Passagem pela Índia
Humberto Braga

Com o título Passagem para a Índia, o escritor inglês E. M. Forster publicou, em 1924, um livro que teve muito sucesso. No curso de recente viagem por aquele país, acudiu-me a definição bem conhecida de que o Brasil de hoje é uma Belíndia, isto é, uma Bélgica incrustada numa lndia. A circunstância de a grande maioria da crescente população brasileira viver em alarmantes níveis de pobreza justifica a imagem e também as inquietações pela nossa estabilidade social e política. Todavia a situação objetiva da India é bem mais grave e assim mesmo lá não se esperam grandes convulsões sociais, embora naquele país não seja tão ostensivo um enclave belga como o de cá. Então, se lá as condições são piores e não se prevê a revolução, por que iria ela eclodir aqui? Eis um caso típico no qual as condições subjetivas, culturais, preponderam sobre as objetivas e infirmam o determinismo sócio-econômico. A Índia tem uma civilização de 4.000 anos de conformismo e até mesmo de quietismo. Isso está patenteado no sistema de castas, na submissão à lei do Karma, no respeito a tradições multisseculares e costumes imemoriais, na metafisica idealista que chega à negação da realidade exterior (o véu ilusório de Maya), nas místicas de evasão e de solidão, de que são exemplo os iluminados, os iogues, os homens santos (sadhus). Essa cultura de espiritualidade intensa e passividade enigmática foi, sem dúvida, um dos fatores que facilitaram a dominação do imenso país, por quase 200 anos, pela Inglaterra que, embora não possuindo exército permanente, conseguiu esse prodígio sem o emprego de grandes efetivos militares e sem enfrentar sérias rebeliões à exceção da dos Cipaios, em 1857. E quando, afinal, apareceu o herói da independência, Gandhi, veio sob a bandeira da não-violência, na trilha aberta há mais de um milênio pelos jainistas que recusam matar até os insetos daninhos. Tudo isso contém muito de generalização. A Índia também tem ou teve os sinistros adoradores de Kali, a deusa da morte, os temíveis thugs que praticavam o homicídio ritual, os terroristas fanáticos que assassinaram Gandhi e Indira Gandhi, os sikhs belicosos. Mas o povo, de um modo geral, é o menos pragmático e "materialista" do mundo. Para a mentalidade tradicional indiana a lógica é um produto arbitrário da mente limitada e estreita dos ocidentais que nada tem a ver com a verdade. Foi com os olhos na Índia que Rudyard Kipling afirmou: "Ocidente e Oriente jamais se encontrarão".
E agora em 1989 um dos seus mais eminentes pensadores, Ashis Nandy, em declarações feitas a Guy Sorman, transcritas no livro Les Vrais Penseurs de Notre Temps, condenou incisivamente o "mito" do desenvolvimento econômico tal como o entendemos e a própria idéia de modernização. Nandy censura na civilização moderna o primado do indivíduo sobre a metafisica, da História sobre a eternidade, do progresso sobre a tradição, dos valores viris sobre a sensibilidade e repele a Revolução como uma idéia ocidental. Termina recomendando uma economia de frugalidade. Lembre-se, aliás, que Gandhi também repudiava a civilização industrial e a moderna tecnologia. E o Partido Comunista, a despeito de uma administração modelar no estado de Kerala, continua irrelevante como força política.
Assim é a Índia. E o Brasil? Na maioria da sociedade brasileira de hoje não se cultiva a memória histórica, não se preza a tradição, não se nutre amor pelo passado, não se encoraja a lealdade às instituições, não há solidez ou estabilidade dos costumes. Se se fizer uma pesquisa nos círculos da chamada classe média e até mesmo nos universitários, verse-à que poucos sabem quem era o presidente da República deposto pela Revolução de 1930. O Brasil parece um corpo social extremamente instável; onde tudo pode acontecer e no qual já são visíveis os sinais de inconformismo social e cultural. Como remédio, acena-se para o tão prometido desenvolvimento econômico. Mas sabemos, por experiência própria, que ele nem sempre se reflete rapidamente, em bem-estar social. Fala-se em redução das desigualdades sociais e econômicas. Será ela efetuada pela pura racionalidade do mercado - que pressupõe real poder aquisitivo da grande maioria da população - ou também pelo recurso à ação do Estado? O tempo é curto para essas opções e o erro histórico poderá ser funesto para as nossas esperanças de liberdade, prosperidade e justiça.

Jornal do Brasil, 24/12/1989

 
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