O General da Reabertura
Humberto Braga

As revelações contidas no extraordinário livro de Elio Gaspari, “A ditadura derrotada”, acenderam debates sobre a personalidade e o papel histórico do presidente Ernesto Geisel.

O regime militar durou 20 anos mas, frequentemente, seus representantes foram exemplos de rotundos malogros políticos. O primeiro, o marechal Castello Branco, com pouco mais de um ano no governo, viu-se acuado pela linha dura da sua corporação e só evitou ser deposto editando, o para ele indesejável Ato lnstitucional nº 2. E, apesar de munido de poderes ditatoriais, teve de aceitar a eleição do Ministro do Exército, o homem a quem menos queria como sucessor. A Constituição que outorgou (a de 1967) foi estraçalhada pelo AI-5, menos de dois anos após a promulgação.

Costa e Silva, em 1968, viu-se na mesma situação de Castello em 1965. Beneficiário da linha dura, teve de ceder à imposição dela, três anos depois, e a edição do AI-5 foi o preço que pagou para manter-se no poder. Ao que se afirma houve um mais alto: o de sua saúde.

Médici não apresentou novidades. Politicamente, seu governo se ateve à segurança do regime, que deixou a cargo do ministro do Exército, Orlando Geisel. Provavelmente nunca pensou em restauração democrática.

Enfim, Geisel: um general solitário, taciturno, autoritário por índole e por formação, com indisfarçável antipatia pelos políticos.

A esse homem caberia a missão histórica de trazer o Brasil de volta à democracia. Ele iria triunfar onde outros soçobraram. E o mais impressionante: faria isso sem ter convicção democrática!

Está bem manifesto no livro de Gaspari o desprezo do general pela vontade da maioria, sufrágio universal, políticos, Congresso etc. Geisel não tinha fumaças de liberalismo como Castello Branco. Nunca entoou profissões de fé na democracia. E também sabemos que justificou e autorizou a eliminação de insubmissos que não reconheciam a legitimidade do seu governo.

Então por que Geisel empenhou sua autoridade no arriscado processo de libertar o Brasil da canga do AI-5? Aqui assomou a marca do estadista. Certamente fez isso ao constatar o fosso crescente entre o regime e a sociedade. Deu-se conta de que a ditadura se tornara anacrônica, que desaparecera a base social, política e cultural que poderia dar-lhe suporte. O regime era uma excrescência em face da nação. Geisel deve ter se lembrado da frase de Napoleão: “Tudo se pode fazer com as baionetas, menos sentar-se sobre elas”.

Violências, abusos, arbitrariedades houve no governo Geisel, como em todos os governos ditatoriais no Brasil. Mas o general redimiu-se de muitos dos seus erros ao encetar corajosamente a trilha da reabertura. Foi ele quem vibrou o golpe decisivo na tortura institucionalizada ao demitir o general Ednardo D’Ávila Mello, comandante do II Exército, em cujos quartéis presos eram torturados até à morte. Também foi ele quem apagou a linha dura ao demitir seu chefe ostensivo, o ministro do Exército Sílvio Frota.

É claro que a redemocratização do país não se deveu apenas à ação vitoriosa de Geisel: a volta ao estado de direito foi obra, sobretudo, do povo brasileiro que naquelas memoráveis eleições de 1974 deu mostras de seu inconformismo e de sua rebeldia cívica. Mas sem Geisel a reabertura poderia tardar, ou não ocorrer a transição pacífica com que fomos abençoados.

Enfim, violência e crueldade são sempre condenáveis, principalmente quando praticadas pelo Estado, mas o julgamento do estadista deve ser feito com atenção a todas as suas dimensões públicas.
O Globo / Caderno Opnião - pág. 07, 24/11/2003

 
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