A abertura soviética
Humberto Braga

"A União Soviética parece muito menos em crise do que os Estados Unidos, mas, na realidade,lá os fatores de crise são inibidos antes de virem à tona."
(Edgar Morin, Para Sair do Século XX)

Uma estada de 17 dias, em julho, na URSS, colocou-me na posição de espectador privilegiado da glasnost. Mas não me alongarei sobre aquilo que já foi abundantemente acentuado em outras publicações: a substituição da centralização econômica por empresas autogeridas e autofinanciadas, os preços refletindo os custos e não as decisões dos planejadores, a transparência na imprensa e na administração, o controle público da atividade governamental, candidatos, em todos os níveis, em número bem maior que o dos cargos eletivos etc. Tudo isto - que nada tem a ver com restauração do capitalismo - leva a uma indagação: a URSS teria se democratizado? A resposta é negativa. Democracia exige liberdade política e participação popular. Ora, se a liberalização soviética é evidente e progressiva, a participação popular permanece nula ou ínfima. Todavia, para muitos, o fato mais espantoso foi ter havido mudança naquele país. Desde a consolidação stalinista, os observadores têm salientado a congelante rigidez do sistema soviético. Em contraste com o dinamismo ocidental, nada acontecia de transformador ou inovador na estrutura política e econômica do país líder da "Revolução Proletária". Esse fenômeno suscitou interpretações. Para alguns, como Wittfogel, a União Soviética não é uma sociedade socialista e sim a forma industrial "do modo de produção asiático", característico dos impérios despóticos do passado, nos quais todo o poder se concentrava na burocracia, fosse ela militar, sacerdotal ou letrada. O traço dominante dessas formações históricas foi a sua imutabilidade social. Nelas, para usar a terminologia hegelianamarxista, as contradições internas eram muito débeis (não havia sociedade civil) e o sistema só era alterado por contradições externas. O Império Egípcio durou, imodificável na sua estrutura sócio-econômica, por 3 mil anos, até ser destruído pelos persas. Na mesma condição de inalterabilidade, o Império Chinês viveu 2 mil anos até ruir pela ação predatória dos imperialismos ocidentais. ·
É dispensável multiplicar exemplos, pois o fato mais extraordinário da glasnost foi o próprio Gorbachev, no histórico discurso perante o Comité Central do Partido Comunista, reconhecer e proclamar a existência de contradições na sociedade soviética e preconizar a abertura como decorrência delas. Ora, contradição social não é outra coisa senão conflito. E quem diz conflito diz oposição. O reconhecimento da inevitabilidade de um implica necessariamente o da legitimidade da outra. Num artigo, publicado há anos no JB, citei Kolakowski, para quem a grande falha do marxismo ortodoxo é a promessa de vida social sem antagonismos. O pensador polonês frisava que o conflito é inerente à sociedade, seja qual for o seu regime político ou o seu modo de produção. O erro funesto de Lenin e Trotsky, em 1921, ante a Oposição Obreira, foi o de não terem compreendido que, mesmo sob a "ditadura do proletariado", as contradições subsistiam no seio deste e, pois, justificavam a existência de mais de um partido operário. As contradições internas eram frágeis e insignificantes nos impérios burocráticos pré-industriais mas não no modelo da URSS.
Eis que, agora, os conflitos reprimidos da sociedade soviética emergem e determinam a sua mudança. Como será esta? Conhecemos seus objetivos modernizadores, porém não os seus caminhos. Na tradição histórica da Rússia, as grandes transformações tiveram curso relativamente rápido e terrívelmente brutal. Gorbachev, admitindo oposição aos seus projetos mas sem nomear os opositores, pretende que a glasnot seja incruenta. Poderá ele comandar o seu processo e alcançar os fins almejados? Deixando de lado a hipótese sempre possível de malogro e queda no estilo revolução de palácio, que já vitimou antecessores do atual líder, como Malenkov e Krutchev, deve-se recordar que Pedro o Grande conseguiu executar sua formidável tarefa reformadora e que Stálin promoveu; com a coletivização agrícola, uma revolução social de proporções colossais sem declínio, antes com acréscimo, do poder que detinham. Por outro lado convém não esquecer os efeitos diversos da Revoluçao Francesa que também teve início em ação de cima para baixo. Foi o próprio Luís XVI quem convocou a assembléia - Estados Gerais de 1789 - que iria, pouco depois, fazer em pedaços a autoridade real.
Se Gorbachev tiver êxito, quais serão os reflexos e repercussões no plano internacional? Não acredito em encerramento definitivo da guerra fria, pois a rivalidade americano-soviética tem mais caráter de disputa hegemônica do que ideológica. Contribuirá, porém, a glasnost para uma aproximação maior entre o Ocidente e Oriente? Alguns acham que, removidas as cadeias totalitárias, o comunismo aparecerá com uma feição mais aceitável ou tolerável. Contudo há quem julgue de modo diverso. De um opúsculo, em língua espanhola, que apanhei numa estante de aeroporo na URSS, transcrevo o seguinte trecho de Uwe Engelbrecht, jornalista alemão acreditado naquele país: "Recentemente li um artigo de um jornalista estadunidense no qual se diz que o que ocorreu aqui é uma catástrofe ideológica para os que detêm o poder em Washington. Em termos gerais assim é."
O futuro é índevassável, mas uma certeza se impõe ao juízo de todos: a abertura soviética, sejam quais forem seus resultados, é o mais relevante e sensacional fato político da década, até agora, em escala mundial.

Jornal do Brasil, 06/08/1987

 
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