosos dos serviços prestados ao Rio de Janeiro e ao Brasil.

Senhor Presidente, cumpri o seu mandato. Nada mais preciso acrescentar às palavras com que rendo o meu preito de gratidão à figura de Francisco Negrão de Lima. Cultuarei sua memória até ao final de minha vida.


Tribunal de Contas do Estado do Rio de Janeiro, sessão de 29 de outubrode 1981.


Tribunal de Contas do Estado do Rio de Janeiro, 29/09/1981

 
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