Diagnóstico da Direita III
Humberto Braga

Com o título acima concluí o segundo artigo, publicado no JB, valendo-me da afirmação de que Direita e Esquerda são complementares e permanentes. Luiz Alberto Bahia sugeriu que, em um terceiro artigo, eu conciliasse isso com a minha observação de que o anseio de mudança social e o conceito de evolução (vale dizer, a Esquerda) são idéias modernas, que tiveram sua matriz e encontraram seu locus na chamada Civilização Ocidental.

Vale a pena a explicação. Celso Lafer iniciou seu livro Paradoxos e Possibilidades, recentemente lançado, com uma citação de Antônio Cândido. Este distingue, em toda estrutura social, os fatores de persistência e os de alteração. Pelo meu último artigo, será fácil concluir que, em certas civilizações (egípcia, mesopotâmica, persa, indiana, maia, incaica, islâmica, etc.), os fatores de alteração (contradições internas) eram muito frágeis e não lograram operar a mudança social.

Havia rebeliões ou golpes palacianos que destronavam monarcas, substituíam dinastias ou destruíam grupos dirigentes, mas que não modificavam a estrutura da sociedade. Na China, houve algumas tentativas de reformas, visando a fortalecer o poder central, que malograram, assim consolidando-se a burocracia dos letrados (mandarins).

Em todas essas civilizações - que só foram destruídas ou transformadas por contradições externas -, predominou amplamente a mentalidade, isto é, a visão do mundo de Direita, com o apoio na tradição e no argumento de autoridade.

Na Civilização Ocidental, todavia, com o declínio do feudalismo, ocorreu uma formidável transformação, a meu ver, a mais importante da História. Surgiu a sociedade centrada no mercado, que se constituiu em duas fases bem conhecídas como Revolução Comercial e Revolução Industrial. Essa civilização revolucionária expandiu-se e, graças à superioridade de sua técnica, ocidentalizou o mundo.

A partir daí, pelo desenvolvimento do espírito crítico e da investigação racionalista, os fatores de alteração passaram a prevalecer sobre os de persistência. Se o Código de Hamurabi, na Babilônia, e o de Manu, na Índia, vigoraram durante séculos, o moderno direito positivo está em constante renovação, de vez que suas normas têm que ajustar-se à cambiante realidade social.

Mas, se é assim, por que, então será permanente a Direita? A resposta é muito simples. A Esquerda é um movimento. A Direita é uma situação. Sempre que a primeira alcança o poder, e nele se consolida, tende, inevitavelmente, a converter-se na segunda.

Os fatotes de persistência voltam a preponderar, no seu seio, sobre os de alteração. Foi o que Anatole France representou alegoricamente no seu romance A Revolta dos Anjos. Lúcifer, todo-poderoso, comporta-se como Deus. Josué Montello exprimiu isso, com muito espírito, num poema inédito, dedicado a mim (Espero que ele o publique agora).

Valho-me de um exemplo histórico. A ascensão da burguesia, que se operou com a grande convulsão libertária da Revolução Francesa, firmou-se, em grande parte da Europa Ocidental e Central, sob a ditadura de um extraordinário homem de mentalidade direitista: Napoleão.

É certo que numa época de transformação social - muitos a chamam de impermanência -, a Direita coloca-se, cada vez mais, na defensiva. Quase ninguém se proclama direitista. Mas é lícito conceber que, paradoxalmente, aqueles países, onde a Esquerda revolucionária alcançou o mais retumbante sucesso, sejam, talvez, os mais refratários às mudanças sociais.


vez mais, na defensiva. Quase ninguém se proclama direitista. Mas élícito conceber que, paradoxalmente, aqueles países, onde a Esquerda revolucionária alcançou o mais retumbante suces¬so, sejam, talvez, os mais refratários às mudanças sociais.

Na URSS, sob a chefia genial de Lênin, um tremendo movimento de Esquerda triunfou na Revolução de Outubro de 1917 e na guerra civil que lhe sucedeu. Todavia, durante o stalinismo, a necessidade do planejamento central, para levar a cabo a industrialização intensiva, forçou a criação de uma imensa tecnoburocracia, que hoje detém incontrastável poder político, econômico, social e cultural.

Ela é a nova classe dominante da União Soviética. Que a sua dominação não é absoluta, prova-o a existência de dissidentes como Sakharov e Soljenitsin. Os textos de Lênin substituíram os Evangelhos (argumento de autoridade) e a sua personalidade é objeto de adoração bizantina, mas, apesar disso, estão vivas as contradições da sociedade soviética.

Também na Polônia, é manifesta a amarga luta de classes que opõe operários a burocratas. Na China, a Revolução cultural tentou conter e limitar o poder da burocracia. Hoje, a ordem reina em Pequim.

Não é impossível, pois, que os estamentos burocráticos dominantes nos modernos Estados totalitários venham a ser quase tão adversos ao alargamento da base social e à circulação das elites quanto o foram as burocracias pré-industriais daqueles impérios regidos pelo chamado ''modo de produção asiático'', Wittfogel, no seu famoso livro O Despotismo Oriental, sustentou essa tese com erudição e tendenciosidade. Apesar de tudo, a Esquerda não desapareceu nos países comunistas...*

Enfim, é provável que as sociedades abertas do Ocidente sejam as mais propícias à mudança. E toda a esperança e todo o otimismo dos contemporâneos devem convergir para a perspectiva de que a abertura perdure, a fim de que as transformações sociais se orientem no sentido de, cada vez mais, liberdade, justiça e bem-estar para a Humanidade.

* o texto foi publicado antes da "abertura" soviética.


Jornal do Brasil, 15/10/1982

 
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