Discurso de posse na Academia Carioca de Letras
Humberto Braga

Senhores Acadêmicos,

A cadeira nº 40, para a qual a vossa nímia generosidade me elegeu, tem história nobre e versátil; pois que a ela estão associados à poesia, a arte plástica, a eloquência e o ensaio literário.

O Poeta

A poesia repontou alta, clamorosa, rutilante na obra do patrono: Moacir de Almeida. Como situar em termos de escola literária esse bardo visionário e exaltado? Uns o colocam entre os pós-românticos, outros entre os pré- modernistas. Contudo, os mais lúcidos críticos não conseguem classificá-lo. Mas admitem ter sido ele um condoreiro, um hugoano, na linha de Castro Alves, porém despojado de conteúdo social e depurado de alguns traços característicos do romantismo. Moacir de Almeida guarda mais em comum com seu genial protótipo a circunstância de haver morrido cedo, aos 23 anos, vítima da mesma enfermidade, triste apanágio de tantos poetas. Prado Ribeiro, num excelente artigo publicado na revista desta Academia, ilustrou a obsessão do autor de Gritos Bárbaros pela palavra sangue, arrolando o número de vezes em que ela figura nos seus versos febris. Um freudista se apressaria em associar essa peculiaridade com as hemoptises que o exauriram.

Moacir de Almeida não se enclausurou em torres de marfim, quer se ornamentassem com a fria estatuária neo-helênica dos parnasianos quer se ocultassem nos páramos brumosos, onde ecoam as nênias simbolistas. Ainda faz alusões a lágrimas, mas, tal qual Castro Alves, não se compraz na volúpia da autocomiseração e do queixume. É um arrebatado que revela seu espanto ante o espetáculo do mundo e não um volante peregrino do ultramundo ou um sibilino menestrel de insondáveis enigmas. Muito menos o artesão de formalismos rebuscados e obscuros que na tentativa de exprimir ou sugerir "o inefável" culminaram na chamada poesia pura, sem conteúdo, arbitrária junção de palavras visando a produzir polivalentes e até imprevisíveis efeitos estéticos. Assim, a pluralidade de sentido, já esperada nesse supremo gênero literário, que não tem compromisso com o realismo lógico, pois é uma visão mágica da vida, desfecha, por força de artificialismos linguísticos, num caos onde os possíveis significados dependerão da imaginação dos leitores. Certamente na poesia as palavras possuem um valor autônomo que ultrapassa o seu sentido comum. Nela não são portadoras de um significado preciso, nítido, unívoco e sim geradoras de imagens. Posto que sua função não é a de um meio para transmitir conhecimento racional, sente-se a beleza antes de captar-se a significação. Isso explica a dificuldade da tradução poética e também a frase de Flaubert de que a um verso feio com sentido preferia um belo sem ele. E o próprio conhecimento objetivo pode ser antecipado ou supera- do pela brusca iluminação de um verso. Mas é duvidoso que os pósteros atentem nos cabalísticos poemas desses vates permanentemente obcecados pelas novidades formais. Considero a lírica 'inglesa a mais bela da Civilização Ocidental. Todavia muitos críticos modernos parecem acreditar que a. poesia nasceu, na segunda metade do século XIX, com a obra de dois extraordinários franceses precursores de tantos discutíveis epígonos: Mallarmé, o artista frio 40 verso musical e hermético – para quem a poética, sendo essencialmente ritmo, se exprimiria mais pela tessitura sonora do que pela riqueza dos conceitos ou elevação do pensamento – , e Rimbaud, o visionário de um mundo delirante e quimérico. Por isso grande parte da poesia contemporânea é uma arte esotérica, produzida para consumo de poucos iniciados, que suscita na maioria dos leitores indiferença ou desagrado.

Longe desse labirinto está a trompa épica de Moacir de Almeida, injustamente quase esquecida hoje. Aquele menino débil e doente tinha o sentimento heróico da vida que inspirou a música de Beethoven e Wagner, seus compositores preferidos. Na sua obra cintila a chama, não se adensa a sombra; estruge o grito bárbaro, não se ouve o planger da elegia ou o murmurar do acalanto; ressoam estridências polifônicas e não maviosas cavatinas. No exclamativo, metafórico, Moacir de Almeida há mais assombro do que mistério, mais revolta do que amor.

Em um ou outro poema, como em Música, pode-se perceber a nota simbolista ou até mesmo uma correspondência baudelairiana – o ouvido vê! – mas o que domina é a mensagem de grandeza e de glória. É honroso para a Academia Carioca de Letras ter como patrono de uma de suas cadeiras o poeta que assim bradava à natureza:

"Tuas ígneas volúpias dolorosas
Marulham no meu sangue, abrem-se em rosas,
Em meu crânio... E, escutando os sons violentos

Da tempestade, grito nos teus gritos;
Arquejo nos relâmpagos aflitos
Cravado sobre a cruz dos quatro ventos!"


O Artista

Conheci pessoalmente o primeiro ocupante da cadeira nº 40, Desembargador Deocleciano Martins de Oliveira. Embora tenha sido pequeno o meu convívio com aquele conterrâneo (eis que ambos somos baianos), recordo bem a sua figura. Baixo, moreno, barba austera, voz funda, olhos de iluminado. Se Moacir de Almeida era um visionário, Martins de Oliveira era um vidente. Nele o traço principal da personalidade se manifestou num misticismo fervoroso e o da obra numa permanente centelha criadora. Foi fecunda e multidimensional a sua atividade no plano da cultura, pois o meu antecessor brilhou na poesia, no romance, no conto, no ensaio, nas letras jurídicas e nas artes plásticas. É impossível nesta oração sequer tentar um resumo crítico desse legado admirável. Como as academias de letras, acertadamente, também acolhem os eminentes artistas plásticos, deter-me-ei nessa produção intelectual de Martins de Oliveira, por me parecer ter sido ela a que melhor refletiu o seu ser, embora só abrolhasse na maturidade da vida.

Analisar sua arte seria pretensão insólita pois careço de conhecimento especializado para essa empreitada. Todavia, arriscar-me-ei a um tímido bosquejo de suas linhas gerais. Talvez ó melhor de sua criação esteja nos trabalhos de homem abrasado pela fé e habitado pelo amor ao próximo. Apesar de orientalista e fascinado pela Ásia, a arte de Martins de Oliveira exprime mais inquietação e movimento do que o mistério e a passividade intemporal do Oriente. A Ásia que o influenciou não foi a do Enigma encoberto pelo véu de Maya na Índia e sim a da Revelação que irrompeu da areia ardente dos desertos da Judéia. Penso que para ele a religião não era algo completo e acabado pois está sempre a renascer no caminho da vida e na obra de arte. Mas Martins de Oliveira não se confinou nos lindes do sagrado. Palmilhou também as trilhas dos temas profanos, com a mesma maestria, no seu inesgotável encanto pelo mundo.

E assim representou os monges macerados e as bailarinas turbilhonantes, a prece contrita e a nudez provocadora. Mas sempre na refração da criatividade pessoal, pois certamente concordava com Hegel em que, se a função da arte fosse a de imitar a vida, ela seria supérflua. Seu interesse centrou-se, soberanamente, no ser humano. Este na sua dramaticidade o seduziu bem mais que as paisagens de uma para ele quase indecifrável natureza e, na pintura, foi sobretudo um retratista. No artista Martins de Oliveira predominou o figurativo, raras vezes incursionando pelos arcanos inescrutáveis do abstracionismo. Apaixonado pelo desenho, tinha que ser evidentemente um linearista, mas a linha em seus quadros não tem a função de determinar limites precisos para estabelecer a perfeita exatidão do contorno, como em Rafael e noutros mestres renascentistas. Para o nosso artista a forma não se reduz à precisão uniforme da linha (que não se vê na natureza) nem se encerra no contorno nítido. Ele valorizou a mancha a fim de produzir mais efeitos de massa do que puramente lineares, na senda já prenunciada no século XVII, com Rubens, Velasquez e Rembrandt Martins de Oliveira, se tivermos necessariamente de classificá-lo, seria um realista que incorporou, no limite de seus recursos, as experiências e os efeitos luminosos do impressionismo e as deformações introduzidas pelos grandes precursores da pintura moderna, Cézanne, Van Gogh e Gauguin, dos quais derivaram respectivamente o cubismo, o expressionismo e o fauvismo. Se fugiu dos convencionalismos acadêmicos, Deocleciano também se esquivou dos delírios surrealistas. Há beleza e vigor na sua arte. Não seria razoável exigir originalidade, pois a única pintura original da América Latina foi a mexicana, com os extraordinários muralistas Rivera, Orozco, Siqueiros e Tamayo.

Como escultor, o emotivo Martins de Oliveira, no espaço de suas possibilidades, se inspirava menos na serenidade clássica de um Fídias ou na elegância barroca de um Bernini do que na expressividade patética de um Donatello, na terribilitá de um Michelangelo ou na rudeza de um Rodin. Comungava com eles o amor pelo realismo. Daí sua insensibilidade, senão indiferença, pelas inovações da escultura moderna denominadas pelos críticos de abstracionismo orgânico e construtivismo cinético.

Na poesia, Deocleciano também ficou a meio caminho do "passadismo" e do "modernismo", igualmente distanciado da algidez hierática parnasiana e das audácias futuristas. Foi copiosa e bem inspirada a sua produção em versos que, infelizmente, não posso comentar agora. Assim, nas letras e nas artes, Martins de Oliveira deixou seu timbre como, amoroso intenso da Vida e cultor permanente da Beleza. Sua memória está assegurada na perenidade daquelas obras que exornam o Tribunal de Justiça deste Estado e a Basílica de Nossa Senhora Aparecida em São Paulo.

O Orador

Guardo recordação bem nítida do segundo ocupante da cadeira nº 40, Alcides Carneiro, Senhor da Palavra nos prélios da Eloquência. Embora não sendo seu íntimo, mantive com ele relações amistosas. Tenho na retentiva a imagem de seus ombros curvados acusando prematuro envelhecimento, a testa ampla, o sorriso triste e indulgente. Vi com frequência o chantecler nordestino desferir o canto embevecedor. Alcides foi, inclusive, parlamentar de oposição irredutível, mas, curiosamente, seu verbo, sempre luminoso, às vezes flamejante, não encontrou o veio apropriado no discurso de combate.

Não se poderia, sem impropriedade, alinhar o canoro conterrâneo da "patativa" Epitácio Pessoa entre os encarniçados lutadores da arena política. Faltavam às suas orações a dureza, a contundência, a pugnacidade que fazem da eloquência uma arma tão efetiva e devastadora nos embates públicos. Compare-se meu predecessor com outros vultos cimeiros da oratória nacional como João e Otávio Mangabeira, João Neves da Fontoura, Vieira de MeIo ou Carlos Lacerda – para falar apenas dos que ouvi pessoalmente – e logo se perceberá a diferença que havia entre ele e eles. Todavia, tenho para mim que, como no caso dos dois grandes Mangabeiras, combinavam-se em forma soberba para o esplendor verbal do meu antecessor a intuição do improviso e o primor da elaboração, procedimento aliás habitual entre os maiores tribunos da História.

Alcides foi o orador que mais me conduziu pelos itinerários da beleza. Era o poeta e não o gladiador da tribuna. As palavras brotavam dos seus lábios como arpejos compondo uma esplêndida harmonia. Às vezes, nos momentos mais vibrantes, tinha-se a impressão de uma forja eruptiva da qual chispavam sons e símbolos, imagens e metáforas. Contudo sua eloquência antes comovia do que arrebatava, era mais embriagadora do que eletrizante. O ouvinte não se crispava exaltado pelo sortilégio do feitiço verbal, mas, como embalado por uma berceuse, imergia em devaneio onírico. Alcides não foi o batalhador implacável, devorado pela ambição, ávido de poder e sim um homem melancólico, terno, generoso. Por isso não venceu na política. Muitos aqui lembrarão sua frase: "Perdi uma eleição que merecia ter ganhado para o governo da Paraíba e venci uma eleição que merecia ter perdido para a Academia Carioca de Letras". Acabou Ministro do Superior Tribunal Militar, em pleno regime autoritário. Aproveitou a situação para proteger o maior número possível dos chamados subversivos colhidos pela rede repressiva.

Foram momentos de grande emoção pessoal e estética aqueles em que ouvi Alcides Carneiro. A sua arte ingrata de falar sempre sem o Socorro do papel fez com que se perdessem algumas das mais preciosas pérolas da nossa língua, música cujos acordes se esvaíram no sorvedouro do tempo. Ainda tenho na memória aquela ouvida há bem uns trinta anos: "A vida é feita de instantes e num instante passa."

E porque não pertenceu realmente à estirpe dos oradores políticos cujas vozes mais altas retumbaram na Antiguidade – com os Demóstenes, Péricles ou Cíceros – e, nos tempos modernos, com o trovejante fragor dos Mirabeaus e dos Gambettas, até mesmo com o fulgor iconoclasta e profético de um Trotsky ou o sinistro clarão tumultuário de um Hitler, a lembrança de Alcides Carneiro sobrevive naqueles que tiveram o privilégio de ouvi-lo. Esfumou-se a mensagem, ficou o encantamento.

O Ensaísta

Tive pouco convívio com Vicente Faria Coelho, meu antecessor na cadeira 40. Revejo-o magro, alto, cabeça branca, olhos claros, bigode sisudo. Pela sua obra cristalina, racionalista, equilibrada, deduzo que Faria Coelho, na classificação nietzschiana, contrastava com Moacir, Deocleciano e Alcides. Estes dionisíacos, ele apolíneo.

Não resisto agora a lembrar um episódio que dá a medida da elegância moral e da grandeza de alma do meu antecessor. Um dos seus pares, no Tribunal de Justiça, perdera o filho em desastre de automóvel. Na fila dos cumprimentos na missa do sétimo dia, vi-me ao lado de Faria Coelho e dele ouvi o seguinte: "Estou de relações cortadas com este colega, mas senti que, no dia de hoje, não poderia deixar de trazer-lhe minha solidariedade". E poucos minutos depois o infortunado pai o abraçava comovido dizendo: "Como foi insignificante a nossa briga diante de uma desgraça como esta!" Deparo considerável dificuldade em tentar um elogio digno da obra de Faria Coelho nos limites desta oração. Mesmo abandonando a pretensão de exaltar o magistrado eminente que atingiu a culminância de presidir o mais alto órgão judiciário do nosso Estado (chegou a ocupar por dias o Governo da Guanabara), o jurisconsulto insigne que ofereceu opulenta e substanciosa contribuição às letras jurídicas, notadamente no Direito Privado, com especial relevo no ramo do de Família, o professor universitário conspícuo que deixou em gerações de discípulos a marca do seu saber, o administrador eficiente que provou sua competência como Secretário de Justiça do Estado do Rio de Janeiro, mesmo renunciando a realçar seus merecimentos em todos esses misteres para ater-me exclusivamente à sua produção literária, ainda aí me faltariam fôlego e informação para aventurar-me a esse cometimento. A paternidade lusitana e a circunstância de haver passado a infância em Portugal certamente concorreram para levar Faria Coelho a projetar a construção do monumento a que deu o título Série Eça de Queiroz em dez volumes dos quais, infelizmente, só publicou dois: Eça de Queiroz – Símbolos e Personagens de Vanguarda e Eça de Queiroz – Poesias, que ele, aliás, me ofereceu com generosas dedicatórias. Em prefácio ao livro de Albano P. Catton Eça de Queiroz – Dicionário Bibliográfico dos seus Personagens, fiz uma síntese do culto no Brasil à obra do maravilhoso filho de Póvoa de Varzim. Àquele tempo não haviam surgido ainda estudos notáveis como a sua biografia por Luis Viana Filho, entre outros. Mas, às contribuições por mim apontadas sobreleva a de Faria Coelho pela vastidão dos temas e a profundidade da pesquisa. Pelo que pude conhecer, nada de semelhante magnitude foi tentado em nosso país. Alimento a firme esperança de que venham a lume outros volumes da obra grandiosa que a morte deixou em manuscrito. Agora, farei apenas breve observação sobre os trabalhos publicados. Em um deles, Faria Coelho, num esforço inédito, reuniu toda a produção poética de Eça praticamente ignorada entre, nós mas merecedora de atenção e estudo. Foi uma investIgação beneditina que bem revela a devoção eciana do autor. E não se limitou. a transcrever os poemas mas os complementou com informações valiosas e lúcidos comentários. No volume sobre os personagens delineou vívidos perfis dos mais famosos deles, ilustrando-os com os traços acentuados pela pena do seu criador. Tudo isso com impressionante erudição e num estilo claro, límpido, correto, de prazerosa leitura, sem ornatos, demasias ou impropriedades retóricas.

No prefácio já aludido assinalei que Eça não se confinava no âmbito do pitoresco, do anedótico ou do caricatural, mesmo quando se empenhava, nos cânones do naturalismo, em descrever e criticar o Portugal de sua época, espécie de acanhado subúrbio da Europa fin de siècle. E escrevi: "Como nos são familiares a mediocridade solene e satisfeita do Pacheco ou o romantismo pueril de Alencar de Alenquer!" Faria Coelho partilha desse entendimento e defende com proficiência o caráter universal da obra do mestre. Também ao referir-me à conhecida classificação dos personagens literários em planos e esféricos – os primeiros de comportamento uniforme, sem variações profundas e os segundos de comportamento imprevisível, surpreendente – apontei em Eça de Queiroz, tal qual Cervantes no Dom Quixote, um criador por excelência de personagens planos, bem diversos do Hamlet de Shakespeare, do Julian Sorel de Stendhal, do Pedro Bezukhov de Tolstoi ou da galeria dos estranhos seres concebidos por Dostoievski. Com muita justeza Faria Coelho lembra que isso não quer dizer convencionalismo ou falta de rigor psicológico. Vou rematar o frágil esboço que agora fiz reforçando-o com estas palavras admiráveis de meu antecessor:

"Sua criação obedeceu a dons extraordinários, aproveitando o mil nadas da monotonia diária e dando ênfase a acidentes miúdos da vida, para deles fazer emergir trágicos dramas ou, mesmo, ridículas comédias. Exagera-os por vezes, levando-os à caricatura, para, com tal propósito, provocar a demolição de um conservantismo errôneo e risível. Assim, Acácio, Pacheco, Margaride e outros são a critica causticante à sociedade conselheiral." (Aqui uma ressalva: apesar de Conselheiro não pertencer a ela)

Possegue Faria Coelho:

"Há de tudo, porém; os bons, os repletos de compaixão, os ingênuos e, ao lado deles, os torpes, os cabotinos, os grotescos, os cínicos, os sedutores desavergonhados, os idiotas, os sórdidos, os diletantes, os insatisfeitos. Entre as mulheres, há as que foram perseguidas pela fatalidade, as pecadoras, as intrigantes, as devotas, algumas, até, dotadas de um devotismo feroz e, raramente, as prendadas de pureza, de candura e de inocência."

Senhores Acadêmicos

Lamento não tivessem me chegado às mãos os discursos de posse dos meus antecessores. Sua leitura me permitiria saber se os juízos deles coincidiam com os meus. Por isso, abalancei-me a falar sobre todos, numa homenagem pálida mas sincera.

Até agora não falei de mim, pois esta é a missão deferida ao preclaro acadêmico e notável escritor Abeylard Pereira Gomes, principal responsável pela minha presença aqui. Ela será bem mais dificultosa do que a de seu novo confrade, pois, se tive de enfrentar o excesso, a ele caberá trabalhar sobre a exiguidade.

É certo que, até bem pouco tempo, não figurava no horizonte de meus projetos e aspirações integrar uma academia de letras. E isso não se devia a humildade ou preconceito e sim à circunstância e à convicção de não ser eu um profissional do ofício literário. Quando muito um amador senão um curioso. O amor pelos valores da inteligência e pelo mundo do espírito devo-o a um membro deste cenáculo, Leopoldo Braga, homem de letras militante, cujo magnífico elogio foi feito pelo mesmo orador que irá me saudar agora. Ele, aliás, mais de uma vez manifestou o desejo de que eu viesse a ter assento nesta Academia. Vossa delicadeza, certamente como uma homenagem póstuma, atendeu à sua vontade e sobrepujou minha relutância encabulada aos primeiros acenos para juntar-me a vós. Eu só poderia sentir apreço pela nobre e tradicional instituição a que meu pai pertenceu e em cujo seio se contam e se contaram altas expressões da inteligência e da cultura em nosso estado e em nosso país. Não irei agora, como sói acontecer em muitas ocasiões análogas, fazer a confissão do próprio demérito. Aliás já se disse, maliciosamente, que modéstia é virtude típica dos oradores e quase exclusividade deles. Mas, se, desvanecido, recebo a láurea que me conferistes, por outro lado me acode a reflexão melancólica de que ela vem na órbita declinante da minha vida. Se o brasão acadêmico transmite o atributo de uma duvidosa imortalidade, não posso deixar de evocar a frase de Disraeli: “Vencer tarde é alcançar ao mesmo tempo a imortalidade e a morte.” Mas se minha eleição não pode mais valer como incitação ou alento, encorajamento ou apelo, a fim de tentar uma atividade criadora para a qual sempre me escassearam vontade e imaginação, reconheço nela a balsamizante função de um consolo. Eu a recebo como refrigério para as desilusões e os desapontamentos inevitáveis da existência e um cativante gesto de amizade e bondade que certamente amenizará as asperezas da etapa final. Este prêmio me ajudará a prosseguir o trecho mais difícil da jornada, vencendo o medo do futuro e superando as frustrações do passado, menos animado pela pretensão de deixar traço de minha passagem no mundo do que atraído pelo sonho de conquistar, enfim, a calma estóica para compreender e esperar.

1993

 
artigos | discursos | sobre HB
Aposentadoria de um Guerreiro
1997

Agradecimento do Conselheiro Humberto Braga ao Presidente Conselheiro Sérgio Quintella, pelas palavras deste sobre seu aniversário.
10/10/1995

Realizações de Humberto Braga
01/01/1995

Discurso de posse na Academia Carioca de Letras
1993

HOMENAGEM PÓSTUMA AO POETA CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE
18/08/1987

Presença da Espanha
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Tancredo Neves, o Estadista
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HOMENAGEM PÓSTUMA A ALVARO AMERICANO
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09/03/1981

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Criação, na Guanabara, da Secretaria de Ciência e Tecnologia
1967

Lembrança de Raymundo Britto