História teimosa
Humberto Braga

Até hoje o ensino da História tradicional prevalece apesar dela ter sido abandonada pelos historiadores modernos. Seu método, desde tempos remotos, foi entusiasticamente definido por Carlyle, para quem a História era a "biografiados grandes homens". Assim é conferida primazia soberana à História política e, consequentemente, àqueles que supostamente a conduziram. O poder político seria o produtor histórico e o Estado (ou melhor, os Estados), o instrumento da sua ação. Então a História, desenvolvimento serial de acontecimentos políticos (sobretudo militares), é apresentada como um espetáculo, no qual alguns renomados indivíduos são os atores .

Montesquieu, ainda no século XVIII, afastou-se dessa concepção e, no seu livro "Considérations sur les causes de la grandeur des Remains et de le ur décadence", afirmou que as grandes figuras de Roma, inclusive Cesar, eram perfeitamente substituíveis. Outros autores vieram na sua esteira, como Augustin Thierry, Mignet, Tocqueville, etc. Spencer, paladino do determinismo social, segue a mesma rota. Tolstoi foi o mais radical. Em "Guerra e Paz" sustentou que os chamados grandes homens eram marionetes num processo de que não tinham consciência. H.G. Wells, em "The Outline of History", apequenou Alexandre, Cesar, Carlos Magno e Napoleão. Os filósofos da História, como Spengler eToynbee, não apontaram indivíduos responsáveis pelo declínio das civilizações. Marx indicou o fator econômico como o dominante no processo histórico. Daí alguns concluírem que a tese anti-carlyleana tem inspiração marxista... Acontece que foram precisamente os seguidores de Marx que celebram as personalidades de seus líderes (Lênin, Stalin, Mao) em uma inaudita exaltação, sem precedentes em todo o passado. É claro que os fatos não abonam a teoria marxista de que a História tem um sentido único, necessário e previsível.

Coube à Escola dos Anais, a mais prestigiosa corrente de interpretação histórica no século XX (Lucien-Febvre, Georges Duby, sobretudo o grande Fernand Braudel) distinguir a História de curta duração e a de longa duração. Na primeira são evidentes as ações determinantes individuais, quase todas em âmbito nacionais. Neste a importância deriva mais do país do que das aptidões do líder e as consequências de suas ações raramente ultrapassam suas fronteiras. Evidentemente não se excluíram, na História de curta duração, os estadistas cujas ações tiveram consequências internacionais.

Já na História de longa duração, entre a ação de indivíduo e as consequências distantes que lhe são atribuídas, interferem muitos outros fatores relevantes objetivos e subjetivos, variáveis no tempo, em número, peso e configuração. Deve-se contar, inclusive, com o acaso que não é acontecimento sem causa e sim um fenômeno cujas causas eram desconhecidas, portanto, imprevisíveis, para os sujeitos de outra cadeia casual, inexistindo entre ambos relações de dependência. Portanto, há uma pluralidade de causas, entre as quais, é óbvia, a ação individual que pode ter sido uma condição necessária, não porém suficiente. Não há, pois, que falar em determinação, tanto mais quanto a causalidade na História não é do tipo mecânico. Isso não significa negar a importância dos chamados grandes homens, alguns deles geniais, cujas ações foram decisivas no curto prazo ou condições necessárias de relevantes acontecimentos no longo prazo. Eles não foram determinados, de fora, por "vastas forças impessoais", no dizer do famoso poeta T. S. Eliot, porque eram parte integrante dos seus sistemas sociais e também atuaram nas transformações. Alguns foram extraordinários protagonistas do drama histórico, mas não foram seus diretores e, menos ainda, seus produtores. Todo indivíduo, poderoso ou não, nasce, vive e morre num mundo de fatos econômicos, jurídicos, religiosos, éticos, etc, que preexistem e sobrevivem a ele. Como ele, indivíduo, não é pura passividade, simples reflexo do meio social, pode contribuir para transformá-lo. Mas não há super-homens históricos pairando acima dos grandes fatos sociais. Alguns potentados tiveram suas ações petrificadas em monumentos arquitetônicos ou notáveis realizações urbanísticas, como Felipe II e o Escorial, Luis XIV e Versailles, Pedro o Grande e São Peterburgo, etc.

Foram essas considerações que levaram os mestres da Escola dos Anais ao juízo de que, no longo prazo, a História Política (évenementiel) é menos importante do que outras: a economia, a social, a das técnicas e ciências, a da vida privada, a das mentalidades, etc. De fato, desde a Revolução Neolítica, passando pelos grandes fatos sociais da escravidão, do feudalismo, do capitalismo ou pelos magnos movimentos culturais de Renascimento, do Humanismo, do Iluminismo, não se percebe determinação individual.

Que indivíduo criou a guerra? Quem criou o Direito ou a democracia? Quem inventou o sistema monárquico? Quem iniciou o comércio?

A civilização Ocidental, que não teve indivíduo criador, nasceu com a derrocada do Império Romano, o vitorioso advento do cristianismo, as grandes migrações de povos e a formação da sociedade e modo de produção feudais. A Idade Média foi um longo processo civilizatório, de notável riqueza cultural, com as Universidades, as Catedrais (de muitos arquitetos), numa organização social rigidamente hierarquizada, sob a
égide, na Europa Ocidental, da Igreja Católica.

A primeira grande transformação na CivilizaçãoOcidental foi a chamada Revolução Comercial (século XV e XVI), com o declínio do feudalismo e a ascensão do capitalismo mercantil. Foi ela que determinou os grandes descobrimentos que interligaram o planeta e levaram à criação dos impérios coloniais. O comércio ultramarino foi uma exigência do desenvolvimento econômico daquele tempo. Por isso não ocorreu nos séculos XIV ou XIII. Nessa mesma quadra histórica despontaram o Renascimento artístico e literário, o Humanismo racionalista e crítico, a Reforma religiosa, a consolidação dos Estados nacionais, a Revolução científica (teoria heliocêntrica), as inovações técnicas (imprensa), etc. Alguns marxólogos sustentam que todas essas transformações foram subproduto da Revolução Comercial. Segundo eles, a infraestrutura do já poderoso capitalismo mercantil determinou as superestruturas cultural, religiosa, científica, política, etc. A tese é indemonstrável. O certo é que, naquela época, houve uma transformação global no Ocidente, com efeitos de curto e longo prazo, abrindo caminhos para Maquiavel e Montaigne, Bacon e Decartes, Galileu e Newton, Cervantes e Shakespeare, todos eles distanciados anos-luz da mentalidade medieval.

Há quem pretenda que os Estados nacionais (transformação política) foram determinadas por alguns indivíduos. Mas como explicar a coincidência de, no mesmo período, em diferentes países, surgirem monarcas extraordinários que puseram fim à descentralização feudal? Monarcas ainda mais notáveis existiram antes deles.

A segunda grande transformação, maior da História, foi a Revolução Industrial, que se iniciou na segunda metadedo século XVIII e hoje se prolonga na Revolução Tecnológica. Enquanto na França brilhava o Iluminismo, na Inglaterra começava uma revolução econômica de importância histórica incomparavelmente maior do que a da Revolução Francesa. Ela mudou radicalmente o planeta e as condições da vida humana. O mundo mudou mais de 1800 para cá do que do Neolítico até àquele ano, em que os exércitos de Napoleão marchavam com a mesma rapidez dos de Alexandre, dois mil anos antes.

Voltando ao plano político: os historiadores concordam em que é praticamente impossível identificar os indivíduos que teriam determinado grandes conflitos como as Cruzadas, a Guerra dos Cem Anos, as Guerras de Religião, a Guerra dos Trinta Anos, a Revolução Francesa, a Primeira Guerra Mundial, etc. E quem determinou a queda do Império Romano ou as invasões bárbaras?

Alguns consideram grande homem aquele cujas ações conscientes produziram relevantes consequências. Todavia, em muitos casos, essas consequências contrariaram os objetivos colimados. Hitler foi um dos relativamente poucos chefes de Estado, cujas ações tiveram grandes consequências internacionais. Seus objetivos supremos eram: 1°)submeter a Europa ao predomínio do Terceiro Reich; 2°) exterminar a etnia judaica. Hoje todos concordam que as ações dele contribuíram para a formação da União Européia e do Estado de Israel. Que mais restou do legado histórico do Fuhrer?

Por conseguinte, a Política, que não é subproduto da Economia nem extensão da Ética, também não é o fio condutor da História.

No passado, tentando defender a primazia do indivíduo, um psicólogo social, Gabriel Tarde, explicou os fenômenos sociais pela imitação. Depois de Durkheim e Weber, ele caiu no esquecimento.

Evidentemente, todo o fato social se inicia com a ação de um indivíduo. Mas o início não é causa. Imagina-se o primeiro conflito social violento entre homens. Duas tribos primitivas se depararam. O indivíduo que atirou a primeira pedra terá sido o causador
do fenômeno da guerra? Se ele não existisse a humanidade seria pacífica? Algum homem ingeriu, pela primeira vez, uma bebida alcoólica. Sem ele a humanidade seria abstêmia?

Há quem acredite que sem Washington não haveria a independência americana?

Avalia-se a importância das ações, boas ou más, de um indivíduo pela magnitude da suas consequências nas condições da vida humana. Se os defensores da insubstituibilidade dos "herois" políticos aplicarem o mesmo critério aos pioneiros da técnica e da ciência, concluir-se-á que, sem Watt (inventor da máquina a vapor) não haveria a Revolução Industrial, sem Fleming não haveria antibióticos, sem Pasteur não haveria assepsia, sem Edison não haveria iluminação elétrica, sem Marconi não haveria radiotelegrafia, sem Graham Bell não haveria telefone, etc.

A esta lista poderíamos acrescentar os inventores de todos os produtos sem os quais a nossa vida hoje é inconcebível. Mas, neste caso, força é convir que Fleming é historicamente mais importante do que todos os poIít icos, I iteratos, artistas e filósofos reunidos. Mesmo aqueles, cujos interesses intelectuais são exclusivamente literários e artísticos, concordam em que Shakespeare, Rembrandt ou Bach são apreciados por uma reduzida minoria, na própria civilização ocidental. E quantos brasileiros de formação universitária leram Machado de Assis? Mas quase ninguém prescinde de anestésicos e, já agora, de televisão, celular ou computador.

Quais os maiores produtos históricos na Civilização Ocidental, no começo do século XXI? Refiro-me aos fatos dominantes que não foram destruídos pelas guerras mundiais, nem pelos totalitarismos.

1°) No plano religioso: a hegemonia do cristianismo sob diferentes igrejas e seitas. É o fato social mais antigo. Anterior à modernidade. Alguém o determinou? São Paulo é considerado o grande difusor do cristianismo. Foi ele quem propagou no mundo conhecido uma seita até então confinada na [udéía. Mas o cristianismo não se tornaria a grande religião do Ocidente sem a derrocada do Império Romano, cujos valores se contrapunham à sua mensagem. A ação do grande apóstolo foi uma condição necessária, mas não suficiente para a difusão do cristianismo. E ele não poderia prever que a sua religião se dividiria em credos animados por ódio mortífero, uns contra os outros, entrematando-se durante séculos. O mesmo pode-se dizer de Lutero, o primeiro grande reformador. Os luteranos hoje são uma minoria entre os protestantes. Para a maioria deles Calvino é mais importante.

2°) No plano técnico e científico a chamada Revolução da Informática.

3°) No plano sócio-econômico vigora o sistema capitalista globalizado (sujeito a crises periódicas). Os Estados Unidos mantêm sua hegemonia.

4°) No plano político e jurídico: cresceram os Estados democráticos de Direito (ocasionalmente sujeitos a rupturas institucionais, principalmente na América Latina); crescem também os organismos internacionais e as organizações não governamentais. A pena de morte só é aplicada legalmente nos Estados Unidos. Amplia-se a defesa dos direitos humanos.

5°) No plano ético: acentuadas mudanças nos costumes e valores, de que são exemplo a chamada Revolução Sexual e o melhor tratamento às mulheres e crianças.

6°) No plano ecológico: a ameaça do aquecimento global que poderá vir a ser terrível produto histórico.

Nenhum desses produtos da História foi criado por alguns indivíduos e sim pelos homens. Mas a historiografia tradicional é teimosa. Tem a sustentá-la a opinião da maioria das pessoas, relutantes em abandonar a crença de que o mundo de hoje foi construído pelos super-homens de sua admiração.

Por isso não sabem História. Sabem histórias.



Revista TCMRJ nº42, 01/09/2009

 
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