Perspectivas psiquiátricas
Humberto Braga

Fala-se muito, hoje, em crise da psiquiatria, como, de resto, das chamadas ciências sociais, das quais ela é a especialidade médica mais aproximada.
Não nos sobra tempo para nos entendermos aqui sôbre o que ocorre nas ciências naturais, a despeito dos espetaculares êxitos da física aplicada.
Seja como fôr, a mencionada crise não deve ser entendida como malôgro no tratamento e recuperação do doente mental, e sim o estilhaçamento dos pressupostos teóricos que informam a psiquiatria.
De há muito estão abandonadas as reservas que tendiam a relegá-la à condição subalterna de atividade para-médica, objeto de ceticismo ou desconfiança. Isto se devia ao preconceito "cientificista" do século XIX, que privilegiava as ciências naturais, em detrimento das ciências humanas, conferindo exclusivamente àquelas os fôros de verdadeira ciência, por fôrça de suas exigências de quantificação e mensuração.
Todavia, não deixa de ser perturbadora a contradição de que na hora mesma em que se alcançam tão admiráveis êxitos na terapêutica e se registram tão expressivos avanços em fisiopatologia, neurofisiologia e neuropatologia (a atividade de estruturas como a formação reticular do tronco cerebral e o sistema límbico; a atividade bio-elétrica, sobretudo no campo das disritmias rinencefálicas, o metabolismo cerebral e a ação da serotonina e da noradrenalina, as pesquisas genéticas etc.), observe-se, por igual, uma atomização teórica que produz no iniciado, e até mesmo no deuto, confusão e perplexidade.
Os esforços visando à almejada síntese têm resultado infrutíferas e resvalam frequentemente num ecletismo desnorteante, fonte dos mais deploráveis erros metodológicos. A crise aqui não é de escassez, e sim de abundância.
De par com os avanços assinalados, alinham-se as outras abordagens doutrinárias.
Multiplicani-se as interpretações de cunho psicanalítico, pondo ênfase exclusiva na psicogênese e na psicodinâmica.
A Fenomenologia rasga sedutoras vias de acesso ao conhecimento das vivências e perquire o transtôrno fundamental que se oculta sob a fachada sintomática.
A Analítica Existencial busca na biografia interna e externa a eleição suprema do modo-de-estar-no-mundo dos pacientes. A Psicologia Clínica magnifica os testes ao exagêro. E até a Parapsicologia pretende insinuar-se nos refolhos dessa colcha gigantesca.
Outras correntes se defrontam, senão conflitantes, pelo menos apartadas: Organicismo Clássico, Escola Constitucionalística, Escola Organo-Dinâmica de Ey, Psicobiologia de Meyer, Reflexologia, Sócio-Psiquiatria, etc.
Põem-se em questão a nosologia e a classificação Kraepelinianas, sem que se ofereça nada de melhor em seu lugar.
Ao conceito de doença mental contrapõe-se o de reação ou se acena com a tese da psicose única; rejeita-se o diagnóstico propriamente dito, admitindo-se com relutância o síndroma, quando não se descamba, como soe acontecer frequentemente entre os adeptos da Psicanálise, no completo casuísmo, o que, em última análise, importaria negar à Psiquiatria a condição de Ciência Médica.
Estreita-se cada vez mais o campo das antigas neuroses e alarga-se o das psicopatias, hoje transformadas numa vala comum do indestrinçável e do indistinto, fonte de perplexidade para a Medicina e também para o Direito, convertida que está em penoso problema de psicopatologia forense, tornando indiscernível a responsabilidade jurídica, civil ou penal.
O domínio das esquizofrenias expande-se imperialmente, abarcando distúrbios mentais muito pouco assemelháveis, que vão do mais lúcido e sistematizado dos delírios ao mais proteiforme complexo alucinatóiio-delirante, com profunda e progressiva desagregação da personalidade.
Adverte-se contra o perigo de firmar diagnóstico com base apenas no conjunto sintomático e repudia-se a noção do puramente endógeno na mais típica das psicoses constitucionais ou do puramente exógeno na mais característica das psicoses sintomáticas.
Os exageros dos psico-somaticistas esboçaram como que uma psiquiatrização de tôda a Medicina.
Todavia, se ainda estamos longe da síntese superadora e depuradora, aproximamo-nos de uma salutar reavaliação de ativos que preservará a especialidade do maelstrom doutrinário na hora mesma dos seus triunfos corno prática médica.
O Professor Leme Lopes, na conferência inaugural do IX Congresso Nacional de Neurologia, Psiquiatria e Higiene Mental, acentuou os dois magnos eventos da Psiquiatria contemporânea: a revolução, terapêutica e a prática da Psiquiatria Social.
Se os psicotrópicos operaram transfiguração radical na fisionomia dos hospitais, a Psiquiatria Social põe timbre nas atividades extra-hospitalares e revigora os centros de Higiene Mental, seja no trabalho puramente preventivo, seja na reintegração do doente na atividade social, investigando-se e buscando-se a remoção e supressão das novas geradoras da doença, nos seus aspectos físicos, biológicos, econômicos, sociais, profissionais, educativos, familiares, etc.
A atividade extra-hospitalar passou a exigir a organização da equipe médico-social para atuar na comunidade, fazendo-a inclusive participar ativamente no processo de aprimoramento e defesa da saúde mental.
Por tudo isso, impende reagir contra as posições sectárias. Se a doença mental não é apenas a doença de um órgão (cérebro, como pretendia Griessinger) e sim da personalidade total, tampouco podemos aceitá-la gerada somente por conflitos intra-psíquicos, na apoteose da Psiquiatria anencefálica.
Impõe-se a contenção da poussée de cunho psicanalítico, que converteu em Teoria Geral do Espírito uma psicoterapia sistemática de reais méritos, em certos casos, e um magnífico instrumento de investigação, restabelecendo inclusive, na prática profissional, o dualismo cartesiano ao consagrar a causalidade fechada dos fenômenos psíquicos.
Sem desmerecer a vasta e ambiciosa tentativa da Psicanálise, é forçoso reconhecer que praticamente se esgotou a sua contribuição ao progresso da Psiquiatria.
Menos ainda é de aceitar-se a doença mental como se fôra um simples modo-de-estar-no-mundo. Bem o disse Goas: só se pode conceber um modo-de-estar-no-mundo dentro da enfermidade, isto é, a psicose é um processo que altera o estar-no-mundo do paciente, dando-lhe outro modo de existência.
Aqueles que justamente se insurgem contra a tirania dos rótulos e a Psiquiatria inumana, cumpre lembrar que numa esquizofrenia há o ser esquizofrênico e também o processo esquizofrênico.
Entendendo-se, pois, o homem como uma totalidade biopsíquica, a doença mental deverá ser conceituada como o conjunto de alterações sômato-psíquicas que implicam uma anomalia da integração no meio social, perturbando ou destruindo as possibilidades de inter-relação pessoal normal.
A doença mental, bem se vê, atinge o homem nas suas duas vertentes: a biológica e a social, sendo pois uma verdadeira antropose no dizer de Binswanger, porque representa um desvio mórbido da totalidade existencial.
Daí o seu caráter especificamente humano já assinalado por Jaspers.
À luz dêsse critério, perde qualquer sentido o debate psicogênese versus organogênese, a que Henri Ey denominou dilema psiquiatricida.
Por isso mesmo que o psiquismo é uma síntese integradora de fatôres biológicos e sociais, ambos concorrem na produção da doença mental. A adoção do diagnóstico pluri-dimensional de Kretschmer veio sufragar o princípio de que em Psiquiatria não existe causa única, e sim, causas.
Na mais orgânica das doenças mentais – a paralisia geral - não deixam de atuar fatôres culturais, bem como nas neuroses propriamente ditas pressupõe-se sempre aquilo que Eysenck chama de neuroticismo, isto é, a predisposição constitucional.
Por outro lado, o fato de não haver concordância de 100% na incidência de psicoses endógenas nos gêmeos univitelinos, invalida o pretenso fatalismo hereditário, levando à conclusão de que também nelas concorrem fatôres culturais de par com os genotípicos.
Assim, todos os progressos no domínio das doenças mentais levam à confirmação da sábia máxima de Baruk, que tomamos como fecho dêste artigo:
"Uma Psiquiatria puramente materialista e corporal é inumana; uma Psiquiatria puramente psicogênica é injusta".

Tribuna Médica, nº359, vol. XIII, nº2, 01/01/1970

 
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