No centenário do nascimento de Keynes e Schumpeter
Humberto Braga

Keynes e Schumpeter foram dois gigantes do pensamento econômico do século XX. Sua contribuição representa um legado precioso e permanente ao patrimônio da cultura do Ocidente, e sua grandeza é avaliável pela luz que lançou sobre a economia moderna.
Todavia, o primeiro é bem mais famoso que o segundo. A que se deve tal fato? Manifestamente, o interesse pela análise da renda nacional foi maior do que pelo estudo dos ciclos econômicos. Keynes tinha um programa positivo para a crise de depressão. Schumpeter não o tinha. Keynes via o capitalismo como intrinsecamente desequilibrado. Schumpeter não pensava assim e se alinhou entre os críticos do New Deal. A obra de Keynes, no julgamento schumpeteriano, apresenta um modelo econômico estático e de curto prazo . É bem conhecida a resposta de Keynes ao argumento dos neoclássicos de que, a longo prazo, o equilíbrio tenderia a ser restabelecido. O economista inglês replicou: "a longo prazo, todos nós estaremos mortos". Já a análise de Schumpeter é de longo prazo. Para o mestre austríaco a crise do capitalismo não é resolúvel no âmbito do próprio sistema capitalista. Keynes, por outro lado, não entrevia a possibilidade de destruição final do capitalismo.
Podemos, realmente, considerar o keynesianismo aplicável, apenas, a uma economia desenvolvida, em crise de depressão (Schumpeter, com exagero, achava que o modelo keynesiano só era adequado à Inglaterra). Keynes refutou os neoclássicos e provou que pode haver equilíbrio sem pleno emprego dos fatores de produção, pois a economia não tende automaticamente a ele. A decisão de poupar e a de investir não se relacionam. Poupança não determina o investimento, como pensavam os neoclássicos. Primeiro se investe, depois se poupa e não o contrário. Assim, parcimônia privada não é virtude quando há falta de oportunidade de investimento. Cabe ao Estado determinar o nível dos investimentos, Keynes contestou a lei de Say (que nega a possibilidade de superprodução geral) e reclamou a intervenção do Estado, o Estado regulador. Ele subestimou o problema dos preços e atacou os da renda e do emprego. Apontando como fator fundamental da crise depressiva a insuficiência da demanda agregada, Keynes receita: 1) intervenção direta do Estado, através de gastos públicos e planejamento: 2) redução de impostos: 3) baixa da taxa de juro e expansão monetária (ele não temia os efeitos inflacionários dessa política monetária. Para Keynes, a teoria quantitativa da moeda era válida, mas só haveria inflação, decorrente do aumento da moeda em circulação, no caso de pleno emprego dos fatores de produção): 4) enfim, protecionismo, que poderia elevar o nível de emprego. Livre câmbio só seria útil na hipótese de pleno emprego. Obviamente os recursos contra a inflação seriam: redução do déficit público, aumento de impostos e redução da moeda em circulação.
Portanto, Keynes é o médico do capitalismo doente. Marshall e os outros neoclássicos se preocupavam com a escassez. Keynes preocupou-se com a pobreza em meio à opulência. Graças a ele, os economistas e os administradores passaram a atentar nas questões relativas ao Produto e à Renda nacionais.
A grande contribuição de Schumpeter foi o estudo do desenvolvimento capitalista. Ele o vê como uma ruptura do equilíbrio. E isso ocorre, necessariamente, em ciclos. Qual a sua causa? As inovações produzidas pelos empresários. A característica essencial do empresário capitalista é a de ser inovador. A inovação não é mera alteração quantitativa e sim mudança na função produtiva, mediante novos métodos de produção, novos produtos, novos mercados, novas fontes de matérias primas, novas formas de organização. Depois, a inovação se generaliza e a economia é reconduzida ao estado de equilíbrio, quando lucros e preços voltam a cair. O desenvolvimento se faz por ciclos, porque as inovações tendem a apinhar-se em determinados períodos históricos. Elas se difundem em ondas, após o que o retorno ao equilíbrio é automático, porém já aí num nível técnico superior ao do passado.
Embora sendo admirador do capitalismo. Schumpeter acredita na sua destruição final por motivos bem diversos dos invocados pelos marxistas. Para Marx, a crise do capitalismo se deveria à dificuldade de acumular, em face da tendência declinante dos lucros. Para Keynes, à dificuldade de investir. Para Schumpeter, a mudanças na estrutura social. Ele chamava a atenção para uma nova forma de concorrência, fundada na superioridade de qualidade e na maior racionalização do custo, que não provoca a baixa de preços e sim a eliminação do empresários mais fracos. É a destruição criadora do capitalismo. Consequente a ela, como um dos seus efeitos, sobrevém o crepúsculo do empresário inovador, gradualmente substituído por burocratas e acionistas. Ninguém mais se comporta como proprietário da empresa. O diretor assalariado é um empregado. O acionista é um parasita reivindicador. A burguesia, que deveria produzir os empresários inovadores em busca de lucro, perde a fé em si mesma e no seu direito, tal qual aconteceu com outras classes no curso da História. A planificação aumenta inevitavelmente com a complexidade e o tamanho da empresa. O processo econômico tende a automatizar-se e a despersonalizar-se. Aumenta o investimento público e, sobretudo, irreprimivelmente, a política de distribuição de renda a favor do consumo, de que são exemplo os vastíssimos programas de segurança social. O caminho está aberto para o socialismo, tanto mais quanto o capitalismo produz, em quantidade crescente, novos inimigos: os intelectuais, muitos deles desempregados.
Para Schumpeter, o socialismo é economicamente viável. Entende ele que o regime de propriedade público dos meios de produção e de planejamento central pode assegurar o equilíbrio global entre a oferta e a procura e orientar corretamente a produção e o consumo, isto é, pode alocar bem fatores de produção e produtos no mercado. Com essa conclusão, Schumpeter divergiu frontalmente de liberais como Hayek e von Mises.
Em conclusão: Keynes e Schumpeter foram dois gênios do pensamento econômico do século XX. Suas obras contribuíram para iluminar o nosso tempo. Todavi, nenhum dos dois tem o poder de curar ou remediar os males do Brasil contemporâneo. Keynes apontou a saída para uma economia capitalista desenvolvida, em crise provocada por insuficiência da demanda agregada. Que pode fazer o grande inglês por um país de economia não desenvolvida que, além de recessão, se vê abraços com avassaladora inflação de custos? Não há medicamento para nós na farmácia de Keynes. Ainda menos podemos esperar de Schumpeter. Ele estuda a crise do hipercapitalismo e da sua destruição criadora. Onde estão os empresários inovadores num país importador de tecnologia? Haverá condições ou oportunidades para eles no Brasil de nossos dias, onde já se discute até a viabilidade de um verdadeiro capitalismo? Em extremos opostos. marxistas e neoliberais nos assediam, ao insistir em resolver problemas novos com suas velhas fórmulas.
O fato iniludívél é que a teoria econômica está claramente atrasada em relação à nova realidade social, aqui e fora daqui. Ainda está por fazer a teoria econômica que diagnostique corretamente nossa enfermidade. O ilustre Professor Marcílio Marques Moreira declarou, recentemente, que a inflação brasileira não é explicável por nenhuma das teorias econômicas conhecidas. Não cairemos no idealismo ingênuo de esperar que a salvação do nosso país venha do pensamento de economistas. Aliás, devemos até abandonar a palavra salvação e substituí-la por solução. Mas podemos esperar que o saber humano descubra inteligibilidade, ordenação e coerência na teia aparentemente caótica dos fatos e indique os rumos da ação eficaz. Para isso, todos devemos esforçar-nos e é a crença no bom êxito desse esforço que justifica e alimenta nossas esperanças.

Revista do Tribunal de Contas do Estado do Rio de Janeiro, 01/12/1983

 
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