Pessimismo em alta
Humberto Braga

Parodiando Gilberto Amado que, na década de 20, proclamara não haver mais lugar para os liberais, poderíamos dizer agora: não há mais lugar para os otimistas. E isso se aplica não apenas ao nosso sofrido País como também ao mundo inteiro. A partir do século 18, enraizou-se no Ocidente a crença na inevitável perfectibilidade do ser humano iluminado pela Razão. A ela juntou-se, na centúria seguinte, a certeza de contínuo progresso técnico e econômico. A História seria uma permanente ascensão material e espiritual da humanidade. Nesse coro, de que Comte e Spencer foram as vozes dominantes, houve algumas dissonâncias como Schopenhauer, Wagner e Nietzsche. O último chegou a anunciar que um século de barbárie se aproximava e a ciência estaria a seu serviço.
Esse mundo ideológico sofreu terrível abalo com a Grande Guerra de 1914-18 e o seu reflexo no plano intelectual se fez sentir em obras como "A Decadência do Ocidente", de Spengler, e "Uma Nova Idade Média", de Berdiaeff. Apesar da crise de 1929, a eclosão dos totalitarismos alentou a expectativa otimista. O da direita exaltava os valores da raça, da nação, do Estado. O da esquerda pregava a igualdade social e a solidariedade internacional. Com todas as suas monstruosas configurações políticas, o marxismo-leninismo passou a ser a grande mensagem otimista do nosso século, pois, a despeito do seu materialismo, interpretava a História como um processo ao mesmo tempo necessário e benfazejo. Hoje tudo isso foi posto em questão e à crise do capitalismo somou-se a do socialismo. É cada vez maior o número dos que duvidam da capacidade desses sistemas de eliminar a guerra e as profundas desigualdades sociais ou internacionais. E o próprio cristianismo, suprema força espiritual do Ocidente, não pode oferecer visão otimista do mundo, pois a crença no contínuo aprimoramento dos homens colide com o dogma do pecado original. Até ao fim dos tempos, cada criatura será uma alma a salvar.
Para mim, a interpretação da História adotada pelos marxistas ortodoxos, que a apresentam como ininterrupto desenvolvimento - escravismo, feudalismo, capitalismo, socialismo - impulsionado por miraculosa força material, é de uma puerilidade atroz. Só a mais rombuda ignorância não se aperceberá de que a primeira fase da chamada Idade Média foi uma regressão em face da antiguidade clássica, que lhe era superior em quase tudo. Ali houve um nítido colapso de civilização. E nada assegura que catástrofes ainda maiores não possam sobrevir. Uma coisa é dizer que a História tem sentido. Outra é afirmar que ela tem um sentido único predeterminado. Uma coisa é sustentar que ela é inteligível. Outra é asseverar que tem finalidade.
Hoje os homens deparam uma· situação em que o mundo socialista perdeu a sua magia (universo asfixiantemente totalitário que não consegue sequer garantir a paz entre seus membros) e o mundo capitalista perdeu o seu prestígio (está na defensiva no Terceiro Mundo e a sua única verdadeira messagem é a da ordem). O ambicioso universitário de ontem antevia frutuosa carreira profissional. O frustrado universitátio de hoje se pergunta se conseguirá um emprego para viver. Não surpreenderia, assim, que, diante das tétricas possibilidades da guerra nuclear, da explosão demográfica, da catástrofe ecológica, do definhamento econômico, da crescente desigualdade entre as nações, do desenvolvimento avassalador de uma tecnocracia que talvez se converta na mais inumana das elites dominantes, viessem, homens e povos, a perder a esperança na História.
Daí poderiam resultar o repúdio ao racionalismo e a "volta ao sagrado" vaticinada por Sorokin, Bell e outros. Reviveríamos, então, a experiência do Baixo Império Romano, quando o cristianismo e também outros cultos orientais, como os de Ísis, Cibele e Mitra, minaram os seus valores e alicerces espirituais. Esse renascimento religioso abreviaria, mais ainda, o fim da nossa civilização, pois, como advertiu Popper, uma crise de misticismo seria fatal ao progresso técnico e científico, por implicar a destruição dos seus fundamentos subjetivos.
Mas, enfim, se nada é inevitável na História, o pessimismo é tão arbitrário quanto o otimismo. Tal como no passado, o destino do mundo dependerá da .ação e do discernimento dos homens, em cuja trajetória na Terra se alternaram os triunfos e os malogros.

Folha de S.Paulo, 23/09/1985

 
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