Diagnóstico da Direita VI
Humberto Braga

Devido a circunstâncias de espaço e de tempo, concluo agora as considerações que fiz na carta publicada pelo JB de 27.11.82.

Platão não é a única fonte de conhecimento de Sócrates. Existe outra, ainda que menos fulgurante: Xenofonte. Nas suas obras, Memorabilia e Symposium (Banquete), Sócrates figura como o principal interlocutor dos diálogos. Também em fragmentos, descobertos neste século, do Alcibíades, de Esquines de Esfetos, outro discípulo de Sócrates, encontra-se a evocação do Mestre. Embora o Sócrates que ficou na memória dos pósteros tenha sido o retratado por Platão, Popper e outros autores assinalam a nítida diferença entre o filósofo dos primeiros Diálogos e o das obras subseqüentes. Diógenes Laércio refere-se ao episódio em que Sócrates, após ouvir a leitura do Lysis de Platão, exclamou: "Ó Heracles! Quanta mentira contou o rapaz a meu respeito!"

Sobre Platão, assim se manifestou Eric Roll: "Platão fez uso essencialmente reacionário da sua teoria da divisão do trabalho, que veio a ser, em suas mãos, a idealização de um sistema de castas e um sustentáculo da tradição aristocrática, que então se achava na defensiva", História das Doutrinas Econômicas, pag, 26, Cia. Editora Nacional.

Pieter Frantzen ainda é mais sumário: "On pourrait conclure que Platon était moins un 'socialiste' qu 'un 'fasciste"; Histoire de la Pensée Économique, pag. 34, Éditions de l'Université de Bruxelles. Roll e Frantzen são marxistas que juntam suas vozes às de Schumpeter, Popper e Russell na denúncia do pensamento político de Platão.

Apontar Burke como conservador é revelar algo tão evidente que chega a ser um truísmo. Esse traço ficou manifesto nas obras publicadas após 1790. "Two months after this historic blast Burke published a Letter to a Member of the National Assembly of France. ln this - and more fully in a Letter to a Noble Lord (1796) - he offered a philosophieal basis , for conservatism" (o grifo é meu), The Age of Napoleon, Will and Ariel Durant, pag. 514.

Na página seguinte, lê-se que "Burke's dirge, for a dying world was greeted with gratitude and delight by the conservative leaders of Britain" (os grifos são meus). E à pág. 333, da mesma obra, ao tratar de Maistre, os autores confluem: "Only Edmund Burke, in that age, surpassed him in expounding the conservative view of life" (os grifos são meus).

A imagem conservadora do grande escritor e parlamentar irlandês não resulta do julgamento de um só historiador, mas de um verdadeiro consenso crítico. Foram conflitos de Estados e não divergências ideológicas que levaram à coligação anti-napoleônica. Um episódio ilustra a tese. A Princesa de Lieven, Embaixatriz da Rússia, em Londres, era amante do Príncipe de Metternich, Chanceler da Áustria e campeão da Santa Aliança. Mantinha com ele uma correspondência regular.

No ano de 1820, quando explodiram as revoluções liberais da Espanha e de Nápoles, eis o que ouviu a Princesa, do Duque de Wellington: "We have made a tremendous mistake in getting rid of Bonaparte. He is the man we ought to have had. We should not be so badly off with him, as we are without him”, The Private Letters of Prineess Lieven to Prince Metternich -1820-1826, pag. 80, John Murray. Veja-se bem. O vencedor de Waterloo, cinco anos depois da batalha, lamenta a falta do Corso, pois esse era o homem adequado para reprimir a canalha liberal e fazer reinar a ordem no Continente..,

Finalmente, cumpre lembrar que o mais notável crítico do marxismo-leninismo, no nosso tempo, Raymond Aron, continua utilizando as expressões Direita e Esquerda, sem o emprego de aspas. É o que se pode exemplificar com o seguinte trecho: "Vocês não conheceram a direita do pré-guerra. Não seria concebível, para um homem como eu, estar ao lado dela"... "A direita do pré-guerra era ao mesmo tempo desinformada da realidade econômica e feroz na defesa de seus privilégios e de seu poder"... "Era, portanto, ao que me parece, essencialmente diferente da direita de hoje". O Espectador Engajado, entrevistas com Raymond Aron, pag. 82, Nova Fronteira.

Esta carta, como a anterior, contém muitas citações. Alguns costumam criticar quem delas abusa. Realmente, quando se tem o gênio necessário para só enunciar pensamentos próprios e idéias novas, as citações são dispensáveis e até inúteis. Como não é esse o meu caso, não vacilo em socorrer-me da autoridade daqueles que, a meu juízo, sabem mais do que eu.



Jornal do Brasil, 01/12/1982

 
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