Tancredo Neves, o Estadista
Humberto Braga

Senhor Presidente, há seguramente dez anos, em carta a Tancredo Neves, afirmei que dentre os homens públicos brasileiros em militância, em atividade, ele era, sem a menor dúvida, o mais eminente.

Em novembro do ano passado, antes da eleição do grande brasileiro, publiquei na imprensa um artigo cujo título é “Dr. Tancredo”. Em aviso prévio, constante do texto, pedi que os leitore s não me confundissem com um áulico ou cortesão. Ali, afirmei que não pretendia nada. Nada pediria ao futuro Governo Federal, porque, se não morrer antes, permanecerei no cargo que ocupo e que ocuparei até à aposentadoria compulsória. Escrevi no citado artigo: “Superando conflitos de classes e antagonismos de partidos, o veterano estadista já é hoje o eleito na sociedade brasileira. Não posso encarar o fenômeno com a objetividade fria dos cientistas políticos. Para mim, desenganado agnóstico, aconteceu algo de providencial neste inesquecível ano de 1984. Dizem que não há homens insubstituíveis, mas é impossível apontar, no atual cenário político, alguém capaz de substituir Tancredo Neves nessa formidável ação aglutinadora.

Para mim, é miraculoso que a transição do longo período de regime autoritário de governos militares para a Nova República se faça sob o signo da sabedoria, da experiência, da respeitabilidade, da compostura, do pragmatismo e, também, da firmeza do futuro Chefe de Estado. E a quem duvidasse da última virtude assinalada no hábil e sereno mineiro, eu responderia..."

Então, transcrevi o que disse ao saudar o mineiro Conselheiro Reynaldo Sant'Anna por ocasião da sua posse na presidência deste Tribunal: “Foi no convívio com Juscelino e Negrão de Lima que observei serem esses mansos mineiros os homens públicos mais corajosos do Brasil”.

Aproveito o momento, Senhor Presidente, para dizer da minha gratidão a essa Minas bendita, que tão gloriosos estadistas deu ao Brasil.

Prossigo com a leitura do artigo: “Tomemos alguns exemplos da carreira de Tancredo: 1) a bravura com que defendeu Vargas, na crise de agosto de 1954. Ele e Oswaldo Aranha foram os únicos Ministros que advogaram a resistência até ao fim, em torno do Presidente. O grande Aranha, velho amigo de Vargas, era um arrebatado, afeito aos choques sangrentos nas coxilhas do Sul. Mas Tancredo era um jovem deputado sem laços íntimos com Getúlio - homem brando e pacífico que, provavelmente, nunca andara armado. Ele, aliás, previra a crise de 54. Em sua primeira aparição na TV, como Ministro da Justiça, denunciou com veemência “os golpistas impenitentes”. 2) Recorde-se que Tancredo, digna e altivamente, recusou votar no Marechal Castelo Branco, embora sob a ameaça do AI-1. Já fizera a estóica opção oposicionista e a ela foi fiel, durante 20 anos, discrepando de quase todos os vultos eminentes do PSD de Minas. Lembre-se, ainda, a exemplar solidariedade do ex-Primeiro Ministro a Juscelino, quando este foi submetido à tortura dos infindáveis interrogatórios. Josué Montello nos deu, sobre esse episódio, impressionante testemunho da destemida atitude de Tancredo. Enfim, evoque-se o seu gesto em não faltar à última homenagem prestada a um desventurado Presidente (Jango), quando o seu corpo voltou à terra natal. Tudo isso não se originou da paixão e sim do civismo.

Tancredo Neves unificou a Nação para a construção da Nova República. Ninguém espera prodígios de sua ação, mas todos têm a certeza de que, a partir do próximo ano, o Brasil estará entregue ao mais seguro dos timoneiros. Homens importantes e gente humilde do povo começam, em número crescente, a chamar o futuro Presidente de Dr. Tancredo. Isso significa algo ainda mais que respeito ou veneração. Isso quer dizer confiança. E para o mineiro simples, que jamais mudou no subir ou no descer, um dos menos vaidosos de nossos estadistas, imune à intriga e à cortesania , esta talvez seja a maior das honrarias. Sim, ninguém espera que, depois de março a dívida externa desapareça ou que a inflação desabe verticalmente das culminâncias. Mas todos sabem que nada ocorrerá de desastroso, insensato, sórdido ou vil, na escala nacional, porque lá no Planalto estará, vigilante, o Dr. Tancredo.”

Realmente, Tancredo era um bravo. Dentro daquela sua moderação, era o oposto de tantos homens de palha, de tantos acomodados, de tantos desfibrados, de tantos homens passivos que temos conhecido ao longo de nossa dolorosa história política. Posteriormente, quando ele adoeceu e nós aqui nos manifestamos, ainda à sombra de um certo otimismo, eu disse que a sua morte seria uma catástrofe nacional. Não seria o desaparecimento de um homem, seria um colapso cívico. Os ouvintes poderão avaliar o que se passou comigo ao admitir que essa morte seria inevitável. Cheguei a imaginar esta solenidade fúnebre. Mas se o homem é insubstituível e se a sua morte é uma catástrofe nacional, palavras de otimismo em relação ao Brasil seriam insinceras, palavras de pessimismo seriam inadequadas.

Dentro desse desalento, a atroz pergunta: por que passa por tão terrível provação um povo castigado pelo sofrimento e iluminado pela esperança? No curso desse desalento, dessa depressão, dessa situação de desamparo, desse negro pessimismo, dentro desse negrume, eu comecei a perceber uma luz e a sentir uma transfiguração.

Mas não era eu que me transfigurava, era o povo brasileiro. Diziam, e muita gente tinha razões para acreditar, que o povo brasileiro era um povo cínico, moralmente anestesiado, apático, céptico, sem ilusões e sem ideais. Mas algo maravilhoso aconteceu. De uns tempos para cá, nunca tanto se cantou o Hino Nacional; pessoas que tinham esquecido a sua letra voltaram a aprendê-la.

Nunca o símbolo da bandeira ganhou tanta força como agora, tomado, agitado, conduzido pela juventude, pela nossa juventude. Nunca se rezou tanto em nosso país. Mesmo aqueles que não rezam, como eu, reconhecem na prece um transe de elevação espiritual. Nem soldados ou sacerdotes, em suas pregações, conseguiram despertar tanto civismo e tanta espiritualidade como a que surgiu sob a inspiração dos ideais encarnados por Tancredo Neves.

Então, Senhor Presidente, há uma possibilidade de ser evitada a catástrofe temida . Por isto, o que me impressionou na morte do Presidente não foi o pesar, foi o entusiasmo; o que me emocionou não foi o abatimento, foi a apoteose; o que me comoveu não foram as lágrimas, foram os aplausos; o que me arrepiou foi ter visto o cortejo fúnebre de Tancredo transfigurado pelo povo em desfile triunfal.

O momento não era mais de depressão, era de vibração cívica. Há, portanto, a possibilidade, a que me agarrarei, de que a mensagem e o legado de Tancredo Neves venham a medrar, venham a prosperar no solo brasileiro e no coração do seu povo; a mensagem de amor à liberdade, de execração ao despotismo; a convicção de que a vida pública não é porta aberta para o enriquecimento pessoal; a confiança e a crença de que os nossos inevitáveis conflitos e antagonismos sociais poderão ser resolvidos sem ódio, sem violência, sem opressão. Há essa possibilidade. E se isso ocorrer, a morte do grande estadista assinalará o ressurgimento de uma nação. E aquele homenzinho calvo que ontem foi sepultado em São João Del Rei estará vivo, mais vivo do que todos os vivos.


Tribunal de Contas do Estado do Rio de Janeiro, sessão de 25 de abril de 1985.

Tribunal de Contas do Estado do Rio de Janeiro, 24/03/1985

 
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