Juscelino Kubitschek
Humberto Braga

Senhor Presidente, vou deixar aqui um testemunho, uma confidência, um desabafo, porque não fui à Manchete, nem ao aeroporto, no dia de ontem. Peço que haja paciência, porque preciso falar hoje, em.bora com dificuldade. Conheci Juscelino Kubitschek antes dele ser Presidente da República, em plena campanha eleitoral, através do Embaixador Francisco Negrão de Lima. Fiz-lhe uma saudação em Ipanema, na Praça General Osório. Mais tarde, algumas vezes, poucas vezes, durante seu governo, tive oportunidade de encontrá-lo.

Lembro-me de uma noite no Palácio das Mangabeiras, em Belo Horizonte, onde ouvi com encantamento a sua “causerie” admirado da cultura do homem que citava Vieira com facilidade e discorria sobre Goethe. Para mim, foi uma surpresa total. Mas só me tornei seu amigo a partir de 1961, quando ele deixou a Presidência da República e me deu a honra de admitir-me na sua intimidade.

Várias vezes por semana; pela manhã, bem cedo; eu, que morava na Rua Rainha Elisabete, passava por sua casa, na Avenida Vieira Souto. Às vezes de pijama, fazendo a barba no banheiro, ele gritava: “Ó Humberto, venha cá conversar comigo”. E então conversávamos. Isso constituía uma atração para mim, pois me contagiava sua alegria de viver.

Passaram-se anos assim, e em estreito e afetuoso convívio. Decorridos esses anos, veio a fase que precedeu a Revolução de 64. Fui um daqueles por ele convocados para assessorá-lo no preparo do discurso lido na Convenção do PSD, aceitando sua candidatura à Presidência da República.

Recordo-me de que na manhã de dois dias depois do malsinado comício da praça próxima à Central, ele, que não se encontrava no Rio, – encontrava-se fora, encontrava-se em Minas, – pediu minha presença e a do Embaixador Negrão de Lima para comentar, profundamente chocado, o que tinha ocorrido, já com a premonição das conseqüências muito graves que o fato iria provocar.

Durante o seu martírio, estive diariamente com o Presidente Juscelino Kubitschek.

Na tarde em que foi cassado o seu mandato e foram suspensos seus direitos políticos, passei várias horas em sua companhia, ao lado de Dona Sara. Não ouvi de seus lábios nenhuma palavra de ódio ou de indignação. Ele parecia estar sendo colhido nas malhas de uma tragédia grega, como vítima da fatalidade. Por isso mesmo, não responsabilizava ninguém pelo seu infortúnio. Acompanhei-o até ao aeroporto, quando viajou para o exílio. Naquela noite, fui atrás do carro que o conduziu. Visitei-o todas as vezes em que ele aqui esteve. Dois anos após a Revolução, procurei-o em Nova Iorque e juntos longamente conversamos. Em todas essas ocasiões, senti que, na adversidade, ele era maior do que no poder. Fui à China este ano e, numa cidade do interior, em Sian, um grupo de escolares, meninas, querendo prestar uma homenagem ao Brasil, cantou, em chinês, “Peixe Vivo”.

Quando ouvi o canto, senti imenso conforto, porque iria proporcionar uma alegria a Juscelino Kubitschek. Voltando ao Brasil, logo ao chegar, pretendi telefonar-lhe para contar-lhe o que tinha ouvido no interior da China. Mas, Senhor Presidente, veja como são as coisas! Cheguei e, por força dessa inércia, dessa conspiração de pequenos fatos da vida, que vão fazendo com que a gente adie uma decisão, uma iniciativa, uma providência: “Vou deixar para telefonar amanhã, poderei telefonar depois, agora, não; preciso arrumar minha vida primeiro…” não telefonei ao Presidente Juscelino Kubitschek! Não pude dar-lhe aquela notícia. Não mais o vi.

Senhor Presidente, Vossa Excelência fez o perfil do estadista com muita precisão, com muita justeza. Eu não saberia fazê-lo. Sentir-me-ia como um pigmeu tentando esculpir um colosso. Só posso falar do amigo, do homem que, num juízo de realidade, era o mais querido dos brasileiros e, num juízo de valor, o meu pessoal, era até aquela desgraçada tarde de domingo, aquela azíaga tarde de domingo, o mais eminente dos brasileiros vivos.

Vossa Excelência falou sobre a morte de Juscelino Kubitschek e, realmente, a morte pousará sobre todos nós. Ele teve morte instantânea, sem os avisos da moléstia ou da decrepitude. Morreu, como se fosse jovem, numa idade acima da média no Brasil.

Lamentar a morte do estadista, sentir pesar? Não poderei sentir pesar pela morte do estadista, porque, quanto a ele, mais do que para qualquer um outro, no seu fim está o seu começo, como diz a Escritura. Lamentar a morte do estadista, quando nela aumenta a sua glória e se reafirma a sua imortalidade? Pesar pela morte do estadista, quando a tragédia se converte em consagração? Pesar pela morte do estadista, quando a despedida se transfigura em apoteose? Pesar pela morte do estadista, quando o povo recebeu seu ataúde com estrondosa aclamação?

Eu poderia lembrar seu sofrimento, seus dias de adversidade, mas aqueles dias só fizeram aumentar sua grandeza . A taça de veneno que Aníbal sorveu, o punhal que rasgou a carne de César, o rochedo em que confinaram Napoleão, a bala que fez parar o coração do Presidente Getúlio Vargas, tudo isso contribuiu para imprimir maior relevo aos seus imensos vultos históricos. Deixarei que um dos companheiros proponha a moção de pesar.

Agora, pessoalmente, eu me associo ao povo brasileiro, na gratidão e no reconhecimento ao Presidente Juscelino Kubitschek. Pelos dias, por aqueles dias, meses e anos de intensa vibração cívica, obrigado, Presidente, muito obrigado! Pela mensagem de esperança que nos transmitiu, pela fé inquebrantável no destino do Brasil, pela energia, pela flama, pelo ímpeto de visionário ao partir para a arrancada do desenvolvimento nacional, pela alegria contagiante com que a sua grande alma espancava a tristeza do próximo, pela vontade juvenil de viver, sem ódio e sem medo, sem desespero e sem depressões, pela lição perene de generosidade e de otimismo, obrigado, Presidente, muito obrigado!

Saudade tenho do amigo simples, afetuoso, encantador. a estadista viverá enquanto viver a Pátria Brasileira; Pátria a que tanto amou e tanto serviu.


Tribunal de Contas do Estado do Rio de Janeiro, sessão de 24 de agosto de 1976.

Tribunal de Contas do Estado do Rio de Janeiro, 24/08/1976

 
artigos | discursos | sobre HB
Aposentadoria de um Guerreiro
1997

Agradecimento do Conselheiro Humberto Braga ao Presidente Conselheiro Sérgio Quintella, pelas palavras deste sobre seu aniversário.
10/10/1995

Realizações de Humberto Braga
01/01/1995

Discurso de posse na Academia Carioca de Letras
1993

HOMENAGEM PÓSTUMA AO POETA CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE
18/08/1987

Presença da Espanha
15/04/1985

Tancredo Neves, o Estadista
24/03/1985

Um homem público exemplar (Gustavo Capanema)
12/03/1985

HOMENAGEM PÓSTUMA A ALVARO AMERICANO
10/07/1984

Por Admiração e Respeito (Sobral Pinto)
08/11/1983

Alceu Amoroso Lima, homem símbolo
16/08/1983

Getúlio Vargas
28/04/1983

O sentido da história
13/01/1982

Francisco Negrão de Lima, o amigo maior
29/09/1981

Palavras de um Paraninfo
22/07/1981

A validade da ciência social
09/03/1981

Uma figura legendária (José Américo)
11/03/1980

Um jurista incomparável (Pontes de Miranda)
05/02/1980

Um Ente Amado (Gilson Amado)
29/11/1979

O Sergipano Gilberto Amado
28/08/1979

Juscelino Kubitschek
24/08/1976

Honra ao Mérito (João Lyra Filho)
01/04/1976

Um Discípulo de Augusto Comte (Ivan Lins)
17/06/1975

Um Espírito de Múltiplas Facetas (Aliomar Baleeiro)
08/05/1975

Pensamento econômico do século XIX - painel do século XIX
01/05/1972

O fulgurante Agripino
15/10/1968

Criação, na Guanabara, da Secretaria de Ciência e Tecnologia
1967

Lembrança de Raymundo Britto