O homem da pasta negra
Humberto Braga

Sei que poderiam sorrir à minha afirmação de que esta história é verdadeira. Mas o fato é que não a inventei para a criação de um conto.
Salvador, Bahia, 1944. Não recordo o mês. Era um dia claro, com aquela luminosidade diáfana, que só a Bahia tem, e que sucumbe na agonia dos mais esplendorosos crepúsculos do trópico. Na grande sala de visitas do Forte de Santo Antônio, eu lia, absorto, As Proezas de Rocambole de Ponson du Terrail. O forte é uma soberba relíquia tricentenária da guerra contra os holandeses, 1.632, a data mais provável de sua fundaçao. De bastião temível oposto aos invasores calvinistas degradara-se à triste condição de presídio: Casa de Detenção do Estado. Para ali eu fui morar, aos cinco anos, em 1933, quando nomeado meu pai seu diretor, e dali sai, 11 anos depois, com a transferência de minha famflia para o Rio de Janeiro.
A residência do diretor ficava dentro da própria fortaleza, encimando-a. Era vasta e até confortável, para os padrões da época. Da sala de visitas, que tinha amplas janelas para o Largo de Santo Antônio Além do Carmo, com sua igreja também trissecular, eu podia, olhando para o interior, ver a sala de estar e, mais distante, a de entrada
Naquela tarde, daquele mês já não lembrado, eu, com 16 anos, estava só em casa. Aonde teriam ido meus pais e irmãs? Aquele era, provavelmente, um dia de festa. Qual delas? Há tantas festas na Bahia! Seria a de Reis: em cuja noite brilhavam os temos da Bonina ou do Girassol, nos desfiles pela Soledade, rumo da Lapinha? Ou estariamos no dia da grande pândega do Bando do Rio Vermelho, celebração da gloriosa e imprevisível Yemanjá? Seria a festa marítima da Ribeira, na Segunda-feira do Bonfim?
Fosse qual fosse, todos os de casa tinham pressurosamente saído, mas eu, embora sozinho, não me sentia solitário. Afundado numa cadeira de braços, perlustrava os poeirentos caminhos de França e de Navarra, devassava os seus castelos e me comprazia nos seus bosques, para aquelas plagas transportado pelo livro que tinha nas
mãos.
Ao descer a sombra da noite, acendi as lúzes e remergulhei na leitura. Eis que, subitamente, sem que o mais leve rumor rompesse o pesado silêncio, senti meus olhos atraídos para a distante sala de entrada. Vi, então, menos espantado do que curioso, a sua porta abrir-se lentamente, de um modo que me pareceu suspeito. Primeiro, surgiu um braço de homem, mas só ele bastava para sugerir timidez e insegurança. Ao erguer-me, pude ver a figura do intruso, que assomara no umbral da porta e ali estacara, entre hesitante e confuso.
Fui rapidamente ao seu encontro, mas ele, assim que me viu, recuou e desceu às carreiras a escada de pedra que dava acesso à residência do diretor. Ao chegar à porta, vi-o, embaixo, atarantado, tendo, junto a si, um soldado do destacamento do presídio. Indaguei ao último: "Quem é este homem? Como chegou ele aqui?" O soldado respondeu: "Ele disse que é do jornal". Voltei-me para o desconhecido e só, então, pude examiná-lo. Era um indivíduo de estatura mediana, nem magro nem gordo, tez macilenta, largos olhos cinzentos, cabelos castanhos, muito lisos, repartidos do lado esquerdo. ldade indefinível: 30 anos? 35? Por aí. Trajava um terno claro de caroá (estava na moda), com gravata escura. Nada tinha de realmente marcante ou expressivo nas feições ou no porte. Sua imagem era a de um homem comum, baço, incaracterístico, nem bonito, nem feio. O único traço que chavama, particularmente, a atenção, no seu aspecto pessoal, era uma reluzente pasta negra, que segurava com a mão esquerda. Percebia-se que era nova e quase não fora usada.
Observando o estranho, notei que o olhar e a boca ligeiramente entreaberta acusavam inquietação, ansiedade, talvez medo. Interpelei-o: "Quem é o senhor? Que deseja aqui?" Muito pálido, visivelmente perturbado, ele balbuciou algumas palavras desconexas, desarticulodas, das quais só pude entender "notícia... jornal". Pensei: seria um repórter desejoso de entrevistar o diretor do presídio? Mas, nesse caso, não teriam mandado aquele débil mental. O mais provável era o pobre diabo gostar de se fazer passar por jornalista. Como explicar-se, porém, a entrada sorrateira e a fuga desabalada, ao me ver? De qualquer maneira, sua aparência era a de um louco inofensivo.
Pedi ao soldado que o levasse para fora da Detenção. Impelido pela curiosidade, fui até a uma janela e busquei o homem no Largo de Santo Antônio, sofrivelmente iluminado. Ele desaparecera. Não sei se pela Ladeira da Água Brusca, pela dos Perdões, Rua dos Ossos ou até mesmo pela Rua Direita de Santo Antônio.
Após retomar o livro, que deixara na cadeira, ocorreu-me a pergunta: como pudera o esquisito personagem entrar na sala? Só havia uma explicação possível. A porta estaria aberta ou encostada A última pessoa que saíra se esquecera de fechá-la. Isso não era razoável, nem correto, mas, enfim, nossa casa ficava dentro de uma fortaleza protegida por uma guarnição de 20 soldados da Polícia Militar. Ali entravam muitos ladrões, sim, mas involutariamente...
Vottei à leitura e esqueci o episódio.
Esqueci-o tao completamente, que nem sequer o mencionei jamais a meu pai.

XXX

Rio de Janeiro, 1984, no meu apartamento em frente à Lagoa Rodrigo de Freitas, numa noite fria e chuvosa de agosto. Para não perturbar o sono de minha mulher, sentei-me no divã da sala de estar e ali fiquei assistindo a um filme da tevê, em semi-obscuridade, para melhor ver a película. Decorrido algum tempo, um sentimento premonitório afastou meus olhos da televisão. Vi, com horrorizado espanto, a porta da frente abrir-se lentamente e um braço de homem surgir da sombra. A princípio, nada pude fazer ou dizer, paralisado de terror. E este cresceu mais ainda, quando reconheci, já dentro da sala, num vulto tímido, vaciIante, talvez mais assustado do que eu o mesmo, o mesmíssimo homem, que, 40 anos antes, no Forte de Santo Antônio, tentara entrar na nossa antiga casa. Também trazia, segura à mão esquerda, uma pasta negra, igual à que portava outrora. O mais assombros, porém, era não haver envelhecido ou mudado, no curso desse tempo. As feições, a cor do cabelo, o formato do corpo, não tinham sofrido qualquer alteração!
Imóvel, adiante da porta, mirando vagamente, pela janela, as luzes da Lagoa, não parecia ter atentado na minha presença. Como um alucinado ergui-me e brandei-lhe: "Quem é você?! Que quer?! Como pôde entrar aqui?!” Voltando para mim os olhos arregalados, na face apatetada, ele murmurou: "O jornal... o jornal..." E logo se calou, como se a voz lhe faltasse. Corri ao meu gabinete, apanhei o revólver e voltei à sala disposto a atirar no homem da pasta. Mas ele sumira. Transtornado, entrei no elevador e desci ao andar térreo. Ao encontrar o porteiro, interpelei-o, aos gritos, sobre o misterioso visitante. "Ele foi embora, doutor, lá pra os Iados da Maria Quitéria". "Por que você o deixou entrar?" "Ele disse que tinha de falar com o senhor sobre o jornal". "Mas como pôde ele entrar na minha casa?! Como?! Como?!" perguntei, gritando cada vez mais alto, indiferente ao adiantado da hora.
Nesse momento, ouvi a voz de minha mulher e senti suas mãos nos meus ombros: "Ele quem? Quem entrou aqui?" Levantei-me, lívido, do divã na sala já então iluminada, e respirei fundo. Ainda tomado de grande agitação, fui ver a porta. Estava fechada à chave.

A Tarde, 04/12/1984

 
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