Doutor Tancredo
Humberto Braga

Um aviso prévio aos leitores que não me conhecem: nada pretendo e nada postularei, para mim, do futuro Governo federal. Se não morrer antes, vou permanecer no cargo que ocupo, até a aposentadoria compulsória.
Ungido pelo espúrio Colégio Eleitoral, o Presidente Tancredo Neves será, paradoxalmente, o maior portador de representatividade nacional, em toda a história republicana. Superando conflitos de classes e antagonismos de partidos, o veterano estadista já é hoje o eleito da sociedade brasileira. Não posso encarar o fenômeno, com a objetividade fria dos cientistas políticos. Para mim, desenganado agnóstico, aconteceu algo de providencial neste inesquecível ano de 1984. Dizem que não há homens insubstituíveis, mas é impossível apontar, no atual cenário político, alguém capaz de substituir Tancredo Neves nessa formidável ação aglutinadora. Para mim, é miraculoso que a transição do longo período de regime autoritário e governos militares para a Nova República se faça sob o signo da sabedoria, da experiência, da respeitabilidade, da compostura, do pragmatismo e também da firmeza do futuro Chefe do Estado. E a quem duvidasse da última virtude assinalada, no hábil e sereno mineiro, eu responderia: foi no convívio com Juscelino e Negrão de Lima, que observei serem esses mansos mineiros os homens públicos mais corajosos do Brasil. Tomemos alguns exemplos da carreira de Tancredo: 1) a bravura com que defendeu Vargas, na crise de agosto de 1954. Ele e Oswaldo Aranha foram os únicos Ministros que advogaram a resistência até o fim, em torno do Presidente. O grande Aranha, velho amigo de Vargas, era um arrebatado, afeito aos choques sangrentos nas coxilhas do Sul. Mas Tancredo era um jovem deputado - sem laços íntimos com Getúlio -, homem brando e pacífico que, provavelmente, nunca andara armado. Ele, aliás, previra a crise de 54. Em sua primeira aparição na TV, como Ministro da Justiça, denunciou com veemência "os golpistas impenitentes". 2) Recorde-se que Tancredo, digna e altivamente, recusou votar no Marechal Castello Branco, embora sob a ameaça do Al-1. Já fizera a estóica opção oposicionista e a ela foi fiel, durante 20 anos, discrepando de quase todos os vultos eminentes do PSD de Minas. Lembre-se, ainda, a exemplar solidariedade do ex-Primeiro Ministro a Juscelino, quando este foi submetido à tortura dos infindáveis interrogatórios. Josué Montello nos deu, sobre esse episódio, impressionante testemunho da destemida atitude de Tancredo. Enfim, evoque-se o seu gesto em não faltar à última homenagem prestada a um desventurado Presidente (Jango), quando o seu corpo voltou à terra natal. Tudo isso não se originou da paixão e sim do civismo.
Tancredo Neves unificou a Nação para a construção da Nova República. Ninguém espera prodígios de sua ação , mas todos têm a certeza de que, a partir do próximo ano, o Brasil estará entregue ao mais seguro dos timoneiros. Homens importantes e gente humilde do povo começam, em número crescente, a chamar o futuro Presidente de Dr. Tancredo. Isso significa algo ainda mais que respeito ou veneração. Isso quer dizer confiança. E para o mineiro simples, que jamais mudou no subir ou no descer, um dos menos vaidosos de nossos estadistas, imune à intriga e à cortesania, esta talvez seja a maior das honrarias. Sim, ninguém espera que, depois de março, a dívida externa desapareça ou que a inflação desabe verticalmente
das culminâncias. Mas todos sabem que nada ocorrerá de desastroso, insensato, sórdido ou vil, na escala nacional, porque lá no Planalto estará, vigilante, o Dr. Tancredo.

Última Hora, 30/11/1984

 
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