A validade da ciência social
Humberto Braga

Ao falar para economistas sobre a "validade da ciência social", postulo a questão: a economia é uma ciência? Sim, responde Schumpeter, na sua monumental História da análise econômica, e nos dá a definição de ciência, que eu adoto: conhecimento dirigido, com utilização de técnicas que não são de uso do público, em geral.
Oue tipo de ciência é a economia? Natural ou social? No século passado, Dilthey estabeleceu essa distinção e acentuou que a ciência natural exigia a explicação causal e a ciência social, a compreensão do sentido, de vez que seu objeto era o comportamento humano. Numa aula inaugural, em Cambridge, em 1885, o grande economista neoclássico Alfred Marshall afirmou que, se de fato existisse uma ciência social geral - premissa de que ele duvidava - a economia fatalmente nela estaria incluída. Hoje, todos os mestres, Schumpeter entre eles, apesar das ambições da econometria, concordam em que a economia é uma ciência social. Não apenas pelo fato de ser o homem o seu agente, mas pela própria natureza de seus grandes problemas. Seus postulados se apóiam em proposições do gênero "permanecendo idênticos os demais fatores"... ou do "se, então" etc. O modo de distribuição de recursos escassos é uma opção política. O funcionamento do mercado se processa numa determinada organização social e pressupõe uma noção específica de comportamento humano. Como os institucionalistas salientaram, a lei da oferta e da procura não é sempre aplicável em todas as culturas. Por maior que seja o gado suíno, um muçulmano irá à inanição antes de consumi-lo, e por maior que seja o gado bovino, um hinduísta preferirá morrer de fome a comer carne de vaca.
Segundo Lowe, são tipicamente sociológicos os dois princípios que se apresentam como condições lógicas das leis clássicas do mercado: o homem econômico e a competição ou mobilidade dos fatores de produção. Não posso agora analisar o grandioso e inacabado trabalho de Max Weber, Economia e sociedade, nem as obras de Veblen. Basta lembrar que a nossa economia se baseia nos fenômenos histórico-sociais da propriedade privada, da divisão do trabalho e da organização industrial.
Na fase posterior a Keynes, a preocupação com o produto nacional bruto e a renda nacional despertou o interesse dos economistas para os fatos sociais que têm influência no desenvolvimento econômico. Desemprego, miséria, ciclo econômico, inflação exigem consideração e exame de fatos extra-econômicos.
Portanto, a economia é uma ciência social cujas grandes linhas só poderão ser apreendidas mediante sólidos conhecimentos da sociologia, da ciência política e da história.
Mas agora surge outra questão: ciência social é ciência? Adotando-se a definição schumpeteriana, a resposta só poderá ser afirmativa. Que é ciência social? Segundo Runciman, é o estudo sistemático do comportamento humano colativo. Contudo, há quem só reconheça estatuto científico à ciência natural. Que é ciência natural? É o conhecimento exprimível em leis gerais comprovadas pela observação empírica e pela verificação experimental. À luz dessa concepção, severas críticas foram dirigidas às ciências sociais. Sua principal vítima foi a história. Dizem os seus implacáveis críticos: a História trata do individual e do particular. Ela manifesta impossibilidade de experimentação e de quantificação e, mais ainda, novidade, complexidade, imprevisibilidade, inevitável seleção de fatos pelo juízo de valor do historiador, insuficiente explicação causal etc. Em contraste com isso: a estabilidade, a imutabilidade da natureza.
Prosseguem os ataques ao histericismo. Não há objetividade do conhecimento histórico. Todo fato histórico tem de ser interpretado por um juizo de valor. E as interpretações variam ou colidem, como provam as divergências entre os historiadores. Não há leis gerais na história. Nela só existe uma série de acontecimentos que têm caráter único, irrepetível, não suscetível de experimentação.
E essa mesma crítica se estendeu à ciência social como um todo. A ciência natural é neutra, a ciência social é carregada de valor. A ciência natural é una, a ciência social é plural. As verdades da ciência natural se impõem ao espírito de modo imperativo. "Não há liberdade de consciência em astronomia", disse Comte. Já as conclusões da ciência social são parcialmente livres, podem ser objeto de opções. O objeto da ciência natural é estável, o da social é cambiante. As generalizações das ciências sociais nada mais são do que uniformidades estatísticas. As supostas leis sociais podem ser modificadas pelo homem, que não tem tal poder sobre as leis naturais. O fato social é singular e tem sentido para o seu agente. Como captar esse sentido que é subjetivo? Se ele não for explicado, a generalização é inaceitável.
Essas as principais críticas. Passemos ao seu comentário.
No plano puramente teórico, a ciência natural é tão vulnerável quanto a social. Popper, por exemplo, nega a existência de leis naturais e só admite regularidades. Para ele, só é possível o progresso científico pela refutação empírica das hipóteses, isto é, pela eliminação das teorias falsas. A proposição “todos os cisnes são brancos" é incontestável até que se aponte um cisne negro. E, no plano filosófico, Hume lançou devastador ataque ao princípio da causalidade, que ainda não foi respondido com êxito, apesar do esforço de Kant nesse sentido. Teoricamente, a argumentação de Hume continua irrefutada.
Proclama-se a estabilidade da natureza, porém esta é uma noção superada. Erich Kahler, em The meaning of the history, lembra que a natureza também se transforma; em certo sentido, a natureza também é histórica, embora suas transformações sejam muito mais lentas do que as da sociedade.
Fala-se de uniformidades estatísticas na ciência social. Entretanto, leis puramente estatísticas vigoram em muitas áreas da ciência natural.
Aponta-se- a imodificabilidade da lei natural. Mas na própria física, a observação de um fenômeno pode alterar o seu caráter. Basta mencionar o princípio da incerteza de Heisenberg: a mensuração de objetos atômicos, em consequência do intercâmbio de energia, conduz a um estado que é destruído pelo próprio processo de mensuração e, portanto, insuscetível de ser conhecido.
Diz-se que a ciência social dá respostas diferentes aos seus problemas. Todavia, divergências também surgem no campo da ciência natural. Não há ramo dos seus conhecimentos que seja um domínio pacífico no plano das hipóteses, das teorias e das interpretações.
Critica-se a ciência social pelo grande número de suas variáveis. Mas é inadmissível pretender que o cientista social abrace a doutrina da intimidade de todas as relações, segundo a qual não se pode saber nada, enquanto não se souber tudo.
Insiste-se em que o número de variáveis da ciência social torna inaplicável o método científico. Entretanto, é esse, precisamente, o caso da meteorologia.
Argumenta-se que na ciência social é inexequível a experimentação. Mas o mesmo não ocorre na astronomia e na geologia?
Afirma-se, que a ciência natural é neutra, enquanto a social é valorativa. Recentemente, vários estudiosos têm posto em dúvida que a ciência natural seja alheia a valor. Posso mencionar, entre outros, os trabalhos de Rudner, de Jeffrey, de lsaak Levi etc.
Alega-se que falta objetividade à ciência social porque ela é construída por uma seleção de fatos segundo o juízo de valor do observador. Pode-se replicar a isso com a invocação do princípio do contraste não-vazio. Para negar, com fundamento, que uma investigação seja objetiva, deve-se colocá-la em contraste com outra plena de objetividade. Ora, todas as investigações são seletivas, inclusive as da física. Não havendo, pois, nesse ponto, diferença fundamental entre os métodos das duas ciências, a crítica à ciência social recai sobre um contraste vazio.
Voltando à história (que não se limita ao estudo do individual e do particular): é claro que só existe conhecimento histórico em perspectiva. Mas, se todas as interpretações históricas estiverem erradas, teremos as seguintes opções: ou ainda não apareceu a interpretação certa (embora se admita que ela existe), ou se acredita que a história tem sentido, mas é incognoscível e caímos na metafísica de Kant (este sustentava que nós conhecemos o fenômeno, porém o nômeno, a coisa em si, era incognoscível), ou, então, a última opção: a história é caótica não tem sentido. A história caótica faz lembrar o indeterminismo, para o qual se procura arrimo na microfísica. Coerentemente, para os que acreditam na história caótica, nenhum plano, nenhuma previsão serão possíveis.
Que é desenvolvimento econômico, político, social, cultura? Como poderá ele ser planejado e implementado? Que é revolução social, como querem os marxistas? Puro voluntarismo, pura arte destituída de amparo científico?
A interpretação histórica é realmente de perspectiva, mas não é arbitrária, pois tem, necessariamente, de assentar no fato histórico.
É oportuno recordar o que asseverava o grande pensador Vico, na primeira metade do século XVIII: a história, por ser criação do homem, permite ao historiador, pela própria humanidade deste, um conhecimento mais completo e mais íntimo do que o permitido pela natureza aos seus cientistas.
Talvez o inevitável seja o apanágio de algumas ciências naturais, porém nem disso há certeza absoluta.
Portanto, a ciência social é um tipo especial de ciência. Ela estabelece generalizações, como proposições interligadas para mapear o problema, no dizer de Nagel. Popper propõe tendências em lugar de leis, na ciência social. Na dificuldade de apontar causas necessárias e suficientes, limitam-se os cientistas sociais a apresentar correlações funcionais, que valem como ligações causais, pelo alto grau de probabilidade.
O objeto da ciência social, embora não seja uma coisa, é uma realidade histórica, uma instituição.
O comportamento social tem sentido, que deve ser captado pela compreensão, como ensinavam Dilthey e Weber. Contudo, a pura compreensão não pode, sozinha, nos valer. O que é compreendido por mim de um modo, poderá ser diferentemente compreendido por outrem. É necessário lançar mão de um recurso de caráter objetivo: a observação do comportamento. Também esta, isolada, não basta. Ela não distingue entre movimento e ação, isto é, aquilo que tem e o que não tem sentido para o homem. Ora, a ciência social não cogita propriamente de acontecimentos e sim de ações. Não perceber isto foi o erro dos positivistas e dos behavioristas.
Além da observação (que é externa) e da compreensão (que é interna), a ciência social socorre-se do método comparativo, do método histórico, do levantamento por amostragem e da estatística. Esta, porém, como advertiu Runciman, deve ser o servo e não o senhor da investigação. Erraria completamente quem, baseado na estatística, incluísse na "patologia social" o homossexualismo na Grécia antiga, ou o suicídio entre os samurais do Japão feudal.
É importante ter-se em mira que ciência social é mais diagnóstico do que prognóstico.
Todavia é forçoso reconhecer que as ciências sociais são inevitavelmente ideológicas. Ideologia, eu a entendo como ensinou Mannheim: racionalização de interesses econômicos, políticos ou cuIturais dos grupos empenhados nas lutas sociais. Entretanto, isso mostra apenas que devemos defender nossos pontos de vista sem pretender a sua validade absoluta. O conhecimento parcial, como disse Villey, não deve ser repudiado, de vez que cada teoria pode ser uma parte da verdade. É correto que em ciência social não se pode separar fato de valor (Weber admitiu uma ciência social "livre de valores", mas não a praticou). No entanto, quantos dissídios de hoje não serão historicamente superáveis? Para Sorokin, a concepção materialista de Marx (desenvolvimento das forças produtivas) e a idealista de Weber (ética protestante), na explicação do moderno capitalismo, não são mais do que os dois lados de uma mesma moeda. O caráter ideológico da ciência social deve ser para nós uma lição de tolerância.
Hoje, as duas correntes mais totalizantes, mais abrangentes, da ciência social são o marxismo e o funcionalismo. O primeiro é bem conhecido nas suas principais premissas e conclusões. Segundo Kolakowsky, qualquer que seja o rumo da história, o conceito de marxismo em ciência social deverá desaparecer (sem negação da grandeza de Marx), assim como não há newtonismo na física ou lineuísmo na botânica (sem negação da grandeza de Newton ou de Lineu).
O funcionalismo, ao revés do marxismo, é claramente antievolucionista, antihistoricista, só concebe mudança em termos de influência externa e está interessado em apontar as funções das atividades repetidas ou das instituições de um sistema
social.
Para essa corrente, da qual Talcott Parsons é o mais notável representante, não se indaga a origem dos padrões de comportamento, e sim as funções que exercem para a manutenção do sistema social como um todo.
Para o funcionalismo, os sistemas sociais têm uma tendência intrínseca ao equilíbrio. Para o marxismo, eles tendem à mudança. O funcionalismo acentua os valores normativos da sociedade. O marxismo salienta os fatores de conflito. O funcionalismo encara o problema social, na sua essência, como acordo de harmonia, porque todos elementos da estrutura estão interligados e são interdependentes. O marxismo vê discórdia e contradição entre forças inevitavelmente antagônicas. Para o funcionalismo, o próprio conflito é benéfico, porque facilita melhor reajustamento social. Para o marxismo, a aparente identidade de interesses é uma mistificação produzida pela superestrutura ideológica.
Como já assinalaram vários cientistas sociais, tudo isso contém muito de indemonstrável e de irrefutável.
Mas é evidente que o funcionalismo confunde utilidade com origem, propósito com resultado. Ele é incapaz de explicar a transformação histórica. O vazio da causalidade não pode ser preenchido pelo finalismo.
Por outro lado, a tese marxista da dependência direta das superestruturas ideais à infra-estrutura material deve ser abandonada como imprestável ou insustentável. E o próprio Marx percebeu isso quando escreveu, na Critica da economia política, que era difícil explicar por que os produtos culturais de uma fase histórica continuavam a ser apreciados em outra. Por que homens da era capitalista continuam se deliciando com a tragédia ou a arte gregas (chegaram até a criar um estilo neoclássico), geradas por uma sociedade escravista, ou com a arte gótica, produto da sociedade feudal? Por que o direito romano continua tão influente no nosso moderno direito privado? Por que a Bíblia, obra da sociedade siríaca (segundo a classificação de Toynbee), continua, ainda hoje, importantíssima na ética de tanta gente? China e Rússia tinham análoga infra-estrutura no século XVII. Por que a imensa superioridade cultural da primeira?
Finalmente, terá havido progresso na ciência social? Atentando-se em que ela só existe, sistematicamente, há menos de 200 anos, o progresso é irrecusável. Disso dá prova a massa enorme "de dados e informações sobre os mais diversos temas e problemas. As coletas e as análises são cada vez mais precisas, podendo dizer-se que se aproximam os métodos de pesquisa da ciência natural e da ciência social. Quem negará a extraordinária importância da investigação de Durkheim sobre o suicídio, dos estudos de Weber sobre a burocracia, da contribuição de Marx para a sociologia do conhecimento, do refinam ento da teoria econômica? Se as ciências sociais fossem inúteis, de há muito teriam sido abandonadas ou relegadas à condição de alquimia ou da astrologia. A história das ciências naturais revela como estas se enriqueceram com a aquisição de matérias que antes pairavam no plano filosófico.
A Zenão de Eléia, que pretendia, com os seus famosos paradoxos, provar a impossibilidade do movimento, Diógenes deu uma resposta simples: andou. Àqueles que negam a ciência social, vamos responder pondo-a em prática.
Tolstoi disse, uma vez, que a ciência era incapaz de responder à única pergunta importante: "Que devemos fazer e como devemos viver?" Realmente, para isso não há resposta nem nas ciências sociais, nem nas ciências naturais e sim nas opções existenciais de valor ou de crença. O homem continua a ser o único animal insecurum dos velhos metafísicas.
Mas se inteligência é iluminação do mundo, a ciência social ajudará à compreensão do fenômeno humano. Cuidemos, pois, de prosseguir em nossos esforços pelo conhecimento do homem, como forma de conciliar a legítima ambição pessoal com o benefício público, servindo a nós próprios, ao nosso país, ao nosso mundo.

Ao falar para economistas sobre a "validade da ciência social", postulo a questão: a economia é uma ciência? Sim, responde Schumpeter, na sua monumental História da análise econômica, e nos dá a definição de ciência, que eu adoto: conhecimento dirigido, com utilização de técnicas que não são de uso do público, em geral.
Oue tipo de ciência é a economia? Natural ou social? No século passado, Dilthey estabeleceu essa distinção e acentuou que a ciência natural exigia a explicação causal e a ciência social, a compreensão do sentido, de vez que seu objeto era o comportamento humano. Numa aula inaugural, em Cambridge, em 1885, o grande economista neoclássico Alfred Marshall afirmou que, se de fato existisse uma ciência social geral - premissa de que ele duvidava - a economia fatalmente nela estaria incluída. Hoje, todos os mestres, Schumpeter entre eles, apesar das ambições da econometria, concordam em que a economia é uma ciência social. Não apenas pelo fato de ser o homem o seu agente, mas pela própria natureza de seus grandes problemas. Seus postulados se apóiam em proposições do gênero "permanecendo idênticos os demais fatores"... ou do "se, então" etc. O modo de distribuição de recursos escassos é uma opção política. O funcionamento do mercado se processa numa determinada organização social e pressupõe uma noção específica de comportamento humano. Como os institucionalistas salientaram, a lei da oferta e da procura não é sempre aplicável em todas as culturas. Por maior que seja o gado suíno, um muçulmano irá à inanição antes de consumi-lo, e por maior que seja o gado bovino, um hinduísta preferirá morrer de fome a comer carne de vaca.
Segundo Lowe, são tipicamente sociológicos os dois princípios que se apresentam como condições lógicas das leis clássicas do mercado: o homem econômico e a competição ou mobilidade dos fatores de produção. Não posso agora analisar o grandioso e inacabado trabalho de Max Weber, Economia e sociedade, nem as obras de Veblen. Basta lembrar que a nossa economia se baseia nos fenômenos histórico-sociais da propriedade privada, da divisão do trabalho e da organização industrial.
Na fase posterior a Keynes, a preocupação com o produto nacional bruto e a renda nacional despertou o interesse dos economistas para os fatos sociais que têm influência no desenvolvimento econômico. Desemprego, miséria, ciclo econômico, inflação exigem consideração e exame de fatos extra-econômicos.
Portanto, a economia é uma ciência social cujas grandes linhas só poderão ser apreendidas mediante sólidos conhecimentos da sociologia, da ciência política e da história.
Mas agora surge outra questão: ciência social é ciência? Adotando-se a definição schumpeteriana, a resposta só poderá ser afirmativa. Que é ciência social? Segundo Runciman, é o estudo sistemático do comportamento humano colativo. Contudo, há quem só reconheça estatuto científico à ciência natural. Que é ciência natural? É o conhecimento exprimível em leis gerais comprovadas pela observação empírica e pela verificação experimental. À luz dessa concepção, severas críticas foram dirigidas às ciências sociais. Sua principal vítima foi a história. Dizem os seus implacáveis críticos: a História trata do individual e do particular. Ela manifesta impossibilidade de experimentação e de quantificação e, mais ainda, novidade, complexidade, imprevisibilidade, inevitável seleção de fatos pelo juízo de valor do historiador, insuficiente explicação causal etc. Em contraste com isso: a estabilidade, a imutabilidade da natureza.
Prosseguem os ataques ao histericismo. Não há objetividade do conhecimento histórico. Todo fato histórico tem de ser interpretado por um juizo de valor. E as interpretações variam ou colidem, como provam as divergências entre os historiadores. Não há leis gerais na história. Nela só existe uma série de acontecimentos que têm caráter único, irrepetível, não suscetível de experimentação.
E essa mesma crítica se estendeu à ciência social como um todo. A ciência natural é neutra, a ciência social é carregada de valor. A ciência natural é una, a ciência social é plural. As verdades da ciência natural se impõem ao espírito de modo imperativo. "Não há liberdade de consciência em astronomia", disse Comte. Já as conclusões da ciência social são parcialmente livres, podem ser objeto de opções. O objeto da ciência natural é estável, o da social é cambiante. As generalizações das ciências sociais nada mais são do que uniformidades estatísticas. As supostas leis sociais podem ser modificadas pelo homem, que não tem tal poder sobre as leis naturais. O fato social é singular e tem sentido para o seu agente. Como captar esse sentido que é subjetivo? Se ele não for explicado, a generalização é inaceitável.
Essas as principais críticas. Passemos ao seu comentário.
No plano puramente teórico, a ciência natural é tão vulnerável quanto a social. Popper, por exemplo, nega a existência de leis naturais e só admite regularidades. Para ele, só é possível o progresso científico pela refutação empírica das hipóteses, isto é, pela eliminação das teorias falsas. A proposição “todos os cisnes são brancos" é incontestável até que se aponte um cisne negro. E, no plano filosófico, Hume lançou devastador ataque ao princípio da causalidade, que ainda não foi respondido com êxito, apesar do esforço de Kant nesse sentido. Teoricamente, a argumentação de Hume continua irrefutada.
Proclama-se a estabilidade da natureza, porém esta é uma noção superada. Erich Kahler, em The meaning of the history, lembra que a natureza também se transforma; em certo sentido, a natureza também é histórica, embora suas transformações sejam muito mais lentas do que as da sociedade.
Fala-se de uniformidades estatísticas na ciência social. Entretanto, leis puramente estatísticas vigoram em muitas áreas da ciência natural.
Aponta-se- a imodificabilidade da lei natural. Mas na própria física, a observação de um fenômeno pode alterar o seu caráter. Basta mencionar o princípio da incerteza de Heisenberg: a mensuração de objetos atômicos, em consequência do intercâmbio de energia, conduz a um estado que é destruído pelo próprio processo de mensuração e, portanto, insuscetível de ser conhecido.
Diz-se que a ciência social dá respostas diferentes aos seus problemas. Todavia, divergências também surgem no campo da ciência natural. Não há ramo dos seus conhecimentos que seja um domínio pacífico no plano das hipóteses, das teorias e das interpretações.
Critica-se a ciência social pelo grande número de suas variáveis. Mas é inadmissível pretender que o cientista social abrace a doutrina da intimidade de todas as relações, segundo a qual não se pode saber nada, enquanto não se souber tudo.
Insiste-se em que o número de variáveis da ciência social torna inaplicável o método científico. Entretanto, é esse, precisamente, o caso da meteorologia.
Argumenta-se que na ciência social é inexequível a experimentação. Mas o mesmo não ocorre na astronomia e na geologia?
Afirma-se, que a ciência natural é neutra, enquanto a social é valorativa. Recentemente, vários estudiosos têm posto em dúvida que a ciência natural seja alheia a valor. Posso mencionar, entre outros, os trabalhos de Rudner, de Jeffrey, de lsaak Levi etc.
Alega-se que falta objetividade à ciência social porque ela é construída por uma seleção de fatos segundo o juízo de valor do observador. Pode-se replicar a isso com a invocação do princípio do contraste não-vazio. Para negar, com fundamento, que uma investigação seja objetiva, deve-se colocá-la em contraste com outra plena de objetividade. Ora, todas as investigações são seletivas, inclusive as da física. Não havendo, pois, nesse ponto, diferença fundamental entre os métodos das duas ciências, a crítica à ciência social recai sobre um contraste vazio.
Voltando à história (que não se limita ao estudo do individual e do particular): é claro que só existe conhecimento histórico em perspectiva. Mas, se todas as interpretações históricas estiverem erradas, teremos as seguintes opções: ou ainda não apareceu a interpretação certa (embora se admita que ela existe), ou se acredita que a história tem sentido, mas é incognoscível e caímos na metafísica de Kant (este sustentava que nós conhecemos o fenômeno, porém o nômeno, a coisa em si, era incognoscível), ou, então, a última opção: a história é caótica não tem sentido. A história caótica faz lembrar o indeterminismo, para o qual se procura arrimo na microfísica. Coerentemente, para os que acreditam na história caótica, nenhum plano, nenhuma previsão serão possíveis.
Que é desenvolvimento econômico, político, social, cultura? Como poderá ele ser planejado e implementado? Que é revolução social, como querem os marxistas? Puro voluntarismo, pura arte destituída de amparo científico?
A interpretação histórica é realmente de perspectiva, mas não é arbitrária, pois tem, necessariamente, de assentar no fato histórico.
É oportuno recordar o que asseverava o grande pensador Vico, na primeira metade do século XVIII: a história, por ser criação do homem, permite ao historiador, pela própria humanidade deste, um conhecimento mais completo e mais íntimo do que o permitido pela natureza aos seus cientistas.
Talvez o inevitável seja o apanágio de algumas ciências naturais, porém nem disso há certeza absoluta.
Portanto, a ciência social é um tipo especial de ciência. Ela estabelece generalizações, como proposições interligadas para mapear o problema, no dizer de Nagel. Popper propõe tendências em lugar de leis, na ciência social. Na dificuldade de apontar causas necessárias e suficientes, limitam-se os cientistas sociais a apresentar correlações funcionais, que valem como ligações causais, pelo alto grau de probabilidade.
O objeto da ciência social, embora não seja uma coisa, é uma realidade histórica, uma instituição.
O comportamento social tem sentido, que deve ser captado pela compreensão, como ensinavam Dilthey e Weber. Contudo, a pura compreensão não pode, sozinha, nos valer. O que é compreendido por mim de um modo, poderá ser diferentemente compreendido por outrem. É necessário lançar mão de um recurso de caráter objetivo: a observação do comportamento. Também esta, isolada, não basta. Ela não distingue entre movimento e ação, isto é, aquilo que tem e o que não tem sentido para o homem. Ora, a ciência social não cogita propriamente de acontecimentos e sim de ações. Não perceber isto foi o erro dos positivistas e dos behavioristas.
Além da observação (que é externa) e da compreensão (que é interna), a ciência social socorre-se do método comparativo, do método histórico, do levantamento por amostragem e da estatística. Esta, porém, como advertiu Runciman, deve ser o servo e não o senhor da investigação. Erraria completamente quem, baseado na estatística, incluísse na "patologia social" o homossexualismo na Grécia antiga, ou o suicídio entre os samurais do Japão feudal.
É importante ter-se em mira que ciência social é mais diagnóstico do que prognóstico.
Todavia é forçoso reconhecer que as ciências sociais são inevitavelmente ideológicas. Ideologia, eu a entendo como ensinou Mannheim: racionalização de interesses econômicos, políticos ou cuIturais dos grupos empenhados nas lutas sociais. Entretanto, isso mostra apenas que devemos defender nossos pontos de vista sem pretender a sua validade absoluta. O conhecimento parcial, como disse Villey, não deve ser repudiado, de vez que cada teoria pode ser uma parte da verdade. É correto que em ciência social não se pode separar fato de valor (Weber admitiu uma ciência social "livre de valores", mas não a praticou). No entanto, quantos dissídios de hoje não serão historicamente superáveis? Para Sorokin, a concepção materialista de Marx (desenvolvimento das forças produtivas) e a idealista de Weber (ética protestante), na explicação do moderno capitalismo, não são mais do que os dois lados de uma mesma moeda. O caráter ideológico da ciência social deve ser para nós uma lição de tolerância.
Hoje, as duas correntes mais totalizantes, mais abrangentes, da ciência social são o marxismo e o funcionalismo. O primeiro é bem conhecido nas suas principais premissas e conclusões. Segundo Kolakowsky, qualquer que seja o rumo da história, o conceito de marxismo em ciência social deverá desaparecer (sem negação da grandeza de Marx), assim como não há newtonismo na física ou lineuísmo na botânica (sem negação da grandeza de Newton ou de Lineu).
O funcionalismo, ao revés do marxismo, é claramente antievolucionista, antihistoricista, só concebe mudança em termos de influência externa e está interessado em apontar as funções das atividades repetidas ou das instituições de um sistema
social.
Para essa corrente, da qual Talcott Parsons é o mais notável representante, não se indaga a origem dos padrões de comportamento, e sim as funções que exercem para a manutenção do sistema social como um todo.
Para o funcionalismo, os sistemas sociais têm uma tendência intrínseca ao equilíbrio. Para o marxismo, eles tendem à mudança. O funcionalismo acentua os valores normativos da sociedade. O marxismo salienta os fatores de conflito. O funcionalismo encara o problema social, na sua essência, como acordo de harmonia, porque todos elementos da estrutura estão interligados e são interdependentes. O marxismo vê discórdia e contradição entre forças inevitavelmente antagônicas. Para o funcionalismo, o próprio conflito é benéfico, porque facilita melhor reajustamento social. Para o marxismo, a aparente identidade de interesses é uma mistificação produzida pela superestrutura ideológica.
Como já assinalaram vários cientistas sociais, tudo isso contém muito de indemonstrável e de irrefutável.
Mas é evidente que o funcionalismo confunde utilidade com origem, propósito com resultado. Ele é incapaz de explicar a transformação histórica. O vazio da causalidade não pode ser preenchido pelo finalismo.
Por outro lado, a tese marxista da dependência direta das superestruturas ideais à infra-estrutura material deve ser abandonada como imprestável ou insustentável. E o próprio Marx percebeu isso quando escreveu, na Critica da economia política, que era difícil explicar por que os produtos culturais de uma fase histórica continuavam a ser apreciados em outra. Por que homens da era capitalista continuam se deliciando com a tragédia ou a arte gregas (chegaram até a criar um estilo neoclássico), geradas por uma sociedade escravista, ou com a arte gótica, produto da sociedade feudal? Por que o direito romano continua tão influente no nosso moderno direito privado? Por que a Bíblia, obra da sociedade siríaca (segundo a classificação de Toynbee), continua, ainda hoje, importantíssima na ética de tanta gente? China e Rússia tinham análoga infra-estrutura no século XVII. Por que a imensa superioridade cultural da primeira?
Finalmente, terá havido progresso na ciência social? Atentando-se em que ela só existe, sistematicamente, há menos de 200 anos, o progresso é irrecusável. Disso dá prova a massa enorme "de dados e informações sobre os mais diversos temas e problemas. As coletas e as análises são cada vez mais precisas, podendo dizer-se que se aproximam os métodos de pesquisa da ciência natural e da ciência social. Quem negará a extraordinária importância da investigação de Durkheim sobre o suicídio, dos estudos de Weber sobre a burocracia, da contribuição de Marx para a sociologia do conhecimento, do refinam ento da teoria econômica? Se as ciências sociais fossem inúteis, de há muito teriam sido abandonadas ou relegadas à condição de alquimia ou da astrologia. A história das ciências naturais revela como estas se enriqueceram com a aquisição de matérias que antes pairavam no plano filosófico.
A Zenão de Eléia, que pretendia, com os seus famosos paradoxos, provar a impossibilidade do movimento, Diógenes deu uma resposta simples: andou. Àqueles que negam a ciência social, vamos responder pondo-a em prática.
Tolstoi disse, uma vez, que a ciência era incapaz de responder à única pergunta importante: "Que devemos fazer e como devemos viver?" Realmente, para isso não há resposta nem nas ciências sociais, nem nas ciências naturais e sim nas opções existenciais de valor ou de crença. O homem continua a ser o único animal insecurum dos velhos metafísicas.
Mas se inteligência é iluminação do mundo, a ciência social ajudará à compreensão do fenômeno humano. Cuidemos, pois, de prosseguir em nossos esforços pelo conhecimento do homem, como forma de conciliar a legítima ambição pessoal com o benefício público, servindo a nós próprios, ao nosso país, ao nosso mundo.

Aula inaugural da Faculdade de Ciência Econômica da UERJ, 09/03/1981

 
artigos | discursos | sobre HB
Aposentadoria de um Guerreiro
1997

Agradecimento do Conselheiro Humberto Braga ao Presidente Conselheiro Sérgio Quintella, pelas palavras deste sobre seu aniversário.
10/10/1995

Realizações de Humberto Braga
01/01/1995

Discurso de posse na Academia Carioca de Letras
1993

HOMENAGEM PÓSTUMA AO POETA CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE
18/08/1987

Presença da Espanha
15/04/1985

Tancredo Neves, o Estadista
24/03/1985

Um homem público exemplar (Gustavo Capanema)
12/03/1985

HOMENAGEM PÓSTUMA A ALVARO AMERICANO
10/07/1984

Por Admiração e Respeito (Sobral Pinto)
08/11/1983

Alceu Amoroso Lima, homem símbolo
16/08/1983

Getúlio Vargas
28/04/1983

O sentido da história
13/01/1982

Francisco Negrão de Lima, o amigo maior
29/09/1981

Palavras de um Paraninfo
22/07/1981

A validade da ciência social
09/03/1981

Uma figura legendária (José Américo)
11/03/1980

Um jurista incomparável (Pontes de Miranda)
05/02/1980

Um Ente Amado (Gilson Amado)
29/11/1979

O Sergipano Gilberto Amado
28/08/1979

Juscelino Kubitschek
24/08/1976

Honra ao Mérito (João Lyra Filho)
01/04/1976

Um Discípulo de Augusto Comte (Ivan Lins)
17/06/1975

Um Espírito de Múltiplas Facetas (Aliomar Baleeiro)
08/05/1975

Pensamento econômico do século XIX - painel do século XIX
01/05/1972

O fulgurante Agripino
15/10/1968

Criação, na Guanabara, da Secretaria de Ciência e Tecnologia
1967

Lembrança de Raymundo Britto