Preconceito
Humberto Braga

O entendimento mais difundido de elite é o de grupo social dirigente. A utopia socialista profetizou seu fim, mas a ciência política (Michels e outros) demonstrou que toda organização social é inevitavelmente hierarquizada. Contudo, se a elite é permanente, as elites são transitórias, sujeitas ao declínio e ao desaparecimento. Pareto apontou a História como um cemitério de elites. Mas, a elite brasileira, a que agora especificamente me refiro é aquela constituída por segmentos da classe média alta nos grandes centros urbanos; Trata-se, pois, de uma determinada elite. Ela não é vanguarda econômica ou cultural, porém, vê-se como uma aristocracia intrinsecamente superior à massa ignara e anônima. Sua dominante expressão política é a de apaixonada hostilidade ao atual presidente da República. Obviamente, redução da desigualdade social implica perda da importância relativa do estamento superior. Para um grande jornal conservador francês, o recuo da pobreza que está acontecendo no Brasil, sem convulsões, sob a ação governamental, é “spéctaculaire” com a emergência de uma “nouvelle classe moyenne” (Le Figaro, 2/10/2007). Mas, ressentimento não basta para explicar a furiosa aversão a Lula. Presidentes cujos governos foram marcados por violências e perseguições não suscitaram tamanho ódio. Aqui entra o preconceito. No seu negativismo radical, os inimigos do presidente chegam a atribuir os incontestáveis êxitos macroeconômicos do atual governo ao anterior que se encerrou há 5 anos. Outros argumentam que esses êxitos se deveram à conjuntura internacional favorável, como se fosse possível o país crescer numa desfavorável. Na realidade, não estão interessados no desempenho de Lula, pois o que não lhe perdoam é sua origem.

A bandeira que ora mascara o preconceito é a do moralismo, exploração política da moralidade. Esta é incompatível com o preconceito, que não é apenas um colapso da razão, mas também uma afronta ao sentimento de justiça. Para os moralistas, a corrupção política é o mais Importante problema nacional. Só raramente sua atenção se concentra nas grandes questões econômicas e sociais. Catão é paradigma do extremismo moral na política. Na verdade, ele foi um ardente defensor dos privilégios da elite de seu tempo, contrariados pelo “imoral” César.

O moralismo político é fenômeno recidivante na nossa História. Quem não se lembra daqueles líderes purificadores, fumegantes de indignação, que prometiam a regeneração moral do país? Alguns alcançaram o poder, não porém os objetivos que anunciavam. Fosse como fosse, muitos acreditaram neles. A necessidade de denunciar crimes e abusos na política é de rutilante evidência. Mas essas, embora meritórias, não são as atividades públicas fundamentais. Polícia e coleta de lixo são indispensáveis, mas não são as mais relevantes funções do Estado. Reprimir a corrupção é dever indeclinável e permanente dos poderes nacionais, em casos concretos, com estrita observância da lei. Transformar esse dever em cruzada e programa de governo é uma aposta em mistificar os cidadãos e solapar a democracia.
O Globo / Caderno Opnião - pág. 07, 31/12/2007

 
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