Vicissitudes do moralismo
Humberto Braga

Um ensaísta imaginoso acenou com o fim da História, mas talvez não seja disparate entrever um fim de civilização. Muitos são os signos dessa crise: a ruína do socialismo real, a recessão assolando as antes mais prósperas economias, a inflação desafiando todas as teorias e resistindo a todas as terapêuticas, a ameaça crescente ao ecossistema, o surto inquietante da Aids e o retorno de velhas pragas, a escalada exponencial do narcotráfico, o declínio das religiões tradicionais tanto no mundo cristão quanto no islâmico etc.
No Brasil, a crise é apresentada como essencialmente moral. A tese é antiga e bem conhecida. Para seus defensores, a subversão dos valores éticos é a causa dos nossos grandes males sociais, econômicos, institucionais ou políticos. E há 40 anos os advogados dessa ingênua visão da História travam uma frustradora e às vezes inglória luta pelo moralismo, que é a caricatura demagógica da moral. Frequentemente, eles confundem causa e efeito, meio e fim. Não atentam para que, na vida pública, moralidade deve ser fundamento e não finalidade. Ponto de partida e não de chegada. Para ser praticada e não proclamada.
Os supremos fins do governo são, ou deveriam ser, desenvolvimento econômico, bem-estar social, liberdade política, redução das desigualdades de classes, eficaz administração dos conflitos. Muitas vezes isso foi escamoteado pela cortina de fumaça moralista, tal como o afetado puritanismo sexual dos "barões ladrões" americanos, no século passado, encobria seus crimes contra o interesse público. Esse moralismo delirante tem sido funesto para a estabilidade democrática em nosso país, desde quando o presidente Vargas foi levado ao suicídio como responsável (indireto) por um "mar de lama" que, em comparação com o de nossos dias, parece perfume francês.
Depois, emergiu um taumaturgo extravagantemente exibicionista, avesso a partidos, programas ou ideários definidos, que se elegeu fazendo da vassoura a bandeira. Seus projetos cesaristas sossobraram numa tentativa bisonha de golpe, e o regenerador dos costumes acabou deixando aos herdeiros um patrimônio de origem obscura. Também a quimera da democracia "ideal", expurgada para sempre dos maus elementos animou alguns revolucionários de 64. O lema era: extirpar a corrupção. O melancólico desfecho desse sonho foi ilustrado pelos escândalos da Capemi, Coroa Brastel, Delfim, Sunaman, entre outros. Tudo isso faz lembrar a advertência profética do grande jornalista revolucionário Camille Desmoulins: "Cuidemo-nos de misturar política e regeneração moral. O moralismo é fatal à liberdade." (Desmoulins foi guilhotinado pelo virtuoso Robespierre.)
O último surto de salvação moralista, entre nós, irrompeu sob a liderança carismática de um jovem político dinástico, que prometia mudar rápida e radicalmente "tudo que aí está", isto é, a velha política. A fase heróica, eletrizante, de seu governo já passou. De sensacional agora só o elenco inesgotável, a torrente ininterrupta dos escândalos. Eles se sucedem tão celeremente que o último, tal como nos testamentos, apaga o imediatamente anterior. Instauram-se os inquéritos, mas é improvável que alguém vá para a cadeia, por longo
tempo. O crime de corrupção é difícil de provar, pois, como lembrou o presidente da OAB, só se configura no caso de flagrante ou documento inequivocamente comprobatório. O Código Penal pune com a mesma pena a corrupção passiva e a ativa. Ninguém se declara-subornador. Cadeia para os grandes corruptos é querer demais. Mantê-los longe do poder já seria satisfatório.
Mas o Brasil de hoje serviria de modelo para as criações de Kafka e Orwell. Em face do rumoroso escândalo envolvendo o ex-ministro do Trabalho, o titular da Justiça descarregou sua indignação sobre o denunciante, a quem chamou de desleal e delator. Condenou a delação e silenciou sobre a conduta do ex-colega que confessara haver submetido um subordinado ao "teste heterodoxo de honestidade"! E isso apesar de o presidente ter repetidamente exortado os cidadãos a denunciarem as irregularidades de que tivessem ciência. No alto escalão governamental admite-se que havia conhecimento de denúncias contra o Ministério mas não contra o ministro...
O presidente sofre com essas vicissitudes. Sente-as como uma "faca no coração". Por muitíssimo menos, Vargas meteu uma bala no dele. Naquele tempo os arautos do moralismo não foram indulgentes com o suicida. Diziam que ele fizera justiça com as próprias mãos. Mas alguns sobreviventes daquela época não julgam com tanto rigor o desempenho do atual presidente. Se as coisas não saíram como esperavam, a culpa foi do Congresso, do Judiciário, da Constituição, dos empresários, dos sindicatos, da imprensa, de dona Zélia etc. E, assim, os fiéis moralistas continuam a venerar seu ídolo em homenagem à pureza das intenções. Enfim, uma longa novela, na qual mudam os atores mas não muda o tema. Quando será o próximo capítulo?

Jornal do Brasil, 13/03/1992

 
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