Diagnóstico da Direita V
Humberto Braga

A propósito da carta do Embaixador J. O. de Meira Penna, publicada no JB de 26-11-82, gostaria de fazer os seguintes comentários:

1) O Esquerdismo denunciado por Lênin foi uma crítica aos radicais ansiosos por ultrapassar o Partido Bolchevique. Algo semelhante ao Hebertismo para Robespierre ou aos Niveladores em face de Cromwell. Não se deve confundi-lo com a Esquerda. Um é a espécie, outra é o gênero.

2) Nada tenho que objetar à sua conclusão, que me parece válida, quanto ao PCB.

3) Nunca neguei que Napoleão fosse o Filho da Revolução. O regime napoleônico é exemplo marcante do processo de transformação da Esquerda em Direita, que ocorre após a conquista do poder pela primeira. Poderei, se solicitado, apontar muitos fatos que evidenciam a mentalidade direitista do Imperador, fanático da ordem e da autoridade, para quem a massa era "la canaille''. A mentalidade política direitista, em contraste com a dos liberais e jacobinos, não impediu que o Corso exercesse ação social objetivamente revolucionária ao favorecer a ascensão da burguesia na Europa Ocidental.

As potências que derrubaram Napoleão não o fizeram por divergência ideológica, mas sim como reação ao seu império expansionista e conquistador. É preciso, aliás, não esquecer que existem contradições no seio da Direita e da Esquerda. Por isso, nada há de extraordinário que, na Alemanha, a Direita tradicional conspirasse contra a Direita extremada e atípica do
nazismo, que levava o país à catástrofe.

4) Popper não incorreria na ingenuidade de supor que apenas os extremistas da Direita (Platão) fossem os inimigos da sociedade aberta. Neles também estão os extremistas da Esquerda (Marx). Perdoe-me o ilustre Embaixador por preferir
a opinião de Popper à dele.

Mas, ainda sobre Platão, lembro o que sobre ele escreveu Bertrand Russell: "Platão possuía a arte de disfarçar de tal modo as sugestões antiliberais, que enganou as épocas futuras, as quais admiraram a República sem jamais perceber o que continham as suas propostas"... "Desejo compreendê-lo, mas tratá-lo de maneira tão pouco reverente como se ele fosse um inglês ou americano contemporâneo, partidário do totalitarismo", História da Filosofia Ocidental, vol. 1, pág. 123, Cia. Editora Nacional.

Na impossibilidade de transcrever toda uma página, limitar-me-ei ao seguinte trecho da hoje clássica História da Filosofia de Émile Bréhier: "... on ne voit, chez Platon, l'ídée
d'une réforme positive, d'une veritable invention sociale; iIs'agit toujours chez lui de maintenir et de conserver ou bien d'éla guer et de supprimer", Histoire de la Philosophie, Tome Premier, pag. 147, Presses Universitaires de France.

5) Quem relacionou Bacon com a,"Nova Esquerda"? Eu não fui. Falei da influência revolucionária do seu pensamento. E isso explica os seguintes fatos: a) os subversivos filósofos iluministas, que tanto contribuíram para solapar os fundamentos espirituais do Antigo Regime, ao compilarem sua Enciclopédia, em 1751, dedicaram-na a Bacon; b) a mais famosa assembléia revolucionária da História, a Convenção de Robespierre, Danton e Marat, que condenou à morte o rei Luis XVI,mandou publicar as obras do filósofo inglês às expensas do Estado. Ao considerar extravagante a conclusão de que Bacon foi um filósofo de Esquerda, para a sua época ("Velha Esquerda”), o ilustre Embaixador confundiu o estadista com o pensador.

6) Folgo em saber que o senhor Meira Penna não mais contesta que Rousseau teve influência revolucionária sobre "esquerdistas” como Robespierre e Saint-Just. Como o veriam os "direitistas” do tempo? Recorde-se também que Nietzsche denunciou a doutrina da igualdade de Rousseau como o mais venenoso de todos os venenos.

7) O Burke, a que me referi, não foi o whig, adversário das tentativas de absolutismo de Jorge III e favorável à independência americana. Foi o conservador que, depois, rompeu com Fox, líder dos whigs, e escreveu Reflections on the Revolution in France. Esse candente libelo contra as idéias liberais dos revolucionários franceses (foi escrito em 1790, antes da queda da monarquia e, portanto, antes do Terror) provocou a réplica de Thomas Paine, com Rights of Man. Não é possível considerar a Direita e a Esquerda como se elas fossem monolíticas.

8) Observo que o meu crítico não insistiu em atribuir a Gramsci uma interpretação idealista da História. Bobbio, um dos mais notáveis cientistas políticos da atualidade e o mais lúcido analista do comunista italiano, assim se manifesta: “Confesso que nem de longe me passou pela cabeça a idéia de defender a tese segundo a qual Gramsi não era marxista, e, mais do que isso, que era idealista"... "recuso a acusação de ter tentado introduzir com minha exposição uma enésima interpretação idealista de Gramsci” (os grifos são nossos), O Conceito de Sociedade Civil, Norberto Bobbio, pags, 9 e 59, Graal.

9) Equivocou-se o Embaixador ao inferir que considero superada a dicotomia Direita x Esquerda. Bem ao contrário, sustentei que ela sempre existiu e sempre existirá, com diversos conteúdos econômicos, sociais e culturais. Isso não quer dizer que não haja ambigüidades e contradições. Em O Espectador Engajado, entrevistas com Raymond Aron, recente lançamento da Nova Fronteira, lê-se à pág. 356, a seguinte declaração do pensador francês: "De minha parte, eu diria que cheguei, em certos períodos, a assumir posições mais próximas da esquerda que da direita". E essas expressões se encontram incontáveis vezes no curso das entrevistas. É óbvio que Aron se refere ao seu país e ao seu tempo.

O ilustre crítico evidenciou, no seu artigo, que não me leu, e, na sua carta, que não me entendeu. Mas se eu tivesse podido adivinhar o pensamento dele, teria dado aos meus artigos o título de Diagnostico da “Direita”.



Jornal do Brasil, 27/11/1982

 
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