Lembrança de Raymundo Britto
Humberto Braga

Raymundo Britto, no meu patrimônio afetivo, poderia ter sido apenas, como tantos outros, um precioso legado de meu pai. Todavia, para mim, representou muito mais do que uma amizade hereditária. Reconheço nele uma das grandes influências intelectuais de minha vida.

Recuando no tempo aos já longínquos dias de minha infância na Bahia, a primeira impressão que me veio da permanente admiração em que sempre o tive foi a do advogado. Um advogado combativo, brilhante, senhor da tribuna e cujo talento rebrilhava melhor nos embates do júri. Mas já a esse tempo ele ganhara o renome de operoso parlamentar, cujo liberalismo lhe trouxera o brazão cívico da prisão política, na derrocada da democracia, em Novembro de 37.

Foi com maravilhado espanto que, ao lado do advogado e do jurista, vi despontarem nele o professor e o filósofo. Nada levava a crer que num homem tão ocupado com questões pragmáticas e, frequentemente, enfadonhas, viesse a florescer com tanta elevação e com tanto vigor o amor pelo pensament.o desinteressado e pela especulação transcendente. E não sei de ninguém que, na Bahia daquela época,houvesse escrito um ensaio filosófico da importância de "Realismo, Idealismo e Filosofia da Vida", a tese com que Raymundo Britto conquistou a cátedra de Filosofia do Colégio Estadual da Bahia. Nela não se observam nem a compilação servil nem a erudição ostentatória e tresmalhada tão comuns em trabalhos do gênero. Mas o que ali ganham relevo, num estilo simples, claro e correto, são a cultura que apreende os verdadeiros problemas e neles discerne o essencial do secundário, e o espírito crítico que sintetiza, avalia e julga as teorias dos mestres.

O poeta, em Britto, precedera o jurista e o filósofo. Mas só apareceu em toda a importância com a publicação de "Caminhos Perdidos". A sua poesia não é facilmente qualificável. Nem a retórica parnasiana, nem a obscuridade simbolista, nem as audácias modernistas, nem os arrebatamentos da "poesia social". Embora fiel aos cânones da métrica e da rima, não raro deles se afastava. Esquiva ao hermetisrno, frequentemente imergia em suave mistério. Voltada para o universal, não desdenhava os apelos do regional, do quotidiano, do folclórico. E o traço intimista, de doce cepticismo e piedosa ironia, prevaleceu sobre qualquer outra "mensagem" nos "Caminhos Perdidos".

A carreira de Raymundo Britto prosseguiu em outros trabalhos e novas posições, como Deputado Estadual, Deputado Federal, Secretário de Justiça na Bahia. Como parlamentar reafirmou seu talento de orador e seu saber de jurista. Corno Secretário revelou o homem de ação operoso, criativo, eficiente.

A Academia de Letras de seu Estado natal de há muito lhe abrira as suas portas, cabendo a Leopoldo Braga traçar o magnífico e rico perfil intelectual do novo confrade.

Contudo, nenhum desses êxitos representou a maior vitória de Rayrnundo Britto. Essa se confundiu com a maior, a suprema ventura na admirável mulher que a sorte lhe deu por companheira de destino e vida. Com a experiência de um conhecimento de mais de 50 anos, posso dizer que não sei de casal mais feliz que o formado por Alzira e Raymundo Britto. Ambos apaixonados pela inteligência e pelas coisas do espírito, pela vida pública e pela tranquilidade do lar; toda via sobejava nela tudo que às vezes faltava a ele: a fé ardorosa, a energia indeprimível, a vitalidade exuberante, a alegria comunicativa, a decisão pronta, a sociabilidade aglutinante. Ela concorreu decisivamente para o êxito do marido e, muito mais do que isso, para a sua felicidade. Foi no sossego do lar muito mais do que na glória da cátedra ou da tribuna que Raymundo Britto viveu os melhores momentos de sua vida.

Britto foi um homem de espírito universal e um humanista de múltiplos interesse: amava os livros e o jogo do xadrez, as longas conversas sobre temas absolutamente distanciados de sua faina diária e as simples e prazerosas reuniões de família.

A segunda metade de sua vida foi dedicada à política. Já aludi aos seus triunfos. Contudo, salta aos olhos que ele não alcançou as posições condizentes com os seus méritos. Não foi Ministro, nem Governador, nem Presidente da Câmara, nem membro do Supremo Tribunal Federal. E sobravam-lhe qualidades de talento, cultura, espirito público, honradez, competência para ocupar qualquer um daqueles cargos frequentemente conquistados por pessoas que nem de longe poderiam aproximar-se dele quanto àquelas aptidões. A razao porque isso não ocorreu é fácil de apontar.

Britto era modesto, tímido, doce e céptico. Possuía todas as qualidades menos aquelas que fazem o líder. Sua modéstia chegava a causar estranheza. De uma feita, Churchill, ao ouvir de alguém um elogio à modéstia de seu adversário trabalhista Attlee, exclamou: "É modesto realmente. E tem todos os motivos para sê-lo!" Raymundo Britto tinha todas as razoes para ser um vaidoso, mas se enclausurava na sua modéstia. Por que um homem tão consciente de seu valor manifestava, frequentemente, tanta relutância em impô-lo aos demais? Seu cepticismo filosófico vedava-lhe aquelas certezas simples e inabaláveis que são o apanágio dos aventureiros, dos audaciosos, dos gladiadores da arena política. Faltavam-lhe, sobretudo, dureza e implacabilidade, ingredientes sem os quais não prosperam os verdadeiros homens de ação. Seu traço principal era a bondade. Era um homembrando e generoso a quem horrorizava e repugnava todo e qualquer gesto de crueldade.

Com tais predicados, Raymundo Britto nao poderia chegar as culminâncias numa atividade em que a maior virtude consiste na ambição.

Aquele homem, um sábio no plano intelectual era frequentemente ingênuo no da existência quotidiana. Por isso, carecia de astúcia, sagacidade, "maquiavelismo". Era surpreendente a sua ignorância prática do "mal".

Diante de uma torpeza, sua reação era não tanto a de quem a repele por julgamento moral como a de quem não a concebe por desconhecimento espiritual.

Coube-lhe a sorte de viver 82 anos num mundo onde abundam a torpeza e a brutalidade, participar de seus dramas, prestar os seus serviços, transmitir a sua mensagem e dele partir deixando a imagem de um espírito amplo, luminoso e puro.


 
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