Esperando os Bárbaros
Humberto Braga

Este é o título do mais famoso poema de Kaváfis, o bardo grego. Para a sua celebridade concorreram Marguerite Yourcenar, ao traduzir-lhe parte da obra, e Lawrence Durrel, ao mencionar repetidamente "o velho poeta da cidade", em O Quarteto de Alexandria. A nova fronteira publicou, no ano passado, uma tradução em português dos seus poemas.

Em belos versos enigmáticos, Kaváfis reconstrói um cenário de crepúsculo de civilização e resignada derrota. O imperador e os senadores reunem-se na Ágora, para saudar os bárbaros vitoriosos e entregar-lhes o bastão de comando.

Pesará sobre nós semelhante ameaça? Quem serão os bárbaros de nosso tempo? Muitos os reconhecem nos arautos e adeptos de ideologias ou credos leigos que, no nosso século, tão duros golpes desferiram na Razão e na Liberdade. O certo é que não faltam pessimistas a prenunciar o inexorável fim da Civilização Ocidental, tal como se constituiu, a partir do Renascimento.

O colapso dos Impérios Centrais, na Primeira Guerra Mundial, despertou a visão de Spengler para a decadência do Ocidente e a Revolução de 1917 inspirou a Berdiaeff a profecia de uma nova Idade Média. Outro notável russo anti-bolchevique, Sorokin, defensor da teoria cíclica da História, vaticinou que, após a era de cepticismo, materialismo, pragmatismo e hedonismo de hoje, sobrevirá outra com o retorno ao sagrado e aos tempos heróicos.

Aliás, é interessante assinalar que o próprio Popper, infatigável batalhador da Razão, admite a hipótese de declínio do racionalismo e estagnação do desenvolvimento científico e tecnológico, provocados por uma eventual crise de misticismo generalizado.
Para mim, os bárbaros são outros, mais próximos de nós e não menos perigosos do que os esperados pelos decaídos patrícios de Kaváfis. A lúcida visão de Ortega y Gasset os identificou ao denunciar a irrupção daqueles que "sabem cada vez mais de cada vez menos".

Os inconvenientes da superespecialização têm sido larga e exaustivamente debatidos. É ocioso alguém alongar-se sobre o óbvio estorvo que representa para a ampliação do saber a proliferação de estudiosos que não conseguem discenir os limites e as relações de seus próprios campos de estudo. A ultra-especialização se tornou inevitável pela desmesurada extensão da ciência moderna, que exige o esforço e o tempo de uma vida inteira de quem se propõe razoável domínio de qualquer ramo do conhecimento.

O problema demora, pois, inquietamente e aparentemente irresolúvel. Muito se tem falado na formação de generalistas e sempre os haverá, mas isso não evitará o seu insulamento no oceano da nova barbárie. Entre nós, a questão se reveste de alarmante gravidade.

Qualquer professor universitário poderá fornecer impressionantes exemplos do problema que escandaliza uns e assusta outros. Um mestre da Faculdade de Ciências Econômicas da UERJ, que dá aulas a estudantes do último período, interrogado por eles às vésperas da formatura, sobre recente viagem que fizera ao exterior, constatou com espanto que muitos não sabiam exatamente em que região do mundo está situada a Tunísia e outros nunca tinham ouvido falar em Cartago. A figura legendária de Aníbal, familiar a tantos estudantes das escolas primárias de outrora, nada significava para alguns dos quase economistas.

Pior ainda, para estupefação do professor, foi verificar o desconhecimento, por parte dos jovens, da história recente do Brasil. Vários deles nunca tinham ouvido referência à revolução paulista de 32 e outros nada sabiam sobre os acontecimentos que provocaram o Ato Institucional nº 5. E é no seio de tão caliginosa ignorância que irão recrutar-se os futuros cientistas sociais do país.

Impõe-se a conclusão de que os universitários de hoje são vítimas de um desastroso sistema pedagógico. Não pretendo fazer uma análise dos problemas e vicissitudes da educação moderna no Brasil ou no mundo. Atenho-me a um ponto específico: o universitário semi-analfabeto.

Muitos censuram o abandono da rigorosa seleção dos méritos pelo critério da quantidade e preconizam o retorno ao ensino superior elitista. Para mim, esta solução tanto tem de equivocada quanto de impraticável.

Estou convencido de que, no Brasil, a questão poderia ser parcialmente resolvida, ou atenuada nas suas manifestações mais graves, com uma reforma do ensino secundário, cujo nível é, entre nós, deplorável. O aprimoramento do ensino médio poderia propiciar um razoável conhecimento geral (as humanidades do passado), para que sobre esse modesto, mas sólido suporte, se forme o saber especializado.

O problema é de âmbito mundial, mas nem por isso deverá a cultura nacional eximir-se do esforço de autoproteção contra o advento dos novos bárbaros gerados pela competição, pela pressa ou, enfim, pelo duro ofício de viver nestes dias trepidantes e atribulados.

Jornal do Brasil, 02/02/1983

 
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