Do sonho à quimera
Humberto Braga

Presumivelmente todos, dentro ou fora da URSS, se alegrarão com a evidente e progressiva liberalização política naquele país, embora, na opinião de Gorbatchov, ela represente uma catástrofe ideológica para os "falcões" ocidentais.
Se é indubitável que a União Soviética está em processo de democratização, cumpre fazer uma distinção entre o sentido de democracia naquele país e no Ocidente, tal como concebida desde os tempos de Locke. Neste a democracia é um valor per se, um fim em si mesma e não simples processo para alcançar determinados objetivos políticos, sociais ou econômicos. Na URSS, Gorbatchov deixou bem claro que a democracia é um método e o único que lhe parece eficaz para executar a perestroika.
O lúcido líder soviético percebeu que jamais lograria remover a pesada estrutura do sistema do seu país, atuando apenas no âmbito do Partido Comunista, coluna basilar da burocracia. Gorbatchov se deu conta de que não teria condições de desencadear uma revolução de cima para baixo no molde de seus terríveis predecessores Stalin e Pedro o Grande. Cabia-lhe, então, fomentar uma opinião pública, criar uma sociedade civil para nela encontrar amparo e estímulo.
Até há pouco tempo, na URSS, o Estado monstruoso, leviatânico e onipresente tolhia e sufocava o desenvolvimento da sociedade civil. Esta, como entendia Hegel, é aquela porção do organismo social que não é constituída pelo Estado e, portanto, independente dele. A democracia gorbatchoviana tem, pois, caráter instrumental. Para provar isso, basta uma citação: "A própria perestroika só pode ser consumada através da democracia." ("Perestroika", pág.23).
A perestroika despertou entusiasmo em muitos marxistas-leninistas brasileiros. Contudo, deveria suscitar desapontamenta e desconsolo pois ela representa o dobre de finados do internacionalismo operário. No livro de Gorbatchov a estratégia soviética se patenteia com rutilante evidência (só não a percebem os clarividentes guerreiros frios do Brasil para os quais a perestroika é manobra para desestabilizar o Ocidente...).
Disposto a pôr fim à estagnação econômica e cultural da URSS, Gorbatchov se mpropõe fazer uma gigantesca revolução. Quer nada menos do que golpear a imensa burocracia, substituindo a planificação central por empresas autogeridas e autofinanciadas. Isso significa confronto com a nomenklatura, até agora a indisputada casta dirigente do seu país. Para ativar a economia, ele propõe que os preços reflitam os custos e não as decisões dos planejadores. Isso acarretará descontentamento dos consumidores, pelo inevitável aumento dos preços, e também dos privilegiados que ganham mais (os marajás russos), por implicar redução da renda real.
Para levar a cabo tão colossal empreendimento, mais arriscado do que o realizado por Stalin ao efetuar a coletivização agrícola, Gorbatchov terá de pôr termo à corrida armamentista e sabe que esta só poderá ser terminada ou contida por um concreto entendimento com os Estados Unidos. O preço desse acordo será o fim da expansão comunista. Eis por que, nas páginas de "Perestroika", o legendário lema "Trabalhadores de todos os países, uni-vos" foi substituído pelo de "cada um por si". Agora, quem quiser se lançar à aventura revolucionária terá de contar exclusivamente com as próprias forças sem o arrimo do "bastião do socialismo mundial". Foi a alegação de salvaguardar aquele precioso bastião que levou, no passado, muitos intelectuais marxistas a justificarem todas as oscilações e contradições da política exterior soviética mesmo em detrimento dos trabalhadores de seus próprios países. O internacionalismo proletário, que tão devastadores golpes sofreu com as duas guerras mundiais, foi arquivado por tempo indeterminado.
Para os soviéticos, a Revolução, que já é impossível no Primeiro Mundo, passou a ser indesejável no Terceiro. Naquele, o proletariado diminuiu em termos relativos e absolutos por força da automação da indústria. No final deste século, a proporção dos operários blue collar nos Estados Unidos e na Europa Ocidental terá decrescido para cerca de 10 por cento do total da população, que é a porcentagem dos agricultores de hoje. Os operários já não constituem a maioria da sociedade e tendem a integrar-se plenamente nela, como previu Marcuse.
O consagrado cientista social Peter Drucker, num trabalho ainda não publicado no Brasil, assinala que, em 1986, os fundos de pensão dos empregados da América possuíam cerca de 50 por cento do capital social das empresas do país e perto de 70 por cento do capital social das maiores companhias. No ano 2000 os fundos de pensão controlarão, no mínimo, dois terços do capital em ações dos negócios da América do Norte e os empregados americanos, no fim do século, através dos seus fundos de pensão, se tornarão os proprietários dos "meios de produção". Drucker observa que a mesma tendência se vem verificando no Japão, Alemanha Ocidental, Inglaterra, França e Itália. Em face disto, poder-se-á especular sobre o destino do capitalismo; não, porém, abrigar ilusões sobre revolução política.
Já no Terceiro Mundo, o proletariado é pequeno e frágil. Aliás, vários cientistas políticos, especialmente Samuel Huntington, destruíram o mito da vocação revolucionária do proletariado. Partindo da conclusão acertada de que a grande contradição social do século XIX era a que opunha burgueses a proletários, os marxistas depositam suas esperanças no operariado como agente da revolução.
Mas nem toda contradição de uma época se resolve pela vitória de um dos seus pólos. Na Idade Média a contradição principal era a que apresentava como antagonistas barões e servos. Entretanto ela se desfez sem que os últimos alcançassem o poder, como não o alcançaram os escravos na Antiguidade. O certo é que no Terceiro Mundo os proletários tendem para o reformismo ou para a formação de aristocracias operárias.
Nos países subdesenvolvidos ou em desenvolvimento, a mistura explosiva consiste no acoplamento subversivo de intelectuais urbanos e camponeses. Estes últimos, isoladamente, se perdem na simples rebelião de horizontes para o passado. Aliados aos intelectuais, alcançam o patamar revolucionário. A revolução social, portanto, é exequível pela aliança de camponeses e a intelligentzia da classe média, como ocorreu na China, em Cuba, no Vietnam etc. Todavia, mesmo a mais poderosa daquelas novas nações comunistas, a China, precisou da ajuda soviética no período 1949/60. Hoje tudo mudou. A URSS da perestroika terá que enfrentar muitos problemas e riscos no plano interno. Não se dispõe a aventuras no exterior que reacendam a guerra fria e sobrecarreguem uma economia destinada a sofrer profunda transformação.
A revolução internacional proletária já era um sonho. Agora é uma quimera.

O Globo, 28/06/1988

 
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