João Figueiredo em toda a sua glória
Humberto Braga

Estamos assistindo a um fenômeno inédito em nossa história política: a apoteose ao candidato da oposição coincide com a consagração ao Chefe do Governo. O Presidente Figueiredo, pela TV e pelo rádio, está divulgando sua obra administrativa. Todavia, não será ela, por mais alentada e fecunda, que dará a justa dimesão de seu relevo histórico. O atual Governo pode ser questionado sob muitos aspectos, mas as controvérsias sobre temas parciais parecerão menores face à grandeza da vitória política de seu Chefe, prenunciada no juramento, feito sob a inspiração do legado Cívico do pai, de fazer do Brasil uma democracia. Quem conhece História, sabe que tais façanhas são extraordinárias. Na Argentina, a restauração do poder civil se fez ao terrível custo de um desastre nacional. No Peru, só o estrepitoso malogro da tentativa quimérica de rasgar-se uma terceira via para o desenvolvimento econômico e a transformação social pemitiu o retorno ao Estado de Direito. A Espanha, sim, serve como paradigma de ressurreição gradual, pacífica e segura da democracia. Entretanto, lá, o fiador do processo que aboliu a ditadura, o rei D. Juan Carlos, pelo seu sentimento dinástico, jamais se reconheceria como produto do franquismo. Um monarca só deve lealdade à nação. Já o mesmo não poderia dizer-se de João Figueiredo. Quando sua personalidade veio ao público, despertou muita simpatia e pouca esperança. Para a maioria dos brasileiros, aquele general emotivo, franco, pronto a falar tudo quanto lhe passe pelo pensamento, às vezes ingênuo, frequentemente encolerizável, era um produto do sistema dominante e dificilmente dele se libertaria. O traço de Figueiredo, que tornou impossível fosse ele odiado, mesmo pelos mais encarniçados opositores, foi a sua incontestável generosidade. Esta, de quando em quando, era obscurecida por manifestações de mau humor e de mágoa. Contudo, a verdadeira face prevaleceu e o nosso criticável, mas humaníssimo Presidente bem poderia passar à posteridade como João, o Generoso. Sua capacidade de perdoar os que o agrediram e sua incapacidade de vingar-se dos que, a seu juízo não raro equivocado, o traíram, provam nossa conclusão. Mas o que irá inscrever esse valoroso e digno cavalariano entre as grandes figuras da história pátria foram a obstinação, a coragem e a paixão com que, sacrificando a própria saúde, conduziu vitoriosamente o país à plenitude democrática. São bem conhecidos os passos dessa marcha triunfal e não há porque rememorá-los aqui. Próximo do coroamento da obra gigantesca, houve um momento em que tudo pareceu comprometido. Muitos temeram que, no curso da sucessão presidencial, o Chefe do Estado se engajasse no apoio ao candidato situacionista, a ponto de participar do jogo bruto e desleal, preconizado por alguns, para assegurar a sua vitória. Mas a sensibilidade da História e o caráter entranhadamente íntegro do Presidente salvaram-no desse naufrágio. Só há democracia onde houver real possibilidade de alternância, no poder, das correntes que exprimem as tendências do povo. Se o General da abertura se empenhasse, num deplorável Vale-tudo, na eleição do candidato oficial e a alcançasse, isso poderia ser discutível êxito político, mas representaria indisfarçável derrota histórica. Pois ele iria, deliberadamente, transferir ao sucessor a glória de completar a obra redentora, que iniciaria. Agora sabemos, que toda essa glória caberá ao atual Presidente. E quando passar o Governo ao eleito da Oposição, João Figueiredo estará vivendo, para si mesmo e para o Brasil, - qual a Grã Bretanha de Churchill na resistência à investida nazista -, "o seu mais esplêndido movimento".
Última Hora, 06/12/1984

 
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