A personalidade humana e a maturidade mental
Humberto Braga

O homem, no dizer de Heidegger é o ser no tempo. A própria base do temperamento e a estrutura do caráter não podem ser consideradas definitivas, imodificáveis no curso da existência. Se mudanças bruscas, radicais são improváveis, salvo por f orça de profundas crises existenciais, não é menos verdade que o ser humano é algo que vive na temporalidade e se desloca num contexto de circunstâncias que condicionam sua conduta, alteram seus valores e podem transformar sua própria visão do mundo.
Todavia, há algo que permanece imutável na pessoa humana, ao longo de toda a vida. Esse algo é precisamente a personalidade. Graças a ela o velho assume a responsabilidade pelos atos que praticou na juventude. Personalidade não se confunde com memória, de vez que, nela, não se trata de lembrança e sim de identificação a anímica, formando uma totalidade intelectual, afetiva e volitiva. Ancorada na personalidade, isto é, fundamentando-a estaria aquilo que os filósofos existencialistas chamam de "dasein", modo de estar no mundo.
A formação da personalidade é dependente de inúmeros fatores biológicos, psíquicos e sociais. Até hoje, nenhum sistema religioso, educativo ou político conseguiu descobrir as bases ou os caminhos para a construção de uma de terminada personalidade. Pertencendo ao que há de mais pessoal no ser humano é, obviamente, irredutível à manipulação das ciências naturais ou sociais que, nesse campo, não lograram sequer progredir na trilha de um verdadeiro conhecimento. Quando muito, surgem hipóteses ousadas, especulações imaginosas, fantasias pueris, conjecturas vagas.
Quando se dá a transformação da personalidade? O caso típico é o da psicose. Na neurose, o que se verifica é uma exacerbação de sen timentos normais do ser humano, criando – se um quadro agudo e dramático. Assim, entre o neurótico e o homem mentalmente são existe apenas uma diferença quantitativa, de grau. Já na psicose, a diferença é qualitat iva, de natureza, de vez que ela implica, necessariamente, uma transformação transitória ou permanente da personalidade. Um maníaco depressivo, ao curar-se, recupera a sua personalidade anterior. Mas a remissão do processo esquizofrênico traz consigo o chamado "defeito esquizofrênico", o que quer dizer que o paciente não mais readquire a personalidade pré-psicótica.
Que se deve entender como maturidade mental? A nosso ver ela é atingida quando o homem alcança um estágio psíquico no qual a razão prevalece sobre os impulsos, ilusões e fantasias irracionais. Todos já ouviram dizer: o homem é um animal racional. Contudo, isso apenas parcialmente é verdade. Razão e anti-razão coexistem em todos os homens. O indivíduo mais equilibrado pratica diariamente atos irracionais. Na vida humana , a afetividade, isto é, a emoção tem um papel mais significativo e importante do que o das representações e decisões racionais. No jovem, a impulsividade, a fantasia, as ilusões, os sonhos concorrem para uma natural imaturidade. Maturidade mental na mocidade pode existir, mas com o caráter de exceção, raridade. O conhecimento racional, que irá servir de apoio e base de sustentação à maturidade mental, é adquirível pela experiência e pela reflexão. Então, mentalmente maduro será o indivíduo cujos impulsos, ilusões, fantasias, não prevalecem nos planos do julgamento e da ação - sobre a visão proporcionada pela reflexão e pela experiência .
É evidente que a maturidade mental é uma vitória ou um objetivo a conquistar. É inquestionável que ela constitui um requisito básico, fundamental para o bom êxito de qualquer organização ou associação, seja ela empresa, governo ou família. Os elementos de imaturidade podem destroçar a execução dos mais perfeitos planos. No nível da liderança, essa conclusão é ainda mais flagrante. Um chefe temperamental, arrebatado, emocionalmente instável, dificilmente logrará a confiança e a espontânea cooperação de seus comandados. Entretanto, estaríamos incorrendo num erro muito grave se apontássemos como o líder ideal o homem frio, calculista, prosaico, inafetivo, guiado apenas pelas luzes da lógica ou da ciência objetiva. Bem ao contrário, o que a experiência histórica nos revela é a temibilidade desses "monstros" da racionalidade. Seu caráter inumano consiste em que, sendo racionais, não são razoáveis. A lógica pura e fria levada até às últimas consequências só pode conduzir a catástrofes. O racionalista puro move-se num espaço de abstrações, desligado da realidade vital. Alguns dos homens mais nefastos da história pertenciam a essa fauna. Aliás, o racionalismo extremado pode chegar à própria negação ou distorção da realidade. Nem tudo que é real é racional, como pretendia Hegel. Por outro lado, a objetividade extremada é apenas uma auto-mutilação. O nosso mundo é constituído de valores objetivos e subjetivos. Ignorar os últimos é conferir a si mesmo um "status" de barbárie. Quem, em nome da objetividade, desprezar a beleza, a misericórdia, a solidariedade humana se transformou voluntariamente num robô .
Por outro lado, se a razão e a experiência são indispensáveis à maturidade mental, seria empobrecimento do espírito ignorar o imenso valor da intuição, da imaginação, do ímpeto, do arrojo na atividade criadora do homem. Pessoa madura não quer dizer conformista. Maturidade não exclui sonho. O racional pode coexistir com o visionário. O descobrimento da América se deveu ao senso prático, ao espírito positivo, à determinação, à experiência e, também, ao sonho de Colombo. Napoleão era realista até ao maquiavelismo e , ao mesmo tempo, dotado de imaginação eruptiva. A criatividade é função da eficiência e da imaginação. Realismo não quer dizer prosaísmo, bom senso não significa timidez, moderação não se confunde com tibieza. Portanto, a grande conquista da maturidade mental não pode ser identificada como conformismo.


 
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