Quem traiu?
Humberto Braga

Em qualquer país democrático, se o plano do governo não se ajustar à Constituição ele é abandonado. No Brasil mantém-se o plano e muda-se a Carta Magna. Não admira que passada a era das medidas provisórias sobrevenha a das Constituições provisórias.
Passando do Brasil à URSS, é o caso de perguntar-se: quem traiu a Revolução de Outubro? Culpar Gorbachev ou Yeltsin seria incorrer no reducionismo individualístico repelido pelos marxistas e pelos sociólogos e historiadores em geral. Os erros de Luís XVI foram importantes no que tange ao curso da Revolução Francesa mas não foram a sua causa. A perestroika não nasceu do arbítrio de Gorbachev. Foi produto da realidade soviética.
Yeltsin é presidente da Rússiá pelo voto do povo. E foi o povo (alfabetizado) de Leningrado que pela sua maioria sancionou a troca de seu nome pelo da czarista São Petersburgo. Conclusão: o povo traiu a Revolução (as motivações não podem ser abordadas aqui). E como não é possível mudar o povo, forçoso é mudar o modelo por ela criado e agora rejeitado após 70 anos de vigência com superdoutrinação: socialismo estatal, propriedade pública dos meios de produção, planificação central da atividade econômica e marxisrno-leninismo como dogma na ação política.
Cabe então aos críticos do capitalismo a tarefa de repensar o socialismo para a construção de um novo modelo, de vez que a incerta subsistência do velho em alguns países atrasados econômica e tecnologicamente não pode atenuar os efeitos desastrosos da sua renegação na pátria de Lênin. O caminho da revolução é impensável, na atualidade. É óbvio que o sistema que hoje se entende como capitalismo não é "eterno". Só é eterno o que for imutável, tal como uma substância simples que não tivesse partes. Se o capitalismo é reformável não pode ser "eterno". E foi pelo caminho das reformas (e não das revoluções sociais) que a maioria dos países europeus transitou do feudalismo para o capitalismo.
No século 14, certamente os barões feudais da Alemanha ou da Suécia acreditavam estar vivendo "no fim da história". O capitalismo de hoje é muito diferente do da belle époque. Conflito e mudança são inerentes a sociedade, não porém revolução. O que ninguém pode é adivinhar o que, como e quanto virá na sucessão do capitalismo.
A União Soviética sobreviverá? Parece que sim, pois é grande a interdependência econômica de suas repúblicas. Não é provável que nela se instale um capitalismo real. Lá o Estado ainda é dono de tudo, não há poupança, nem empresariado, nem experiência de mercado, nem consenso popular pró-capitalismo. Prepondera em seus quadros dirigentes uma mentalidade burocrática e estatólatra que remonta ao czarismo, quando existia um capitalismo de Estado. Não é crível que os soviéticos cedam suas empresas ao estrangeiro, nem há capital estrangeiro disponível para essa temeridade. A tentativa de privatizar em larga escala a economia desencadearia crises piores do que a atual.
O mais provável será a emergência de uma ainda indefinível economia mista, buscando conciliar mercado com a predominância da propriedade coletiva. Como funcionará é impossível prever, mas é duvidoso que erija a igualdade social como objetivo prioritário. Este, presumivelmente, seria a eficiência produtiva. Aliás, propriedade pública não implica igualdade social. Igualitários não foram os Impérios Egípcio ou Inca, nos quais não havia propriedade privada dos meios de produção. Também não é concebível que a nova União Soviética sustente a bandeira da revolução internacional proletária.
O terror stalinista foi explicado como acidente de percurso, mas agora é remota a probabilidade da experiência soviética recuperar sua magía para servir de roteiro aos trabalhadores do mundo. De tudo se conclui que não há determinismo e sim possibilismo no processo histórico. A crença numa história "progressiva", de sentido único e, pois, inevitável, está sendo infirmada pela realidade.

Jornal do Brasil, 01/10/1991

 
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