França e Rússia: duas revoluções
Humberto Braga

Os estudiosos têm assinalado as similitudes entre as Revoluções Francesa e Russa. Podemos enumerar algumas delas: 1ª) Em ambos os países houve duas revoluções embutidas no mesmo movimento histórico: na França, a constitucional de 1789/92 e a republicana de 1792/94; na Rússia, a anticzarista de Fevereiro e a bolchevique de Outubro de 1917. 2ª) Também em ambos os países, a eclosão revolucionária surpreendeu a todos. Ninguém na França, em janeiro de 89, ou na Rússia, em janeiro de 17, antevia iminente subversão e subsequente queda da monarquia. O que aconteceu em julho de 89 e em fevereiro de 17 não obedeceu a um planejamento insurrecional, pois foi inesperado para os próprios lideres da oposição ao absolutismo. 3ª) Naquelas ocasiões houve um colapso do aparelho repressivo do antigo regime. O governo do rei dispunha de forças para esmagar os amotinados de Paris, mas não se decidiu a usá-las. Os regimentos enviados pelo czar aderiram, um após outro,aos agitadores de Petrogrado, e os próprios cossacos não se animaram a reprimir o tumulto que começara com uma manifestação de donas-de-casa reclamando pão. 4ª) A dualidade de poder observou-se nas duas grandes convulsões políticas. Na primeira Revolução francesa (1789/92), a autoridade se dividiu entre a monarquia abalada e a Assembléiam Nacional Constituinte, a que se seguiu a Legislativa; na revolução de 1792/94, a Convenção Nacional teve seu poder ameaçado permanentemente pela Comuna de Paris. Após a Revolução Russa de Fevereiro de 17, o Governo Provisório se viu limitado e cerceado pelos Sovietes de operários e soldados. 5ª) Nos dois episódios históricos, após o triunfo sobre o antigo regime, os moderados, combatidos pela direita e pela esquerda, foram expulsos do poder pelos extremistas da última. Na França, os monarquistas constitucionais cederam lugar aos republicanos moderados (girondinos), que, por sua vez, foram liquidados pelos jacobinos (montanheses). Na Rússia, a coalizão de liberais, mencheviques e socialistas revolucionários sucumbiu ante o assalto bolchevique. 6ª) Também o Terror, em ambos os países, decorreu da guerra civil e da ameaça estrangeira. Foi condição necessária mas não suficiente para a conservação dos extremistas no poder. Os bolcheviques triunfaram, mas os jacobinos caíram com Robespierre, em 1794. 7ª) Antes, naquele ano, Robespierre abateu, sucessivamente, à esquerda, a facção dos "exagerados" (Hébert) e, à direita, a dos "indulgentes" (Danton). Após a morte de Lênin, Stálin destruiu a Oposição de Esquerda (Trotsky) e, logo depois a Oposição de Direita (Bukharin). 8ª) As semelhanças vão até as personalidades dos soberanos. Trotsky fez um notável paralelo entre Luis XVI e Nicolau II e suas respectivas mulheres, todos igualmente exterminados.
A grande dessemelhança consistiu na inexistência na França (de 1789/94) de um partido como o bolchevique e de uma liderança como a de Lênin. Este percebeu o que Marx não viu: a classe operária jamais faria a revolução. Ela só poderia ser realizada por um partido, como ele fundou, de revolucionários profissionais, com o fervor de jesuítas e a dureza de espartanos, iluminados pela fé ideológica e guiados por disciplina férrea. Nem os monarquistas constitucionais Mirabeau e Lafayette, em 89/92, nem os jacobinos Robespierre, Danton ou Marat, depois, tiveram influência sobre o curso dos acontecimentos assemelhável à de Lênin. Também a autoridade e a eficiência do Comitê de Salvação Pública jacobino não podem comparar-se às do Comitê Central bolchevique. A Revolução de Outubro de 17, concordam todos os historiadores idóneos, foi fruto da determinação de um homem. Ele fundara o partido bolchevique e, ao voltar à Rússia, após a queda do czarismo, teve que disputar com todo o seu Comitê Central, em exaustivos debates, até convencê-lo a combater o Governo Provisório. Enfim, ele decidiu o momento da insurreição. Se o trem blindado, que o trouxe à pátria, houvesse sofrido um acidente, "O Grande Outubro" não teria ocorrido. Foi uma ironia que o próprio Trotsky, um marxista, que acreditava no determinismo histórico conduzido por causas impessoais, objetivas, materiais, como a luta de classes, a ação das massas e a contradição entre as forças produtivas e as relações de produção, tivesse que admitir, na sua, História da Revolução Russa, a insubstituibilidade de Lênin. Não se percebe a influência decisiva de um indivíduo na queda do lmpério Romano, nas Revoluções Comercial e Industrial, nem nas Revoluções Inglesa, Americana, Francesa ou Russa de Fevereiro. Ela iria patentear-se de modo desconcertante na Revolução de Outubro para perplexidade dos marxistas ortodoxos. A União Soviética reconhece isso ao colocar a múmia de seu criador permanentemente exposta à adoração dos peregrinos, no santuário da Praça Vermelha. A maior façanha dos bolcheviques não foi a tomada do poder por um partido minoritário no seio da própria classe operária e sim a de conservar-se nele, o que não aconteceu com os jacobinos. Isso não se deveu apenas ao Terror, também empregado pelos predecessores franceses. Sua vitória foi sobretudo a da organização partidária e a da liderança capaz, que, pondo fim à guerra e repartindo as terras, atraiu para os vermelhos o apoio da maioria camponesa do imenso pais.
Um adendo: afirma-se agora que a burguesia não teve importância na Revolução Francesa. Os Estados Gerais de 1789 compunham-se de nobreza, clero e terceiro estado. Este último - vanguarda da insubmissão - representava interesses de que classe social? Quem se beneficiou com a abolição dos direitos feudais? Quem adquiriu os bens confiscados dos nobres e do clero? A quem principalmente serviu o Código de Napoleão? Diz-se ainda que a França pós-revolucionária estava mais fraca do que a de 1789. Como explicar então que aquele pais, sob o antigo regime, no século XVIIl, perdesse todas as suas guerras, enquanto, sob Napoleão, levasse seus exércitos a Moscou, Lisboa e Nápoles, sendo preciso que todas as demais nações da Europa se unissem, num tremendo esforço, para subjugá-lo?

Jornal do Brasil, 25/07/1989

 
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