O conhecimento histórico
Humberto Braga

Muitos consideram o conhecimento histórico um saber desinteressado, matéria de pura ilustração. Trata-se de completo equívoco. O conhecimento histórico é o fundamento de todas as ciências sociais. E quem almejar ser cientista social, isto é, formulador de teorias e de diretrizes que irão influenciar as decisões, e não mero tecnocrata, executor de decisões, deve conhecer a História. Se nos voltarmos para o debate mais importante de nosso tempo, o que opõe marxistas e anti-marxistas, verificaremos que só através da investigação histórica será possível lançar luz sobre problemas como o do primado do fator causal econômico, o da maior ou menor autonomia das chamadas superestruturas ou o da sucessividade necessária de determinados modos de produção: escravista, feudal, capitalista, etc. Só pela pesquisa histórica poder-se-ão extrair conclusões corretas ou plausiveis sobre a importância do indivíduo no processo social (objeto de debate entre a concepção heróica de Carlyle e a fatalista de Spencer, dois pontos extremos), a excelência do governo pela elite intelectual, a existência ou a inexistência de progresso moral, etc. Enfim, só a história pode e lucidar o problema da mutabilidade ou imutabilidade da natureza humana. Isso não é questão puramente filosofica ou antropológica. Todo o edifício doutrinário da economia clássica e neo-clássica se apóia numa determinada noção da natureza humana (homo economicus).
A ciência social só é erigível sincronicamente pela pesquisa antropológica e diacronicamente pela investigação histórica.
O magno problema que a Históric a suscita é o de saber se ela tem uma finalidade, um plano, um sentido, imanente ou transcendente, ou se se esgota na repetição ou no acaso. Haverá ou não leis históricas? Pode-se falar corretamente em causalidade histórica? Que é importante na História, o porque ou o como?
A teoria evolucionista foi, em nossa civilização, criada pelos judeus. Segundo ela o destino da comunidade implicava desenvolvimento e ascensão. Acolhida pelo cristianismo, que magnificou a transcendência, apresentando o drama terreno como prelúdio da eternidade, foi ela retomada por Bodin, Vico e pelos iluministas do século XVIII. Estes dessacralizaram a História, substituíram o plano divino pela Razão e introduziram a noção de progresso continuo. O evolucionismo progrediu com as concepções de Turgot, Kant, Herder, Comte , Hegel e Marx. Paradoxalmente, outros pensadores "historicistas" como Burke, de Maistre, etc, apelaram para a História atribuindo lhe função política de caráter conservador ao exaltarem a tradição, o espírito nacional, a permanência ou a ressurreição dos antigos valores.
A teoria cíclica se deve aos gregos e sobreviveu nos tempos modernos nas concepções de Nietzsche (o eterno retorno), de Spengler, de Sorokin e, até certo ponto, de Toynbee.
Em apoio aos evolucionistas, cumpre acentuar que não são observáveis a repetição fundamental, estrutural do drama social e a não-transmissibilidade e não-cumulatividade final dos produtos sociais da cultura. Do ponto de vista cultural, as sociedades não são espaços cerrados e incomunicáveis, mas transmitem a outras seu legado.
Seja como for, uma conclusão se impõe: não existe História puramente objetiva, como se fora uma ciência exata. Desde que ela importa necessariament e em seleção e interpretação, só há conhecimento histórico em perspectiva, isto é, através da visão do mundo do historiador. Esse relativismo não invalida o saber histórico, de vez que ele é inevitável em todas as chamadas ciências sociais. Não há neutralidade em História como não há liberdade de opinião em Astronomia. O elenco dos fatos irrecusáveis pertence ao campo da microhistória ou historiografia. Seu significado para o conjunto da sociedade é o apanágio da História.


 
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