A viagem e a morte
Humberto Braga

Enfim creio que superei o medo à morte. Aquela angústia sufocante, aquela sensação de absoluto desamparo que se apoderavam de mim todas as vezes em que, insidiosa e inelutável me acudia a idéia do mergulho no abismo do aniquilamento, não mais existem. Foram substituídas por um sentimento melancôlico mas indubitavelmente poético. Ao terror sucedeu a poesia da morte. O patético deu lugar ao elegíaco. Isso se manifesta sobretudo por uma sensação de saudade de mim mesmo, do melhor de mim, do melhor que vivi e também de uma imagem idealizada de minha pessoa e de minha vida. A perspectiva do fim próximo dissipa o prosaísmo da existência pessoal, dando-lhe contornos de uma dantes não perceptível beleza, apagando-lhe as banalidades que se sucederam enfadonhamente no curso dos anos fugazes e vazios, imprimindo-lhe um quê de mistério à monotonia dos dias que escorreram na ausência de sentido ou na vibração do som e da fúria.

O absurdo do "relâmpago numa noite infinita” já não causa revolta e desespero mas uma tristeza matizada de doçura, estoicismo e talvez até um certo encanto. E a antecipação intelectual da morte é purificadora ou regeneradora. Dissolve qualquer evocação vil ou indigna do nosso passado e nos restitue à pureza dos seres que só vieram ou viveram para a beleza do mundo. E a própria morte real, concreta, que, na maioria dos casos, é penosa, feia e sórdida, se converte num acontecimento formidável, pelo que encerra de definitivo, de aterradora transcedência, quer se eleve ao empíreo da eternidade quer submerja no pélago do nada.

"Eu sentirei saudade deste planeta" é um verso de Villiers de L'Isle Adam. Já a sinto desde agora, com a sensação desoladora de que não me foi dada a oportunidade de conhecer a maioria dos seus tesouros, suas belezas, seus mistérios, suas fontes de alegria, encantamento e prazer. Mas, se me acenassem com a perspectiva de viver muitos e muitos anos, no feixe das
possibilidades da vida ainda relativamente boa que vivo agora, eu não me deslumbraria e sequer me sentiria tentado. Pois a saudade que sinto hoje não é bem a de um passado tão pobre para o meu sonho e de uma existência tão arida para a minha imaginação, mas sim a de outras vidas, aquelas que não puderam ter sido vividas por mim integralmente, mas que foram entrevistas, adivinhadas, pressentidas, aquelas que, como no verso de Bandeira, poderiam ter sido e não foram. E a saudade de mim mesmo não é a do ser de carne e osso, com as suas vivências, experiências, paixões, efêmeros triunfos, frustrações e desapontamentos. A saudade é de um outro ser, muito vago mas não menos real, que ainda entrevejo no meu âmago, intocado pela impureza do mundo, não profanado pela implacabilidade do tempo, que não conheceu nem o desejo torpe nem a derrota humilhante, um ser de sensibilidade e amor que não viu a dissipação dos sonhos nem sofreu a ruína das ilusões como se contivesse uma essência incorruptível e imutável.

Quando li nos jornais a notícia da morte de Ava Gardner, veio-me um sentimento de ternura e emoção. Mas eu não senti saudade da decadente atriz que se finou solitária em Londres. Senti saudade da imagem que dela guardei ou construí como Pandora, Maria de Ia Mata, Lady Brett e das muitas vidas que aqueles seus filmes sugeriam, saudade daquele mundo fascinante, extraordinário, que neles se revelava, saudade da década de 1950, não como ela realmente foi, mas sim como eu gosto de evocá-la, saudade de mim e da minha vida naquele tempo, redimidos na luz de uma transfiguração que deles eliminou a vulgaridade e lhes acrescentou uma inefável magia.

Foi na ânsia de ultrapassar os mesquinhos limites de uma insípid existência que eu, animado por febril insatisfação, procurei acrescentar à minha pobre vida outras vidas numerosas de sensações e estranhas em acontecimentos. E foi justamente esse ímpeto multiplicador que me levou a uma busca incessante e insaciável, no espaço e no tempo, pelas viagens e pela História. Mas depois de me ver encantado naqueles conquistadores descobridores que viram a face do assombro e conheceram o realmente novo , – para o seu universo –, volta da peregrinação pelas terras distantes e pelas idades pretéritas, com o sentimento que o Eclesiastes exprimiu numa frase: "Nada de novo sob o sol". Nao há mais novidade na viagem. Poderá haver novidade na morte? Eu não creio. Mas Baudelaire acreditava que sim, como se vê nos versos finais de "Le Voyage":

"Ó Mort, vieux capitaine, il est temps! levons l'ancre!
Ce pays nous ennuie, ô Mort! Appareillons!
Si le ciel et Ia mer sont noirs come de l’encre,
Nos coeurs que tu connais sont remplis de rayons!

Verse-nous ton poison pour qu'il nous réconforte!
Nous voulons, tant ce feu nous brûle le cerveau,
Plonger au fond du gouffre, Enfer ou Ciel, qu'importe?
Au fond de l'Inconnu pour trouver du nouveau!"


Tradução dos versos de Baudelaire
“Ó Morte, velho capitão, é tempo! As velas! Este país enfara, ó Morte! Para a frente! se o mar e o céu recobrem o luto da procelas. Em nossos corações brilha uma chama ardente! Verte-nos ele é que nos conforta! Queremos, tal o cérebro nos arde em fogo. Ir ao fundo do abismo, Inferno ou Céu, que importa? Para encontrar no ignoto o que ele tem de novo!"
(Charles Baudelaire - As Flores do mal. Trad. Ivan Junqueira. Nova Fronteira, RJ, 1985)


Tribuna da Imprensa, 17/02/1997

 
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