Diagnóstico da Direita I
Humberto Braga

Muito se tem escrito sobre a obsolescência do antagonismo Direita x Esquerda. Em nossa época, em que tanto se fala do "fim da ideologia" (DanielBell e outros), a insistência na, distinção entre direitismo e esquerdismo soa, para alguns, como flagrante anacronismo.

Todavia, o dissídio se apresenta menos como ideologia definida do que como visão política do mundo ou, para usar o jargão existencialista, modo político de estar no mundo.

O Ente de Razão ou movimento político-ideológico designado por Esquerda tem sido abundantemente analisado, discutido ou denunciado em nosso país. O mesmo já não ocorre com a Direita, sobretudo após a Segunda Guerra Mundial,
quando aquele vocábulo adquiriu significado pejorativo e quase infamante. Ninguém mais admitiu ser direitista.

Para a caracterização da Direita (ou da Esquerda), paradoxalmente, impõe-se o abandono de critérios estritamente sócio-econômicos, de vez que eles são variáveis no tempo e no espaço. De fato, Direita e Esquerda são categorias de cunho político-ideológico, cujo conteúdo se modificou no curso da História. Mas se o conteúdo é variável, há um marco referencial permanente.

A Esquerda não é apenas um movimento e sim um movimento tendente a maior igualdade social. Esse ideal serve de parâmetro para distingui-la da Direita. Entre dois movimentos políticos ou ideológicas protagonistas de um conflito histórico fácil será apontar qual encarnou uma ou outra, se for ideal de maior igualdade social.

Numa visão global da história do Ocidente (em suas matrizes), podemos concluir que ela, da Antigüidade clássica aos nossos dias, se caracterizou por uma progressiva redução da desigualdade social. A despeito do verdadeiro colapso de civilização, que foi o fim do Império Romano, cumpre reconhecer que há menor desigualdade social entre patrões e operários, nos nossos dias, do que havia entre servos e senhores na Idade Média e estes, por sua vez, estavam em menor relação de desigualdade do que a existente entre patrícios e escravos, na Antigüidade.

Meu propósito, agora, é o de apontar os traços essenciais da Direitatradicional, tal como se revelou no Ocidente a partir da Revolução Francesa. Se recuarmos a investigação histórica até aos dias em que surgiram aqueles que Napoleão chamava "les idéologues", será interessante indagar qual o traço comum entre um Burke, um de Maistre ou um de Bonald e os nossos modernos direitistas.

Estes, obviamente, não mais preconizam, como o legitimista Metternich, a santa aliança entre o trono e o altar contra a subversão de liberais, jacobinos e carbonários. Assim, todo o esforço tem que ser dirigido à busca dos sinais distintivos ou características fundamentais da tradicional mentalidade política direitista que subsistiram no nosso século.

Oportuna é a enumeração de algumas daquelas características: 1º) Interpretação idealista da História: ela seria feita pela forças espirituais (subjetivas) e não pelas materiais (objetivas). 2º) O devenir histórico é almejado mais como continuidade, crescimento ou regeneração do que como inovação ou criação. 3º) Confiança maior no passado (tradição) do que no futuro (transformação). 4º) Mais apreço à estabilidade do que à mudança. 5º) Elitismo declarado ou confessado. Repulsa à promessa de igualdade social. A desigualdade seria o resultado da seleção social dos mais capazes. 6º) Às classes sociais, sobretudo às inferiores, são incumbidos mais deveres do que reconhecidos direitos. 7º) Pessimismo sobre o discernimento ou o civismo das massas, isto é, do homem comum. 8º) Culto dos grandes homens (os heróis). 9º) Fé numa determinada hierarquia de valores: a ordem está acima da justiça. 10º) Preza-se mais a autoridade do que a liberdade. 11º) O sentimento, o instinto, a fé, o senso comum ou a experiência pessoal se sobrepõem à crítica racional da sociedade. 12º) Culto da nação e conseqüente repulsa ao internacionalismo. 13º) Tendência a adotar preconceitos de raça, cor ou religião. 14º) Pregação do puritanismo na vida sexual, com a explícita ou implícita suposição da superioridade da liderança masculina. 15º) Exaltação da família e da religião como bandeiras de ação política.

O rol agora apresentado é uma generalização e, portanto, está longe de dar um retrato completo da ostensiva postura direitista. Tampouco é necessário que todos os seus traços estejam presentes para a formulação do diagnóstico da Direita. Alguns nem são exclusividade dela.

Na União Soviética, o culto ao herói (Lênin) é mais intenso do que em qualquer outra parte do mundo e na China impera o mais severo puritanismo sexual, sob a égide e a vigilância do Estado. Também a religião não mais aparece em todos os países como força conservadora, depois que alguns teólogos concluíram que "Deus não está na Direita".

Mas o realmente importante, a meu ver, será apurar quais os pensadores ou líderes políticos modernos que advogam explicitamente as teses mencionadas, para que se possa aquilatar o vigor, hoje, da mensagem da Direita tradicional.


Jornal do Brasil, 22/09/1982

 
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