A ascenção do Individualismo
Humberto Braga

O individualismo, como ideologia, macrovisão do mundo, surgiu no Ocidente, nos chamados Tempos Modernos, isto é, na era pós-medieval. Para ele contribuiu decisivamente o capitalismo, modo de produção centrado no mercado, nas suas formas históricas: mercantil, industrial e financeira. Mercado sempre existiu, mas a sociedade centrada no mercado só se implantou no Ocidente, após o declínio do feudalismo.
O ethos do capitalismo é eminentemente individualista. Isto está bem claro na Bíblia do individualismo econômico, "A Riqueza das Nações", do genial Adam Smith. Para muitos essa obra figura, ao lado da "Origem das Espécies", de Darwin, e do "O Capital", de Marx, entre os mais importantes livros da civilização ocidental. Há quem sugira que Smith teria se inspirado na "Fábula das Abelhas", de Bernard de Mandeville, na qual se expõe a tese cínica de que muitos vícios privados podem vir a serem, eventualmente, virtudes públicas. Smith sustentou que os interesses pessoais dos indivíduos resultariam, pela "mão invisível" do mercado, em benefício coletivo. E essa "mão invisível" consiste na concorrência. Então a iniciativa individual e a competição são a mola mestra do sistema capitalista e, consequentemente, a garantia da prosperidade nacional. Não pode haver fundamentação mais vigorosa do individualismo do que esta que considera danosa a intervenção do poder público na economia.
Muitos observadores apontaram os Estados Unidos como um país em que o grupo tende a anular o indivíduo. Esta era a opinião de Freud. Já no século XIX, Tocqueville, no seu grande livro "A Democracia na América", reconhecendo que o "individualismo é a tendência natural das democracias", assinalou o marcante comportamento associativo dos americanos. E, no século XX, Sinclair Lewis (ele próprio americano) caricaturou impiedosamente, em "Babbitt", a feição gregária e conformista da classe média de seu país. Tudo isso contribuiu para a convicção de muitos de que a sociedade nos Estados Unidos é massificada. Todavia, tanto a ideologia política quanto a filosofia pessoal da maioria dos americanos são profundamente individualistas. Sua nação não foi construída por um Estado (como foi o Brasil) e sim pelos migrantes que fugiam do Estado britânico e da Igreja anglicana. Até hoje o estatismo é olhado com desconfiança pela maioria dos americanos. E nunca houve um movimento socialista importante naquele país.
Os Estados Unidos são a pátria do "self made man", do "American dream" que acena com a possibilidade de qualquer pobre, pelo seu esforço individual, tornar-se milionário. Essas ideias e imagens seriam inconcebíveis na Idade Média, na Antiguidade, nas Civilizações Orientais, para não falar nas culturas indígenas. Na sociedade medieval praticamente todos os indivíduos eram integrantes de uma instituição, de uma corporação. Nem entre mendigos e criminosos poderia haver receptividade para pregações individualistas.
Outro fator que muito corltribuiu para a difusão de individualismo foi a Reforma protestante. "Ela substituiu, na exegese dos textos bíblicos, a autoridade da Igreja Católica pelo livre exame individual. Recorde-se a famosa obra de Max Weber, "A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo". A Igreja romana sempre pregou o total conformismo às suas interpretações dos livros sagrados. Liberdade de consciência era heresia. Os reformistas dispensaram a sua intermediação entre Deus e os homens.
Enfim, o Renascimento, o Humanismo, o Iluminismo, o Liberalismo político, o Jusnaturalismo, o Contratualismo, todos fenômenos marcantes da modernidade ocidental, também concorreram para o nascimento e a ascensão do individualismo.
Eventuais leitores deste texto poderão criticá-lo pela ênfase que foi dada a verdades bem sabidas e portanto banais. Mas acontece que muitas pessoas (talvez a maioria) não se dão conta de que, na maior parte da História, os indivíduos não foram individualistas.

Revista do Tribunal de Contas do Estado do Rio de Janeiro, 01/09/2009

 
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