A esquerda viável
Humberto Braga

O malogro do socialismo real, isto é, o que nasceu na Revolução de Outubro de 1917 e se consolidou com base na planificação central da itividade econômica e na extinção da propriedade privada dos meios de produção, fez da revolução comunista uma impossibilidade no plano da política e um contra-senso no plano da razão. A revolução social no Primeiro Mundo já era implausível em face da integração do proletariado - suposto agente da transformação histórica, segundo o marxismo – no sistema econômico e social.
No Terceiro Mundo, onde aquela classe é débil, ela se tomou impensável, pela ausência de dispositivo de substituição. Com efeito, não é concebível que alguém se disponha a destruir a atual estrutura social daqui para substituí-la por um modelo ora rejeitado e repudiado na sua própria matriz. Pois é um fato irrecusavel que o marxismo-leninismo, como exclusivo instrumento da ação política, o planejamento central, a gestão estatal, a agricultura coletivizada estão sendo alvo de crescentes críticas na União Soviética. E, em contrapartida, avoluma-se o coro de louvores à economia de mercado, à competitividade, ao investimento do capital estrangeiro, ao pluralismo ideológico e partidário e até à propriedade privada.
Ninguém pode prever se a perestroika terá ou não êxito, mas, se o tiver, atingirá a suprema idéia-força do socialismo que é a da igualdade. Leia-se o que preconiza Agabenkian, o economista inspirador de Gorbachev, no seu livro sobre a economia soviética. Ele prega ardorosamente a competição entre as empresas. Qual seria o resultado disso no plano social? A experiência demonstra que a competição melhora os produtos, mas desiguala os produtores. Só os fanáticos do neoliberalismo ousam sustentar que a competição do mercado foi a responsável pela boa distribuição da renda nos países do Primeiro Mundo. A evidencia histórica revela que esta se deveu sobretudo às políticas tributária e previdenciária do Estado, à ação dos sindicatos etc. Portanto, o socialismo real morreu e o socialismo de mercado ainda não nasceu. Não sabemos como ele será, mas, se vingar, pode-se ter a certeza de que sacrificará a igualdade à eficiência produtiva.
Então, perguntamos, revolução social para quê? Pois não basta derrubar o capitalismo, que aliás não é um sistema estático. Tem de ser colocado outro no lugar dele. Que sistema será este? Por conseguinte, se o capitalismo não pode ser substituído pelo socialismo conhecido, ó único caminho trilhável pelos seus críticos é o da sua reforma, no sentido de reduzir progressivamente as desigualdades sociais. É isto o que propõe a social-democracia e é isto o que a converte no único movimento político de esquerda viável, na atualidade.

Jornal do Brasil, 30/07/1991

 
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