Relembrando antigas lições
Humberto Braga

É conhecida a frase do famoso sociólogo Vilfredo Pareto: "A História é um cemitério de elites". Ele não era socialista e sim um severo crítico de Marx. O que disse é bem simples: quando uma elite sai, outra entra. Sempre haverá uma elite. A igualdade social é impossível, porque toda sociedade é mais ou menos estratificada e o poder é apanágio de uma minoria. Isso foi também acentuado por Michels e outros cientistas políticos.
Exemplo de etite historicamente fossilizada foi a descrita por Marcel Proust no seu grande romance "Em Busca do Tempo Perdido". Para entender aquela aristocracia decadente (do fim do século XIX e começo do XX) deve-se remontar ao tempo em que ela exercia função dirigente. No século XVIII, a França detinha a hegemonia intelectual na Europa. Nela se processava importante desenvolvimento econômico e social: com amplo crescimento do capitalismo mercantll e financeiro e também incipiente capitalismo industrial. Nesse quadro despontou um grande movimento cultural, o Iluminismo, que substitula a tradição pela razão e questionava os antigos valores e crenças. Isso seria inconcebível num país econômico e socialmente atrasado daquele tempo.
Aqui cabe um parêntese. É absurdo concluir que a cultura seja um subproduto da estrutura econômica e social. Não se pode inferir que o desenvolvimento Intelectual num país seja determinado por aquela estrutura. Todavia não é preciso ser versado em Sociologia, mas apenas, razoavelmente, em História, para concordar em que o Iluminismo era impossível na França medieval, assim como o marxismo não poderia surgir na América Latina ou no mundo afro-asiático do século XIX. Sobretudo no campo sócio-político, as idéias são produzidas por fatores objetivos. Elas não vêm do céu nem da pura atividade dos neurônios cerebrais. Os seus conteúdos são inspirados por problemas materiais que se afiguram passíveis de soluções.
A aristocracia proustiana era ideologicamente pré-iluminista, saudosista do Antigo Regime que ruíra com a Revolução. Conservava, ainda, o prestígio e o brilho mundanos, porém, não tinha poder econômico nem político. O primeiro já estava nas mãos dos Schneider-Creusot, dos Fould, dos Rothschlld, etc. O segundo era exercido pelos Ferry, pelos Faure, depois pelos Poincaré, Clemenceau, Briand, etc. Como a restauração bourbônica era impossível, aquela elite se mantinha irredutivelmente conservadora. Odiava e temia as inovações operadas pelos republicanos, que culminaram na separação da Igreja e do Estado. O mero conceito de democracia era, para ela, uma aberração. Boni de Castellane tentou uma carreira política e até se elegeu deputado, mas não foi adiante. De um modo geral, a aristocracia francesa ficou à margem da Terceira República. Seus preconceitos e ressentimentos afloraram, ruidosos e amargos, no caso Dreyfus. Com raríssimas exceções, o faubourg Saint-Germain era maciçamente anti-dreyfusista. Ele foi o mais emblemático baluarte da Direita daquele tempo na França: monarquista, nacionalista, católica, largamente antisemita. Todavia os mais destacados defensores de sua causa, naquelas memoráveis polêmicas, Deroulède, Drumont, Barrés, não eram nobres. A velha aristocracia definhava. Mas essa massa, já em liquefação, serviu a Proust para esculpir a sua Opus Magna.
Se elite, ainda que substituível, é Inevitável, forçoso é reconhecer a perenidade das configuraçoes de Direita e de Esquerda, embora com diferentes, mutáveis, conteúdos sociais, econômicos e culturais no curso da História. Posto que em todas as organizações sociais complexas há fatores de permanência e de alteração, Direita e Esquerda necessariamente coexistem nelas e, sendo ambas inevitáveis, são, apesar de antagônicas, historicamente legítimas. Para ilustrar o caráter relativo dessas noções, basta um exemplo. Na Revolução Francesa, os monarquistas (Direita do tempo) defendiam o comando da economia pelo Estado, enquanto os revolucionários (Esquerda do tempo) reclamavam a completa liberdade econômica, bandeira da Direita de hoje. É ingenuidade supor que a ação política esquerdista seja um movimento de avanço contínuo, insuscetível de revezes e recuos. A Direita, muitas vezes, é vitoriosa. Mas, as restaurações são difíceis e, frequentemente, impossíveis. Nenhum gênio direitista de hoje tentaria restabelecer a escravidão, que a Direita do Império defendia. Democraticamente, é impraticável, no Brasil atual, abolir o divórcio, suprimir o sufrágio universal, o voto das mulheres, etc. Contudo, sempre pode haver colapsos e regressões num processo histórico. Isso é tanto mais verdadeiro quando os fatos não abonam a tese marxista de que a História tem um sentido único, necessário e previsível, imanente à ela. Todavia, não há dúvidas quanto ao que assinalei em Juízo e Circunstância, p. 25: "há menor desigualdade social entre patrões e operários, nos nossos dias, do que havia entre servos e senhores na Idade Média e estes, por sua vez, estavam em menor relação de desigualdade do que a existente entre patrfclos e escravos na Antiguidade".
É uma simplificação concluir que o objetivo permanente da Esquerda seja acabar com toda desigualdade social. Em verdade, qualquer movimento que se propuser abolir ou reduzir algumas desigualdades sociais vigentes no seu contexto, é esquerdista. Casar estava à esquerda de Catão e de Cícero (preclaros defensores dos privilégios do patriciado), porém jamais cogitou de extinguir o sistema escravista de Roma. Obviamente, a Direita é conservadora (manutenção do status quo social) ou reacionária (volta ao passado)

Vista apenas pelo ângulo psicológico, a História é ininteligível. Quem se interessar por ela, tem de atentar nos grandes fatos sociais da comunidade que estuda. São eles: os econômicos, jurídicos, religiosos, morais (costumes), linguísticos, entre outros. Esses fenômenos, não obstante só se manifestarem na mente individual, impõem-se a cada indivíduo, preexistem e sobrevivem a ele. Todos nascem, vivem e morrem num mundo regido por aqueles fatos. É claro que o indivíduo não é pura passividade, simples reflexo do meio social. Se assim fosse, a sociedade seria imutável. Além das maneiras sociais de agir, pensar e sentir, cada ser humano tem características pessoais genéticas e adquiridas e com elas escolhe e atua. Mas, as grandes transformações econômicas e sociais são resultado de ações coletivas, conscientes ou inconscientes. O desempenho de alguns indivíduos superdotados, ainda que muito importante, foi limitado, parcial, socialmente condicionado. Ninguém hoje, estudioso ou informado, acredita que o curso geral da História foi determinado por algumas personalidades destacadas no poder político ou econômico.
O grande Émile Durkheim alertou os intelectuais para essa realidade. Entre nós, o tema foi magistralmente tratado por Fernando de Azevedo. Alguns apontam Montesquieu como o precursor da Sociologia. Para os positivistas, Comte foi o seu fundador. A meu ver, os gigantes dessa ciência social foram Marx, Durkheim e Weber, bem divergentes nos planos filosófico, Ideológico e político. A maior contribuiçao do primeiro para a Sociologia do Conhecimento está sintetizada na famosa frase: "Não é a consciência que determina a vida, é a vida que determina a consciência". Os sociólogos de hoje, embora, na sua grande maioria, descrentes das profecias marxistas, reconhecem que aquela máxima revelou a llusão da filosofia idealista.


 
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