O extremismo na política
Humberto Braga

De uma brilhante professora universitária ouvi: ''Sou socialista, mas não aceito qualquer modalidade de socialismo.” Até aí tudo bem. Todo projeto político deve sofrer qualificações, na especificação dos fundamentos e finalidades, à luz dos valores do seu autor. Mas, passando da teoria à prática, minha interlocutora abordou o problema de sua execução, para assinalar que a violência, quando levada a certos extremos, lhe parecia inadmissível. Nesse ponto as coisas se complicam. Em princípio, abstraindo-se as condições de tempo e de lugar, não será possível rejeitar, a priori, o emprego da violência a quem se dispuser a operar uma rápida transformação política e social Se é insensato apelar para ela na Inglaterra, já não o será no Zaire ou na Uganda. Os privilégias feudais desapareceram na Suécia sem confrooto sangrento. Na França ele foi inevitável.
Mas a ilustre professora admite, em certos casos, o uso da força. Repele apenas o seu abuso. Isso levanta uma fascinante questão. Desencadeada a violência, será possível dosá-la ou controlá-la? A história dá desapontadoras respostas a essa pergunta. Pois quase todos os lideres revolucionários foram muito além dos objetivos que desejaram e até atingiram alguns que dantes lhes inspiravam horror. Essa verdade exprimiu-a bem Carnot – organizador da vitória contra os invasores da França republicana e descobridor de Bonaparte -, ao dizer: "Não se é revolucionário, fica-se sendo."
Ainda em junho de 1793, a Junta de Salvação Pública não antevia o Terror que iria iniciar em outubro desse mesmo ano. O próprio Robespierre, símbolo do Terror Jacobino em 1793/94, se dizia monarquista constitucional e atacava veementemente a pena de morte em 1791! E seria injusto acoimá-lo de insinceridade. O Incorruptível e seu célebre dísdpulo Saint-Just foram conduzidos pela ''force des choses''.
Trotsky, na imagem que transmitiu de Stálin, pretendia que o terrível déspota já existia, embuçado, desde os primórdios da Revolução de 17, esperando apenas a ocasião para exercitar sua ferocidade. Ora, quando em 1923/24, na época da Troika, Zinoviev secundado por Kamenev, propôs a prisão de Trotsky, Stálin vetou-a. Vejamos sua linguagem de então: "Quant aux répressions, j'en suis l'adversaire déclaré. Il nous faut maintenant non des répresioos mais une lutte idéologique développée contre le trotskisme”... (Boris Souvarine, "Staline", pág. 329, Editions Gérard Lebovici). Agora, é muito fácil asseverar que aquela moderação era hipócrita. Mas, realmente, a face monstruosa do ditador só se revelou muito mais tarde – após o desastre da coletivização agricola -, quando ele, embora alvo de adoração bizantina pelo partido que o guindara ao poder absoluto, vivia obcecado pela ameaça de uma invasão alemã ou japonesa.
Mas a Revolução Russa é rica em ensinamentos desse tipo. Nem todos sabem que os bolcheviques, já no poder, toleraram, durante certo tempo, os partidos de oposição e permitiram eleições para a Assembléia Constituinte. Só a dissolveram ao verificar que não tinham maioria nela. Malogro do bolchevismo parlamentar... E o implacável Lénin, em pleno Terror vermelho - que não foi implantado imediatamente após a Revolução -, empalideceu quando Dzerjinski, chefe da Tcheca (polícia política bolchevique), lhe entregou a relação dos contra-revoludonários fuzilados.
Muitos sustentam que a hedionda Solução Final nazista já estava prefigurada em "Minha Luta", de Adolf Hitler. Não tentarei excusar a responsabilidade do execrável tirano pelo holocausto, mas força é considerar alguns dados do problema. O Fuehrer empolgou o poder em 1933. Até à famosa Noite de Cristal, em novembro de 1938, os judeus da Alemanha sofreram uma vida penosa. porém suportável. Eram alvo de discriminações e humilhações, mas não eram massacrados, espancados ou despojados de seus bens. Vejamos um testemunho expressivo: "As primeiras restrições que se impuseram aos judeus, em 1933, foram tão pouco decisivas, tão moderadas, que pareciam denotar, da parte do Fueher, uma transigência deliberada na aplicação de seus princípios." (John Toland, "Adolf HiUer", vol. 2, pág. 603, Francisco Alves). Simples tática! De qualquer maneira, cabe a pergunta: haveria a Solução Final sem a catástrofe da guerra?
Até agora invoquei exemplos extremos. Entretanto, generalizando, pode-se afirmar que, não apenas nas situações revolucionárias mas em todos os casos de ditadura ou governo "excepcional", os detentores máximas do poder não conseguem controlar a violência. Aliás, o ditador que autoriza a repressão não assiste a uma execução ou a uma sessão de tortura. Esses sinistros acontecimentas são meros detalhes de uma orientação política. Mas como ditadura significa ilegitimidade necessariamente gera insegurança. Em tais condições, os órgãos responsáveis pela segurança adquirem força desmesurada e, não raro, aprisionam o chefe do Estado e lhe impõem a aprovação de seus métodos. Mesmo sob Napoleão, que, com a sua infatigabilidade e a sua determinação extraordinárias, ocupou todo o espaço de poder ao seu alcance, Fouché, o famoso ministro da Polícia, desenvolveu uma política própria que, frequentemente, contrariava a do imperador. E não foi fácil ao corso livrar-se dele. Tibério, na Roma imperial, acabou liquidando Sejano, mas sofreu por muito tempo a sua funesta influência. Até mesmo nas democracias isso pode acontecer. Presidentes dos Estados Unidos, democratas ou republicanos, tiveram que engolir, durante décadas, o indemissível e prepotente Edgar Hover, chefe do FBI.
Acaba de sair um impressionante livro: "Olga", da autoria de Fernando Morais. Os mais encarniçados adversários de Vargas hesitariam, em apontá-lo como cruel, desumano, impiedoso. Mas ele, na vaga repressiva de um estranho "estado de guerra'', assinou o decreto que entregou a mulher de Prestes aos nazistas. Sua responsabilidade política é evidente, mas refletiria aquele ato a personalidade de quem o subscreveu? Seria ele real manifestação de sua vontade?
A conclusão de todos esses exemplos é clara. Sartre escreveu que política se faz sujando as mãos até no excremento. E, quem quiser enveredar pela aventura revolucionária ou cobiçar o poder arbitrário, deverá preparar-se para mergulhá-las em sangue e, até mesmo, a contragosto, banhar-se nele.

Folha de S.Paulo, 18/11/1985

 
artigos | discursos | sobre HB
Política externa – esta desconhecida
04/10/2012

Depois do Julgamento
28/06/2012

Algumas imprevisíveis alianças políticas
22/06/2012

Mundos apartados
30/03/2012

Direita e esquerda
05/03/2012

O senhor Merval Pereira, em artigo no O Globo de 9/9/11
19/10/2011

Os fins e os meios na política
15/07/2011

A Sonhática
01/07/2011

Respostas às críticas ao artigo “Moralismo Antidemocrático”, publicado na Internet, em vários sites
15/05/2011

Moralismo antidemocrático
01/05/2011

A Constituição e a Lei da Ficha Limpa
15/04/2011

Problema jurídico e político
10/01/2011

Declínio e queda do comunismo
19/11/2010

Exemplos de ação e omissão na política
01/10/2010

Alternância de poder
09/09/2010

História para principiantes
30/08/2010

Americanismo e antiamericanismo
16/08/2010

Ética na política
09/04/2010

Erros de visão em história e sociologia
01/01/2010

A ascenção do Individualismo
01/09/2009

História teimosa
01/09/2009

O Estilo Político de Carlos Lacerda
15/05/2009

Moralidade e Política
2009

Erros de visão em história e sociologia
2009

Carta a um amigo
2009

Bárbaros
13/10/2008

Tropel dos Bárbaros
2008

Caymmi, um gênio da raça
21/08/2008

O Tribunal de Contas e a Moralidade
05/06/2008

Preconceito
31/12/2007

Juscelino e a Revolução de 64
2007

Alguns aspectos positivos do Governo Lula
23/10/2006

Moralidade e Política
21/08/2006

A Vida depois da Morte
2006

O General da Reabertura
24/11/2003

Guerra e crime
21/04/2003

Alguns Comentários sobre Literatura
2002

Tortura e terrorismo
19/03/2001

A viagem e a morte
17/02/1997

O Mago no Trânsito
1997

Nelson Carneiro, o homem público
28/03/1996

Prefácio do livro de Julieta Wendhausen de Carvalho Gomes
06/09/1993

Homenagem a Ulysses Guimarães
01/03/1993

Vicissitudes do moralismo
13/03/1992

Quem traiu?
01/10/1991

A esquerda viável
30/07/1991

A miragem neoliberal
29/12/1990

Passagem pela Índia
24/12/1989

França e Rússia: duas revoluções
25/07/1989

Estabilidade e efetivação
26/11/1988

Do sonho à quimera
28/06/1988

A abertura soviética
06/08/1987

Que é uma Constituição
21/03/1987

As Megalópoles e sua tragédia
20/08/1986

O extremismo na política
18/11/1985

Pessimismo em alta
23/09/1985

Excessos de defesa da democracia
01/08/1985

A China pós-maoísta
12/12/1984

João Figueiredo em toda a sua glória
06/12/1984

O homem da pasta negra
04/12/1984

Doutor Tancredo
30/11/1984

Bolivar e o destino da América Latina
02/09/1984

A ONU é insubstituível
22/01/1984

No centenário do nascimento de Keynes e Schumpeter
01/12/1983

Ainda o problema da violência
29/04/1983

Gandhi e a não-violência
21/03/1983

Esperando os Bárbaros
02/02/1983

A encruzilhada das Cortes de Contas
02/12/1982

Diagnóstico da Direita VI
01/12/1982

Diagnóstico da Direita V
27/11/1982

Diagnóstlco da Direita IV
17/11/1982

Diagnóstico da Direita III
15/10/1982

Diagnóstico da Direita II
08/10/1982

Diagnóstico da Direita I
22/09/1982

A importância de "Os Sertões"
01/09/1982

Saber e poder
28/07/1982

Líderes e heróis no banco dos réus
10/03/1982

A possibilidade de progresso moral
27/12/1981

Wagner, Israel e a intolerância religiosa
27/11/1981

Lições da China
14/04/1981

A prevenção de um crime
11/02/1981

O cinquentenário da Faculdade de Ciências Econômicas da Universidade do Rio de Janeiro
01/08/1980

A prevenção de um crime
10/03/1980

Os trinta anos da Revolução Chinesa
01/10/1979

Ligeiros arranhões na púrpura imperial
22/01/1976

A técnica: vitorias e perigos
01/01/1972

O julgamento de Otelo
21/12/1971

O destino da livre iniciativa
01/08/1970

Perspectivas psiquiátricas
01/01/1970

Paisagem
1970

Psicogenese e psicopatologia da esterilidade involuntária
01/12/1966

A personalidade humana e a maturidade mental
Relembrando antigas lições
O conhecimento histórico
Adam Smith e o seu tempo
Mandato criminal