Gandhi e a não-violência
Humberto Braga

Um magnífico filme, que acaba de estrear no Brasil, atrai a atenção do mundo para uma das mais extraordinárias figuras do século XX. E, no entusiasmo agora suscitado pelo líder indiano, percebe-se a preocupação de apontá-lo como exemplo da possibilidade de êxito da política de não-violência.
Se muitos proclamam e louvam a santidade da vida do Mahatma, cumpre lembrar ter sido ele um homem público lúcido e tenaz, que perseguia com obstinação objetivos cuidadosamente prefixados. A não-violência para ele não tinha apenas o sentido de amor ao próximo. Era, também, uma técnica, isto é, um método, que lhe parecia mais razoável e eficaz do que o emprego da força. Gandhi sabia que a História é feita de cooperação e conflito, mas achava possível resolvê-lo pacificamente. E não há dúvidas de que a revolucionária tática da resistência pacífica contribuiu decisivamente para a libertação do seu povo.
Poderá tal exemplo pretender foros de universalidade? Para mim, a resposta é negativa. A ação de Gandhi foi bem-sucedida num determinado país, no seio de uma cultura específica e num momento histórico que lhe era particularmente propício. Tivesse ele enfrentado a Inglaterra do século XVIII – ou mesmo a do XIX - e, decerto, teria sido sumária e discretamente eliminado em algum remoto rincão da imensa Índia. Entrevistado por Pierre van Paassen, que narra o fato em Estes Dias Tumultuosos, o famoso "protetor" francês do Marrocos, Marechal Lyautey, afirmou-lhe que, se estivesse investido do comando na Judéia, teria mandado executar Cristo secretamente, na Galiléia, antes que a sua agitação subversiva empolgasse Jerusalém. Este, a seu ver, fora o funesto erro dos romanos... Por sua vez, se Cristo não brandiu a arma que anunciara ("Não vim trazer paz, mas espada", Mateus, 10.34), os cristãos cuidaram de impor seu credo pelo ferro e pelo fogo.
Voltando a Gandhi: sua tática seria praticável contra os regimes de Hitler e Stálin? O pacifismo do Mahatma não o salvaria de colher prematuramente a palma de um martírio inútil e obscuro, não fora a boa sorte de encontrar-se no centro de circunstâncias excepcionalmente favoráveis. Mesmo assim, não pôde impedir a tragédia que sucedeu imediatamente à independência de sua pátria, com os horrorosos massacres que se infligiram mutuamente muçulmanos e indianos. Estes sinistros acontecimentos são bem conhecidos dos que leram o best seller Esta Noite a Liberdade, de D. Lapierre e L. Collins. Por isso, muitos duvidam de que a não violência preconizada por Tolstoi - mestre e inspirador de Gandhi - fosse capaz de pôr fim à opressão czarista.
O problema da supressão ou atenuação da conduta violenta não oferece solução perceptível. Lorenz sustentou a existência de uma raiz biológica na agressividade humana. Maquiavel exigia do Príncipe as qualidades da raposa e do leão e lembrava que só os profetas armados triunfaram. Engels asseverava que a violência era a parteira da História. Para José Martí, o insigne poeta revolucionário cubano, os grandes direitos não eram conquistados com lágrimas e sim com sangue. Toda essa visão do mundo pode ser resumida num ditado russo: "Meta-se na pele de um cordeiro e você logo encontrará um lobo".
Não precisamos nos alongar sobre a questão da guerra - até hoje, apanágio indeclinável das civilizações -, tão bem estudada por Clausewitz, no passado, e por Quincy Wright (A Study of War) e Raymond Aron (Paz e Guerra entre as Nações), modernamente. Parece óbvio que a paz verdadeira é incompatível com a existência de Estados-Nacionais, cujo malogro é reconhecido por muitos, sem que ninguém se aventure a afirmar a proximidade de seu fim. Assim, guerras parciais continuarão a eclodir, embora se conserve a esperança de que bom senso e terror impeçam o extermínio universal.
Mas, mesmo em campo menos vasto e complicado, constata-se que a violência na política interna e a violência privada não mostram sinais de decadência. Estão poderosamente representadas naquele tipo de ação que se manifesta em tiranias, guerras civis, revoluções, golpes de estado, terrorismo, tortura, opressão a minorias, execuções, assaltos e criminalidade de sangue pura e simples.
Uma evidência logo se impõe: a violência não é eliminada pelo desenvolvimento econômico ou cultural. Se assim fosse, o nazismo não teria triunfado na Alemanha e os Estados Unidos não avultariam como um dos países mais violentos do mundo. Realmente, seriam os incas (não os astecas) mais sanguinários do que os conquistadores espanhóis que os dizimaram? Seriam os índios Sioux, Cheyene ou Comanche mais impiedosos do que os cavalarianos do General Custer, que os chacinavam? Seriam os negros da África Ocidental mais cruéis do que os europeus e americanos que os capturaram e escravizaram? Pode-se chegar à conclusão segura de que a Civilização Ocidental merece o campeonato mundial da violência.
Denunciando a violência institucionalizada nos aparelhos repressivos do Estado, os revolucionários escarnecem dos pacifistas do estilo de Tolstoi e Gandhi. Nas suas famosas Réflexions sur la Violence, Sorel dedicou todo o um capítulo à defesa da moralidade da violência, que certamente teria a aprovação de Marx e Nietzsche.
Nos nossos dias, o tremendo rol de violações dos direitos humanos, periodicamente apresentado pela Anistia Internacional, corre o risco de tomar-se monótono, pois cada vez escandaliza menos.
Se lançarmos os olhos para um campo específico, o dos delitos de sangue, ainda mais avulta, desconcertante e brutal, o comportamento violento do homem contemporâneo. Alguns autores têm pesquisado o assunto, onde estatísticas dignas de crédito o permitem. Nesse domínio, o livro mais interessante que me chegou às mãos foi Histoire de la Violence en Occident de 1800 à nos Jours, de Jean-Claude Chesnay, publicado em 1981. Lamento não poder resumir suas impressionantes 400 páginas.
No meu entender, a violência não é explicável por um fator natural. Ainda que ela tenha raízes biológicas, convém lembrar, como disse Ortega y Gasset, que o homem é mais história do que natureza. A "natureza humana" não é imutável. Também não acredito em determinações psicológicas. Há comunidades primitivas realmente pacíficas. Então, a violência deve derivar de fatores culturais, sociais, históricos, vale dizer, o homem não é necessária e inexoravelmente agressivo. Mas qual a transformação social que poderá remover esses fatores tão pouco conhecidos? Confesso que não sei. Sabe-se, com segurança, que a URSS, sob o stalinismo, foi, ao lado da Alemanha nazista, o mais violento Estado da História do Ocidente. E os demais países comunistas seguiram implacavelmente sua trilha de terror e opressão, décadas após a vitória dos seus regimes.
De tudo quanto foi escrito, concluo, pessimista, que Gandhi foi um símbolo de glória e um brazão de orgulho para o seu país e para a Humanidade, - pois sua lição e seu exemplo, vistos como horizonte ou farol, haverão de inspirar muitos à brandura e à generosidade – mas que, desgraçadamente, não subsistem as condições históricas que lhes permitam servir de modelo na solução dos amargos e mortíferos conflitos de hoje.

Jornal do Brasil, 21/03/1983

 
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