Bolivar e o destino da América Latina
Humberto Braga

"Los españoles para nosotros, ya no son peligrosos, entanto que los anglosajones lo son mucho, porque son omnipotentes... Los americanos del Norte... tienem caráter de heterogéneos para nosotros. Por lo mismo, jamás seré de opinion de que los convidemos para nuestros arreglos americanos".
Simon Bolívar, 1824


Estou entre os muitos que veêm Bolívar, cujo bicemtenário de nascimento transcorreu no ano passado, como um dos mais extraordinários estadistas e condutores de homens de todos os tempos. A teoria que afirma a inexistência ou a desimportância do herói na História sofre um rude golpe no juízo de quem se detiver no estudo da personalidade e da vida do Herói da América.

O brasileiro José Veríssimo, em página magnífica, escreveu o seguinte sobre Bolívar: "Neste homem, porventura o maior da América, certamente um dos maiores da humanidade, reuniram-se em grau eminente e perfeita consonância, qualidade excepcionais de inteligência e ação... O maior dos caudilhos americanos, Bolívar, não é, entretanto, o vulgar caudilho, vergonha e flagelo das nossas democracias rudimentares. O seu molde perdeu-se". E o ilustre uruguaio Rodó, falando da América, rematou: " En la extensión de sus recuerdos de gloria nada hay más grande que Bolívar".
Onde se patenteou, com maior relevo, o gênio político do glorioso caudilho foi na sua concepção da América Latina como verdadeiro sujeito histórico e não como pura expressão geográfica. O Libertador de seis atuais Estados lutou desesperadamente pela unificação do mundo latino-americano.

Obviamente, a confederação por ele projetada excluía os Estados Unidos. Se Bolívar não via os norte-americanos, necessariamente, como antagonistas, tampouco os encarava como aliados permanentes. Para ele, os Estados Unidos tinham um destino distinto do da América Latina, de vez que seus interesses não se confundiam ou identificavam com os dos povos que a compunham.
Mas, ao passo que nas antigas colônias britânicas deste Continente a união prevaleceu sobre o regionalismo, na ex-colônias espanholas uma conspiração de circunstâncias sociais, econômicas, políticas e culturais desfavoráveis fez malograr o sonho do Libertador. A América Latina fracionou-se em Estados débeis e artificiais, num processo de balcanização assemelhável aos da África negra e do mundo árabe. E sua tragédia ("nuestra América enferma", de Martí) nasceu desse malogro.

A unicificação almejada por Bolívar parece hoje mais improvável do que a negritude africana ou a do pan-arabismo. No Brasil, há mais informação sobre a Dinamarca do que sobre o Equador. Ademais, sangrentos conflitos dividiram os latino-americanos, dos quais os mais mortíferos foram as guerras do Paraguai e do Pacífico, na centúria passada, e a do Chaco, nesse século.

No próprio contexto hispano-americano, a Argentina do nosso tempo, branca e alfabetizada, com a queria Sarmiento, via-se, aos olhos de suas elites, mais como um enclave europeu do que como integrante de uma dramática realidade histórico-social que abrange e que a transcede. É possível que o cruel despertar da guerra das Malvinas dissipe essa ilusão, que oscilou entre o orgulho isolacionista e a quimera expansionista.

O Brasil foi um caso à parte. Bolívar viu com desconfiança aquela monarquia basicamente escravista, indiferente à causa da emancipação continental e à qual imputava desígnios agressivos. Só mais tarde, como assinalou Ricaurte Soler, a inclusão do Brasil na comunidade latino-americana "comenzó entonces a aparecer como factor indesligable del imperativo de nuestra integración continental". ("Idea y Cuestión Nacional Latino-Americanas," pag. 199).

Além disso, múltiplos fatores históricos e culturais que distinguem o nosso país dos hispano-americanos, a par de outras circunstâncias, como a enorme extensão territorial, contribuíram para arraigar nas elites e no povo a crença num destino próprio, que inelutavelmente o ergueria à condição de grande potência mundial.

Também no plano econômico frustrou-se o ideal unificador. A ALALC (Associação Latino-Americana de Livre Comércio), pelos seus modestos resultados, fica amesquinhada, quando se a coteja com o Mercado Comum Europeu, cuja obra, além dos formidáveis êxitos econômicos, tornou impossível a guerra entre os países da Europa Ocidental. O mundo, espantado, viu, em poucas décadas, apagarem-se ódios milenares.

Mas, se não é perceptível, agora, a unificação político-econômica da América Latina, será ela uma probabilidade no campo ideológico?

O comunista italiano Gramsci foi quem suscitou o problema do pensamento hegemônico, ao atribuir aos intelectuais uma importância que outros discípulos de Marx haviam desdenhado. Será discernível um pensamento hegemônico empolgando a atual intelligentsia da América Latina?

O grande economista austríaco Schumpeter, cujo centenário também se comemorou em 1983, sustentava que o desenvolvimento do capitalismo produzia, em escala cada vez maior, os mais perigosos agentes de sua destruição, nas pessoas dos intelectuais no mundo latino-americano?

Quem viaja pelos países situados "abaixo do Rio Grande" observa crescente repúdio à supremacia política, econômica e cultural dos Estados Unidos, nos meios intelectuais e universitários, que a ela contrapõem os "interesses da América Latina". Falando enfaticamente em nome desta, no ano passado, o colombiano Garcia Marquez, no discurso de recepção do Prêmio Nobel, e o mexicano Carlos Fuentes, ao agradecer o título de doutor honoris causa da universidade de Harvard, contestaram com veemência a liderança continental norte-americana.

A oposição dos intelectuais latino-americanos a que seus países continuem gravitando na órbita política, econômica e cultural dos Estados Unidos (our backyard, na expressão de Reagan), parece pois, dominante.

Mas esse aspecto puramente negativo não é suficiente para configurar o pensamento hegemônico, que requer, também, um claro projeto político capaz de atrair outras camadas sociais. Este será inaceitável e impraticável se vier a inspirar-se em ideologias totalitárias.

Em seu último livro, Tiempo Nublado, de 1983, à pag. 129, afirma o grande Octavio Paz: "Hasta ahora hemos jugado el juego de las grandes potencias. El momento es propicio para intentar una politica continental que sea nueva y nuestra... Una alianza de naciones democraticas latinoamericanas no solo haría reflexionar a Washington sino que podría cambiar a nuestro continente".
Enquanto não for definida essa política, não se poderá saber sobre que bases será eventualmente possível a unificação latino-americana sonhada pelo libertador, de quem disse o poeta, herói e profeta Martí: "lo que el no dejó hecho, sin hacer está hasta hoy; Bolívar tiene que hacer en América todavia".


Publicado no Jornal do Brasil, Rio de Janeiro em 02/09/1984 e em Puerta Abierta, Puebla, México, julho de 1985.

Jornal do Brasil, 02/09/1984

 
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