A técnica: vitorias e perigos
Humberto Braga

Em 1970, neste Boletim, escrevemos um artigo sôbre o "destino da livre emprêsa", assunto que interessa de perto ao cientista social.
Escritos posteriores abonam a nossa tese de que tanto a sociedade da livre iniciativa como a "ditadura do proletáriado" cedem lugar, numa aceleração progressiva, à sociedade tecnoburocrática. O livro de Marc Paillet, “Marx contre Marx'', publicado em 1971, sustenta esse entendimento com esmagador acervo de dados e argumentos. Assim como o conflito social da ldade Média entre barões feudais e camponeses servis não conduziu à vitória dos últimos, tampouco a contradição do século XIX – Burguesia x Proletariado - levou a classe trabalhadora ao poder.
O técnico surgiu insidiosamente no cenário hodierno, tal como o fizera outrora o artesão.
O "homo economicus" concebido pelos clássicos economistas dos anos oitocentos é substituído pelo "homo technicus" do nosso tempo. No próprio pensamento econômico a doutrina não encontra mais guarida; só a análise possuindo foros de respeitabilidade "científica".
É verdade que a técnica erigida como valor supremo está a braços com múltiplos contestadores e contraditares. Uns a repudiam por considerá-la ameaça ao espírito humano, outros à própria sobrevivência da espécie. Aqueles denunciam o homem-máquina; estes o homem doente ou quase aniquilado num mundo poluído e esgotado.
Nossa concepção da natureza humana é a de que esta não guarda uma essência intemporal e imutável. À pergunta sobre qual seria a verdadeira característica do homem, respondemos que é a de um ser ativo e criador, capaz de transcender e superar os seus condicionamentos históricos. Assim, o "homem-máquina", o homem escravo e não senhor da técnica, não será o homem tal como o entendemos, e sim outro ser: o cibernântropo.
A resposta a esses desafios não será a regressão a estádios já ultrapassados do desenvolvimento, mas a de um maior avanço técnico e social, inspirado em um novo humanismo. Só a técnica poderá abolir os males e desfazer os perigos por ela própria gerados. Neste mundo onde desaparecem as fronteiras ideológicas e se amortecem os preconceitos tradicionais, poderemos pela ação criadora e racional conceber um bem sucedido esforço para torná-lo a morada adequada e agradável da humanidade.

Boletim da UERJ, 01/01/1972

 
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