O sentido da história
Humberto Braga

Companheiro Presidente,

Companheiros:
não farei exórdio. Vou direto ao assunto, tentando fazer um tema, aparentemente tão abstrato, interessante para aqueles que me ouvirem. Vou limitar-me a abordar por alto alguns problemas da História, formulando mais perguntas do que respostas
Isso pode parecer estranho àqueles companheiros que estão mais habituados ao método das ciências naturais. Porém, na História, o mais importante para o estudioso é saber formular as perguntas fundamentais. Entao, vou começar logo pela seguinte:
- Que é História? Qual o campo e qual o objeto da História?
Tudo que aconteceu no passado interessa à História? As doenças ou as aventuras amorosas de algum rei ou algum potentado são fatos históricos?
Para mim, a História cuida do passado das civilizações sobretudo enquanto mudança qualitativa. Vale dizer: transformação política, social, econômica ou cultural. Isto não quer dizer que a História se detenha apenas na mudança qualitativa, porque se assim fosse ela ignoraria a continuidade que precedeu e que sucedeu à transformação. Mas onde so houver continuidade e mudança quantitativa não há História. Dai se seguem, então, duas conclusões imediatas:
1ª As sociedades primitivas não têm História. São ahistóricas, porque nelas não se observa a mudança estrutural, qualitativa, e sim mera sucessividade no tempo. Elas pertencem ao domínio da Antropologia.
2ª A futurologia é uma falácia, é um esforço fútil. Por quê? Porque o futurólogo toma os dados do presente e os projeta no futuro, mediante um cálculo que abstrai, que ignora a mudança qualitativa. Nenhum futurólogo, que eu saiba, previu a crise de energia dos últimos anos.
Passemos a outra pergunta mais complicada: É possível o conhecimento histórico?
Há quem duvide da objetividade desse conhecimento. Isto porque o fato histórico nunca é aprendido isolado, mas sim através de uma interpretação que é necessariamente subjetiva. Os fatos históricos são selecionados pelo juízo de valor pessoal do historiador. Daí as interpretaçõess diferentes ou divergentes do mesmo fato.
Todos sabem, ninguém nega, que houve uma grande transformação política no Brasil em 1964. Mas se reuníssemos aqui vários historiadores para discorrer sobre ela surgiria entre eles um interminável debate. Para uns teria sido uma verdadeira revolução, para outros simples golpe de Estado; para uns uma salvação, para outros uma tragédia.
Daí muitos poderiam concluir que ao conhecimento histórico falta objetividade. Mas essa crítica pode ser lançada a todas as ciências sociais - à Sociologia, à ciência política e até mesmo à Economia. A visão do mundo do historiador, sua formação ideológica, seu juízo de valor não permitem que se dêem às perguntas por ele formuladas respostas exatas. Mas é preciso atentar no seguinte: Se o conhecimento histórico só existe na perspectiva do historiador, nem por isso ele é arbitrário, porque tem de se fundar no fato histórico objetivo. Quem recusar a possibilidade do conhecimento histórico terá que recusá-lo a todas as ciências do homem, isto é, às ciências sociais.
Passemos a outra pergunta: A História tem sentido ou é caótica?
Acho que a segunda hipótese deve ser de logo abandonada. Que seria uma História caótica? História caótica é história sem causalidade, é História indeterminada e, portanto, nela não seria possível nenhuma previsão, nem mesmo nenhum plano. Então, devemos acreditar que a História tem sentido. Mas, veja-se bem: Uma coisa é dizer que a História tem sentido, outra coisa é dizer que ela tem um sentido único predeterminado. Uma coisa é dizer que a História é inteligível, outra coisa é dizer que ela tem uma finalidade.
Admitindo que a História tem sentido, duas grandes teorias se chocam. A teoria evolucionista, que foi criação dos judeus e que vê a História como inovação, como novidade; e a teoria cíclica, que foi concepção dos gregos e vê a História como repetição. Esta última teoria tem muitos defensores, como Nietzsche, Spengler, Sorokin e até mesmo o próprio Toynbee .
A favor do evolucionismo histórico temos de considerar dois aspectos. Primeiro: que não se observa a repetição do drama social básico. Por exemplo: restaurações sócio-econômicas, como retorno ao feudalismo, ao escravismo etc. Segundo: o fato de que as sociedades históricas não são espaços cerrados, incomunicáveis. É perfeitamente possível a transmissão do legado cultural e do conhecimento cumulativo de uma civilização a outra civilização. Podemos, agora, aqui, apreender o pensamento de Buda e de Confúcio. Mas, evolução é uma coisa, progresso é outra. A História não significa sempre progresso, no sentido de aperfeiçoamento. Houve regressões históricas.
A Idade Média foi tipicamente uma regressão, em face da antiguidade clássica, greco-romana, que lhe era superior em tudo ou quase tudo, não só do ponto de vista material como do cultural. Uma guerra atômica ou uma catástrofe ecológica podem determinar uma nova regressão histórica cultural e material.
Daí o ceticismo quanto à possibilidade de progresso moral. Mas, como assinalei em recente artigo do Jornal do Brasil, em dezembro passado, nos últimos 200 anos, houve um inequívoco exemplo de progresso moral em dois aspectos do comportamento social: a tolerância religiosa e o abrandamento da lei penal.
O eminente companheiro calvinista, Prof. Benjamin Moraes, pode sentar-se ao lado, aqui no Rotary, do eminente companheiro católico, Prof. Oscar Dias Corrêa, sem que cada um deles pense em levar a faca senão na direção do respectivo prato. Isto era impossível ou improvável no século XVII. Quanto ao abrandamento da lei penal, não há dúvida de que aqueles suplícios bárbaros, que eram executados legal e publicamente, foram abandonados em todo o mundo.
Vamos, agora, passar a outra discussão mais complicada. É a identificação do motor que provoca a evolução histórica.
Já houve quem sustentasse que a História é a realização de um plano divino, concebido no céu, e sujeito à intervenção da Providência. Para outros, a causa da evolução histórica é a inovação tecnológica. Há quem replique que ela não é causa e sim efeito. Os marxistas acreditam em leis históricas. É a conhecida tese: "Aconteça o que acontecer, a galinha capitalista vai pôr um ovo socialista." Porque isso é uma lei histórica, portanto inevitável. Grande parte do prestígio do marxismo vem precisamente dessa convicção. Admitindo-se uma causalidade da História, que não é de modo algum de tipo mecânico, a discussão sobre a causa dominante não cessou até hoje. Os marxistas apontam o fator econômico. E não só eles. Também os economistas liberais neoclássicos, pensam assim, quando sustentam a marximização da satisfacão do consumidor. Mas mesmo que admitamos que o fator econômico seja o dominante ou prioritário nas grandes transformações de estrutura das sociedades, ele certamente nem sempre o é no comportamento dos homens. Quando, no século XI, um cruzado abandonava a sua terra, amontoava dívidas, alienava seus bens, deixava sua mulher com ou sem cinto de castidade, e por caminhos longos, perigosíssimos, ia combater os muçulmanos no Oriente, estaria ele movido, consciente ou inconscientemenle, por uma fator econômico? É evidente que o fator econômico existia. Mas seria o dominante? A meu ver, a resposta é negativa. O fator econômico passou a ser dominante no comportamento dos homens, no Ocidente, a partir das revoluções comercial e industrial.
Aqui surge um problema desconcertante - o do acaso na História. Está expresso na famosa especulação de Pascal sobre o nariz de Cleópatra. Imaginemos assim: se Cleópatra tivesse o nariz parecido com o de alguns companheiros aqui presentes, Antônio não teria se apaixonado por ela e a História do Império Romano seria diferente.
Acaso não é um acontecimento sem causa. Acaso é um fenômeno cujas causas são desconhecidas e, portanto, imprevisíveis para o sujeito de outro fenômeno. E esses fenômenos interferem, sem haver dependência entre eles. A meu ver, o acaso modifica o caminho histórico, não a tendência histórica, não a direcão histórica. Vamos dar um exemplo .
A tendência histórica, no Brasil, na segunda metade do século passado, era a abolição da escravatura. Um acaso histórico poderia modificar aquele caminho, torná-lo mais longo, mais curto, mais tortuoso, mais complicado, sangrento, mas não alteraria a tendência histórica. A tendência só pode ser modificada por outro acontecimento da mesma magnitude, quer dizer, por outra tendência que se torna predominante. Mas aí não há lugar para acaso. Portanto. a História nem é fatalista, nem é fortuita.
Agora, vamos passar a outro tema muito discutido: E a influência do indivíduo na História?
Há duas grandes teses colidentes, duas teses extremadas: a de Carlyle, que exalta o grande homem, o herói histórico, e a de Tolstoi, de Spencer, de H. G. Wells, que o negligencia. Os marxistas salientam o papel das leis objetivas, impessoais, o desenvolvimento das forças produtivas, a ação das massas etc. Mas coisa curiosa e até meio irônica, todos os os estudiosos isentos e idôneos mostraram que, sem a ação de Lênin, não teria havido a revolução russa . E é um dos maiores marxistas, nada menos do que Trotsky, quem afirma, no ''Diário do Exílio'', que sem a pessoa física de Lênin não teria ocorrido a Revolução de Outubro. E os próprios marxistas-leninistas desmentiram a sua tese quando criaram o desmesurado culto de personalidade de seus líderes. Lênin mumificado, adorado como um deus, no santuário da Praça Vermelha: Stalin, Mao... Estes dois estão agora em maré baixa.
A conclusão que se tira é a de que, não havendo condições objetivas que sejam totalmente desfavoráveis à ação do grande homem, se ele existir, ela pode ser decisiva. Então, são necessárias duas condições: 1ª que não haja circunstâncias impeditivas do evento; 2ª a existência do grande homem político.
Ê evidente que nenhum líder conseguiria, nos dias de hoje, a restauração da monarquia hereditária no Brasil, porque as circunstâncias objetivas são totalmente desfavoráveis.
Vamos, agora, passar a outro tema também muito interessante que pode ser elucidado pela História – o problema do governo pela elite intelectual.
Muita gente condena o sufrágio universal, prega o senso alto e pede que o governo seja entregue à elite intelectual, à "intelligentzia". A História pode ajudar a elucidar esse problema, porque houve um país, a China, que foi governado, durante mais de mil anos, pela sua elite intelectual, o mandarinato dos letrados. E essa experiência deu certo?
Para mim não deu . Para mim foi precisamente esse o fator mais importante na esclerose da sociedade chinesa, na estagnação econômica, científica e técnica do Império Chinês. Foi ele que obstou as revoluções comercial e industrial na China, apesar dela ter sido o país das grandes invenções - a pólvora, a bússola, o papel, a imprensa.
Com todo o meu respeito à Academia Brasileira de Letras, eu não confiaria o governo aos seus ilustres membros, nem mesmo aos docentes de nossas universidades. Não acredito no governo por uma elite intelectual, porque ela tende à esclerose. É isso que o exemplo histórico mostra.
Finalmente, mais um aspecto, porque vou terminar. Não quero cansar os meus ouvintes. É o problema da mutabilidade ou imutabilidade da natureza humana.
A questão é esta: o homem é basicamente o mesmo em todos os lugares, em todos os tempos ou a natureza humana é socialmente modificável e, portanto, historicamente determinada? Isto pode parecer uma questão puramente filosófica, mas essa suposição é infundada.
Todo o edifício doutrinário da economia clássica e neoclássica assenta numa noção determinada da natureza humana - o homo economicus. Ortega y Gasset afirmou: "O homem é mais história do que natureza." É a minha opinião também. Não acredito numa natureza humana invariável, com estruturas essenciais imutáveis. Essa questão só pode ser elucidada pela investigação histórica, complementada pela pesquisa antropológica.
Vou parar aqui. Mesmo que os ouvintes não estejam cansados, eu estou. Agradeço a gentileza do Presidente de dar-me esta oportunidade de falar aos companheiros e tenho a esperança de haver conseguido chamar a atenção deles para o fato de que o estudo da História é capaz não apenas de ampliar o nosso conhecimento do mundo, mas também o de nós próprios, de vez que ela, a História, com as suas grandezas e as suas misérias, as suas belezas e os seus horrores, é uma obra e uma construção do homem com as suas paixões, a sua vontade e a sua razão. Muito obrigado pela paciência com que me ouviram.

Palestra no Rotary Club do Rio de Janeiro, 13/01/1982

 
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