Prefácio do livro de Julieta Wendhausen de Carvalho Gomes
Humberto Braga

Nos tempos em que os românticos dominavam o proscênio literário, ninguém hesitaria em definir a poesia.

Ela se caracterizava por uma forma de linguagem rítmica -metro e rima eventualmente poderiam ser dispensados -especificamente adequada a exprimir sentimentos ou temas universalmente reconhecidos como "poéticos": o amor, a saudade, a solidão, os encantos da natureza, o heroísmo etc...

Havia uma afinidade inapartável entre poesia e sentimentalismo. O poeta seria necessariamente um sentimental, um "idealista" ou “sonhador”.

A revolução iniciada com os simbolistas e completada com os chamados modernistas abandonou a singeleza daquela concepção, hoje considerada primária, ingênua ou piegas e introduziu novas exigências configuradoras da lírica como linguagem e visão do mundo.

Assim a palavra, no poema, mais do que nunca, deve ter um valor per se pois, ao contrário do que ocorre na prosa, sua função é um fim em si mesmo e não um meio para exprimir conhecimento racional. Ela não deve pretender explicar ou narrar, já que o seu domínio é o do inefável e o do inexprímivel, e sim sugerir, daí a ambigüidade senão a inevitável obscuridade do verso.

Refletindo a poesia uma visão mágica do mundo - radicalmente oposta à sua ordenação lógica - a multiplicidade de sentido é condição inerente ao poema. O significado unívoco seria característica da prosa.

Qualquer assunto pode servir para a criação poética de vez que a lírica não está subordinadà às noções convencionais de um suposto "belo" invariável da História, como valor universal. Artistas plásticos já tinham revelado a "estética do feio".

A beleza da poesia está na sensação de mistério, de revelação, de repentina associação maravilhosa, de estranheza e encantamento, de alumbramento e inquietação.

De uma forma negativa, Gilberto Amado resumiu esse juízo: "O que é óbvio não é poesia".

Na esteira dessas concepções, mudanças mais radicais sobrevieram. O sentimentalismo poético foi posto em ridículo, a poesia confessional condenada. Muitos chegaram a pregar o eclipse do eu empírico. A magia lingüística ofuscou o conteúdo do poema. Os objetos foram substituídos por metáforas e símbolos. E a natureza (mais ainda do que na pintura) desvalorizou-se ou sofreu insólitas transfigurações.

Tudo isso seria o reflexo de uma época em que o artificial adquire absoluta preeminência sobre o natural.

Assim a fantasia deforma a realidade para a criação de um novo cosmos no qual é possível a aproximação dos normalmente incompatíveis e se tenta transformar o familiar em estranho. Max Weber denominou de "desencantamento do mundo" ao processo de racionalização cultural que teve início com o Renascimento. Estaríamos agora, na linha preconizada pela poesia e pela arte moderna, num processo de reencantamento do mundo.

Qualquer análise despreconceituosa reconhecerá o mérito e a relevância de muitas das teses dos modernistas. Não obstante alguns deles as invalidam pelo exagero. Pois se adotarmos à risca os cânones enunciados para a conceituação de poesia, chegaremos à conclusão de que ela não existiu antes do modernismo.

Homero, Dante, Camões, Goethe etc., não seriam poetas e sim artistas do versejar... Isso porque, se neles também a palavra é fim e não puro meio e há freqüente pluralidade de sentido em muitos de seus versos, inexiste nas suas produções aquele radicalismo reclamado pelos corifeus da lírica revolucionária onde às vezes é difícil distinguir o charlatão do gênio.

Para mim haverá necessariamente poesia onde houver a linguagem portadora do ritmo da música e da sugestão do mistério. Ela nasceu com a prece - elemento do mistério - e com a melodia - elemento do ritmo. Isso está bem revelado no mito de Orfeu.

E canção e mistério estão presentes no estro de Julieta Wendhausen de Carvalho Gomes, de encantadora simplicidade dentro da multiplicidade formal de que é dotado pela versatilidade versificadora, em cujo seio avultam aqueles elementos substanciais da criação poética.

Confunde-nos a profusão dos exemplos. Em três versos, "Dentro do Tempo" reflete a angústia do efêmero e o anseio pelo eterno:

"Dentro do tempo
O mágico rosário
Das lembranças”

A corrente sonora que de tempos imemoriais forjaram trovadores andejos e menestréis visionários, rapsodos boêmios ou baladeiros , errantes tem um elo em versos como estes:

“Na tarde que se esvai,
Algumas nuvens, leves como lenços,
Gentilmente despedem-se do dia...
Meu silêncio acompanha um vôo
De ave boêmia, a se recolher tardia"

Não é preciso ter autoridade na crítica literária (e eu não a tenho) para sentir o encanto lírico destes versos:

“Onde a minha poesia
Que ainda não aconteceu
Da maneira que eu queria?"

A atração pelo mistério e o anseio de eternidade estão bem ilustrados no fascínio da autora pelo Egito antigo.

Nenhuma outra civilização legou à posteridade monumentos que imprimiram à pedra o sentido simbólico de brados milenares de esperança. Seus deuses inescrutáveis, suas múmias multisseculares, seus templos e túmulos que, nascidos na aurora da civilização, resistem à poeira do tempo que tudo aniquila e submerge no esquecimento, são o mais eloqüente exemplo histórico do anelo de eternidade.

Perpetuar e exaltar a beleza sobre o marulho das formas transeuntes e cambiantes é transcender a finitude na busca do eterno.

E assim entendeu e sentiu Julieta Wendhausen de Carvalho Gomes - cuja inspiração não se deixou aprisionar em nenhuma escola literária – ao dar a este livro o título tão apropriado de "Poesia e Eternidade”.


Poesia e Eternidade, 06/09/1993

 
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