A China pós-maoísta
Humberto Braga

O reconhecimento do anacronismo de algumas teses de Marx e de Lenín, pelo Partido Comunista Chinês, não constitui surpresa para quem vem acompanhando o processo econômico e político da China pós-maoísta. Em contraposição ao delírio radicalista da Revolução Cultural, o Governo de Pequim, num movimento pendular, entroniza o pragmatismo como suprema norma de conduta e orientação. Daí muitos, no Ocidente, inferem ou prenunciam, com apressada satisfação, que o grande país orientai está a caminho da restauração capitalista e da democracia política. A meu ver, incorrem eles em total equívoco. A via adotada pelos comunistas chineses poderá, no máximo, apressar o desenvolvimento econômico e o progresso tecnológico, mas em uma sociedade basicamente estatizada ou coletivista, com áreas de privatização. Tal como, inversamente, ocorre no Brasil: economia privada, com áreas de estatização. E por que seria impossível a ressurreição do capitalismo naquele pais? Simplesmente, porque ele se encontra sob o completo domínio de uma burocracia onipotente, que controla Estado e sociedade e consequentemente desinteressada de sua autodestruição. A nomenklatura chinesa não é menos ambiciosa e autoritária do que a soviética. É apenas mais plástica e oportunista e isso por força das diferentes condições econômicas e militares dos dois países. China aspira a ser tão poderosa quanto a U.R.S.S., desde quando se patenteou a falácia do internacionalismo comunista. E o seu regime continua tão totalitário quanto o que tem sede em Moscou. China e Rússia são impérios burocráticos da era industrial, sucessores históricos dos Estados despóticos do passado que Marx colocou na órbita do "modo ele produção asiático". E nenhuma daquelas grandes burocracias, fossem elas teocráticas, militares ou letradas (caso dos mandarins na China lmperial), promoveu voluntariamente o seu próprio aniquilamento. Os líderes chineses de hoje proclamam a obsolescência de muitos postulados marxista, mas não repudiaram o regime "socialista". Socorrem-se, agora, de mecanismos do mercado e da liberalização de controles estatais na economia, à semelhança do que fez Lenin, no começo da década de 20, ao substituir o radical Comunismo de Guerra pela liberalizante Nova Política Econômica (NEP). Todo sabemos que a NEP não implantou, na U.R.S.S., o regime da propriedade privada dos meios de produção e da livre iniciativa. E nada assegura que não possa sobrevir, na China, uma outra vaga que submerja os "desviacionistas de direita", tal como aconteceu, sob o stalinismo, em 1928-30. O real progresso dos chineses foi o de não aceitar como dogmas evangélicos as teorias de Marx. E este, se vivo fosse, talvez os aprovasse. Isto porque os orientais não abandonaram os pressupostos filosóficos do materialismo histórico. Rejeitaram, apenas, alguns preceitos e conclusões da economia marxista. O Partido Comunista Chinês desprendese da camisa-de-força doutrinária, sem renunciar à dominação da sociedade sobre a qual exerce multímodo, onipresente jugo. Nem por isso se conclua que a U.R.R.S. é mais socialista do que a China. O regime russo está para os ideais de Marx, assim como a Igreja medieval estava para os ensinamentos de Cristo. Em ambos os casos, a doutrina serviu como instrumento ideológico dos sistemas de poder. Os chineses, sagazmente, se deram conta do estiolamento e da esclerose do marxismo oficial ou ortodoxo. Mas isto não deve alimentar otimismos ingênuos. Na China e na Rússia impera, absoluto, incontrastável, o Estado leviatânico, sustentado pelas gigantescas estruturas burocráticas de seus respectivos partidos comunistas.
Última Hora, 12/12/1984

 
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