Adam Smith e o seu tempo
Humberto Braga

Na obra magna de Adam Smith, A Riqueza das Nações, que lançou os fundamentos da ciência econômica do Ocidente, não é difícil perceber a influência do Sistema de Newton. Assim, o capital e o trabalho gravitam em torno dos empregos e localizações melhor remunerados, enquanto os produtos gravitam em torno dos melhores mercados.
Smith é um racionalista, mas não advoga o racionalismo absoluto, guiado pela mera dedução e fundado na lógica pura e simples. Como insular que foi, Smith escapou ao ultraracionalismo dominante entre tantos discípulos de Descartes e abriu seu espírito às influências do empirismo britânico, que tão fecundo se mostrou para a ciência moderna. Assim, racionalismo e empirismo se associam e se conjugam na obra do grande mestre escocês.
À primeira vista, o mercado, tal qual o apresentou Smith, tem muito de assemelhável, pelo seu caráter mecânico, a um fenômeno físico. Nele sobressaem o automatismo, a regularidade e a imutabilidade da mecânica. E a contribuição teórica mais importante oferecida por Smith à Economia foi a tese do mercado auto-regulável e auto-sustentável. Conhecemos seus fundamentos. Smith libertou-se da metafisica dos fisiocratas, expressa na Ordem Providencial, para descobrir outra modalida de de Providência, nascida não da vontade divina e sim da urdidura do mercado.
Bernard de Mandeville, pensador holandês, que viveu na Inglaterra do século XVIII, sustentou em "A Fábula das Abe lhas", que muitos vícios privados poderiam, eventualmente ser virtudes públicas. Essa tese cínica readquiriu alento na teoria smithiana da "mão invisível", pela qual a busca de satisfação dos interesses individuais deverá resultar, graças ao mecanismo do mercado, no benefício comum. E a grande regulação mercantil da oferta e da procura equilibra preços e quantidades das mercadorias, do capital e do trabalho, num todo harmonioso que deverá existir indefinidamente. Melhor será dizer deveria, pois Smith tem consciência do perigo representado pelos monopólios, que eliminariam a condição sine qua non do mercado milagroso: a concorrência perfeita. Existiu alguma vez a concorrência perfeila? Certamente que não. Contudo, ao tempo de Smith, a concorrência era menos imperfeita do que no moderno capitalismo monopolista. E ai se revela um grave erro dos clássicos: a confusão entre concorrência e liberdade econômica. Pois a evidência histórica demonstrou não ter sido a intervenção do Estado e sim o abuso da liberdade econômica que engendrou o monopólio e destruiu a concorrência.
Dessa conclusão salta aos olhos o segundo grande erro da concepção de Smith. Sua economia é puramente estática. Falta-lhe qualquer sentido de transformação estrutural. Seu desenvolvimento é puramente quantitativo, movido pelas leis da acumulação.
A análise da acumulação econômica foi uma notável realização de Smith. Uma conveniente taxa de juros induzia os cidadãos a aplicar suas poupanças na produção de mercadorias. Desgraçado, então, de quem não acumulasse. Ficaria inevitavelmente para trás na corrida interminável da riqueza. Note-se que Smith não distinguia entre poupanças e investimentos. Observe-se por igual que, naquele tempo, o acúmulo de máquinas exigia maior número de trabalhadores. A máquina não liberava mão-de-obra como nos nossos dias. Isso quer dizer que o incremento da acumulação provoca aumento de população. Mas o mercado tudo equilibrava. Se a população estivesse reduzida, acumulação criaria a exigência de maior número de operários para as máquinas produzidas. Os salários cresceriam e, com eles, a população. Mas, em dado momento, a oferta de trabalho ultrapassaria a requerida pelo mercado, om o que os salários inevitavelmente tenderiam a baixar. O mesmo mecanismo se aplicaria ao capital. Este afluiria para as indústrias melhor remuneradas, isto é, que oferessem mais lucro. Todavia, seria precisamente esse afluxo que acabaria por transformar o lucro em rendimento decrescente. E também os preços das mercadorias nunca poderiam estar muito acima ou abaixo do preço natural, determinado pelo custo de produção.
É fácil de ver quão diferente do mundo harmonioso, otimista, cosmopolita, estático de Smith é o mundo de nossos dias, onde avultam o neo-mercantilismo, o protecionismo tarifário, a autarquia econômica, o monopólio, a intervenção esta tal, a organização sindical, os imperativos da segurança nacional, etc.
Nada disso diminuiu a imensa contribuição teórica de Adam Smith, que tanta luz lançou sobre o mundo em que viveu, podendo com justiça ser considerado fundador e chefe da Escola Clássica.

Revista do Tribunal de Contas do Estado do Rio de Janeiro

 
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