Erros de visão em história e sociologia
Humberto Braga

1) Sociedade e indivíduo se contrapõem. Há entre ambos uma relação de exterioridade. Eis um disparate insigne. O indivíduo é componente da sociedade. E, como não é puro reflexo do seu meio social, contribui para suas transformações. Não fosse assim a sociedade seria imutável. Mas nunca houve indivíduo extrasocial, suprahistórico.

Todavia houve sociedades que eram imutáveis (antes do contato com as mutáveis) na estrutura econômica social e no seu mundo cultural: valores, crenças, costumes. Não é preciso conhecer antropologia e etnologia para saber que esse foi o caso de inúmeras sociedades dantes chamadas de "primitivas". Só mudaram no contato com os "civilizados". Algumas resistiram longo tempo à aculturação, como os hotentotes e os pigmeus da África, os aborígines da Austrália, os papuas da Nova Guiné, etc. Sucediam-se os líderes tribais, com diferentes atributos, mas a estrutura material e cultural não mudava.

2) A prevalência do grande fato social (econômico, jurídico, político, ético, religioso, linguístico) sobre a ação de qualquer indivíduo – por maior que seja – é concepção marxista... A Sociologia foi uma invenção do subversivo Marx e não construção intelectual de homens que vieram antes dele, como Montesquieu e Comte e que teve como expoentes vultos totalmente apartados do marxismo: Tocqueville, Durkheim, Weber, Pareto, Talcott Parsons, Sorokin, etc. Na verdade, todos os indivíduos são mais ou menos socializados. Até os loucos, no conteúdo de suas ideias delirantes, revelam os condicionamentos sociais. Muito poucos conhecem os ensinamentos da Psico-sociologia. Atente-se no trecho seguinte: "ao nível da própria percepção, os psico-sociólogos demonstraram o poder da opinião de um grupo coerente sobre seus membros, efeito Sherif: o que meus olhos veem é em parte social; efeito Asch: a sociedade pode impedir-me de crer em meus olhos". ( Paul Veyne, História Conceitual, p.78)

3) Os grandes fatos da História resultaram da ação de alguns grandes indivíduos. Portanto, a agricultura, o comércio, a indústria, a escravidão, o feudalismo, o capitalismo, o Estado, o Direito, a guerra, as linguagens, a civilização material (objetos de uso doméstico), as ciências e as técnicas foram criadas por alguns grandes indivíduos... Quais foram eles? A maioria das pessoas desconhece a história desses fatos porque só tem notícia de acontecimentos da História política. Esta é autônoma, não é um subproduto da Economia, mas também não é soberana como muitos ingenuamente pensam. Atente-se no seguinte trecho: "A história política é psicológica e ignora os condicionamentos; é elitista, talvez biográfica, e ignora as séries; o seu objetivo é o particular e, portanto, ignora a comparação; é narrativa, e ignora a análise; é idealista e ignora o material; é ideológica e não tem consciência de sê-lo; é parcial e não o sabe; prende-se ao consciente e ignora o inconsciente; visa os pontos precisos, e ignora o longo prazo... confunde-se com a visão ingênua das coisas... uma tal concepção, como é evidente, é precrítica... não merece o nome de ciência social" (Jacques Julliard. A Política. p. 180-181).


Mais importante do que o rol dos acontecimentos políticos é a História das Mentalidades, que só recentemente atraiu a atenção dos estudiosos. Por que os doentes mentais e os mendigos, tolerados na sociedade medieval, foram confinados ou estigmatizados no advento dos Tempos Modernos? Por que a terrível intolerância, que levou às Guerras de Religião nos séculos XVI, XVII, se abrandou a partir do século XVIII? Por que a caça às bruxas, que causou a morte de cerca de cem mil mulheres, no século XVI (era pós-medieval, do Renascimento, do Humanismo, da Revolução Comercial) cessou em toda a Europa Ocidental em meados do século XVII? Por que uma monstruosa legislação penal, que visava infligir atrozes padecimentos físicos aos condenados, só foi abandonada em princípios do século XIX? Leiam-se a História da Loucura e Vigiar e Punir, de Michel Foucault.

4) As artes e as letras foram criações de alguns grandes indivíduos. Aqui o disparate toma proporções ciclópicas. Assim como um general de gênio não inventou a guerra, nenhum gênio inventou a arte, as letras, as lendas, os mitos, o folclore. E toda obra artística ou literária nasce no embasamento de uma determinada cultura. Por aquela extravagante concepção, um indivíduo inventou o templo gótico e, graças a esse ignoto artista, essa forma arquitetônica logo se difundiu na Europa medieval. As catedrais cujas construções foram obra de várias gerações, não teriam existido sem aquele indivíduo... Se ele tivesse nascido em Bagdad, teria feito lá catedrais góticas em vez de mesquitas... Quem inventou o românico, o classicismo, o barroco, o romantismo, etc? O escafandrismo psicologístico de muitos romancistas modernos não poderia existir na Idade Média, na Antiguidade ou nas Civilizações Orientais. Se Stendhal, Balzac, Proust, Tolstoi, vivessem naquelas épocas poderiam escrever obras notáveis, mas muito diferentes das que fizeram. De um tempo para cá a ficção está mudando. Como se pode observar, a partir de Hemingway e outros, foram abandonadas as análises introspectivas na caracterização dos personagens. As ações e os diálogos curtos são autoexplicativos.

Enfim, por que a psicanálise só surgiu no Ocidente, no fim do século XIX? Um freudista poderia responder que os indivíduos do passado distante não eram inteligentes...

2009

 
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